photo credit: flickrsampaist
Sei que vou andar num campo minado, sei que o que vou dizer é polêmico e não vai faltar quem critique e quem, por outro lado, apoie. Como tenho muito o que falar sobre o tema, já advirto que este será o primeiro post de uma série. Sem mais rodeios, lá vai: até que ponto a pirataria é o enorme bicho-de-sete-cabeças-besta-fera-do-apocalipse que as pessoas pintam? Acho que as pessoas não perceberam, mas a pirataria tem um lado muito positivo no final das contas. Para mim, adentramos na era do Trovadorismo Digital. O termo — talvez não o melhor, mas o primeiro que me veio à cabeça — se justifica pois para mim, o artista hoje deve realmente ganhar a vida com seus shows, pois a indústria fonográfica, pelo menos da maneira como conhecemos, está fadada ao desastre. E não acho que devemos culpar a pirataria — seria como culpar os africanos pelas minas terrestres que mutilam a eles próprios; não devíamos culpar os que venderam as minas? Da mesma forma, culpemos a indústria que viabilizou uma tecnologia que se tornou gradualmente mais barata de copiar as produções artísticas: o CD. Por querer ganhar mais dinheiro, deram um tiro no próprio pé. Explico-me. Certa vez vi uma entrevista com Hebert Vianna que falava que o advento do CD foi o maior logro da história fonográfica. Vejam bem: você comprava um vinil e ele durava a sua vida toda. O CD tem uma durabilidade notadamente menor, o que obriga um colecionador — como eu era — a renovar sua coleção pelo menos umas três vezes em sua existência. Era uma tecnologia muito mais barata a longo prazo do que o vinil e muito mais perecível, o que aumentou e muito seu faturamento num primeiro instante. O preço dos discos baixou? Não. Aumentou. Mas, ao adotar essa tecnologia, talvez eles não imaginassem que as indústrias dariam ‘minas’ para o consumidor comum: ele mesmo gravaria seus CD’s. Fora isso, a imensa carga de impostos que o Brasil cobra de qualquer indústria formal deu vazão a que alguns começassem a pensar em usar essa tecnologia — opa, não foram eles que criaram — para ganhar copiando as obras dos outros — que outros, perguntarão; dos artistas ou das gravadoras, que ficam com a maior fatia do bolo? Mas aí você diz: “o crime organizado usa o dinheiro da pirataria”. Minas terrestres. De quem é a culpa? Eu lembro que antigamente ter um disco pirata era coisa pra colecionador. Eu mesmo consegui uma raridade: um disco pirata de um show do Led Zeppelin. Pessimamente gravado, mas era uma raridade. Os mais jovens vão achar o que eu estou dizendo um completo non sense, mas os que já têm uns trinta devem saber do que estou falando. Houve, então, uma mudança de paradigmas porque naquela época era caríssimo produzir um vinil. Com a democratização da tecnologia do CD, quem segura a pirataria? Ninguém, pois mesmo que eles criem tecnologias para travar CD’s e DVD’s, com certeza se criarão formas de driblar isso, oferecidas por eles ou por um cidadão qualquer. Não há como parar a bola de neve. Eu acho que a internet é o Leviatã de nossos tempos: é a primeira máquina criada que nunca poderá ser desligada, isso é muito fascinante, mas é muito sério. Nós não temos mais poder sobre ela ao ponto de “desligá-la”. No máximo controlar — de alguma forma tosca — o conteúdo nela propagado, mas só. Compartilhamento de arquivos? Acho que nunca conseguirão impedir plenamente. Qual a solução, então? O Trovadorismo Digital, ora bolas! Assisti certa vez a um programa com o Fred 04, do Mundo Livre S.A. no qual ele dizia como eles estão se virando agora: criaram um selo, fabricam seus CD’s e vendem nos shows a R$10,00. Se eles fossem produzi-los por uma gravadora, segundo ele, cobrariam 80% para distribuir. Por outro lado, você vê uma banda alternativa como “Cansei de Ser Sexy” que junto com seu álbum coloca um CD virgem e com a seguinte mensagem: “Faça bom uso”, recomendando que gravem o álbum e dêm a um amigo. O problema do Trovadorismo Digital realmente vai ser para os grandes superstars, como Madonna, que tentou atacar a pirataria no lançamento de “American Life” divulgando faixas falsas na internet. Curiosamente, o que mais acontece agora é vasar albuns antes do lançamento. Para mega-astros, ter que vender seus CD’s olhando o público que compra — como os shows do Mundo Livre - é inadmissível. Como — dirão estupefactos numa reunião com seus advogados - vamos poder ser globais sendo trovadores? Realmente. Abaixo a Globalização.


