Trovadorismo digital (Primeira Parte)

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Sei que vou andar num campo minado, sei que o que vou dizer é polê­mico e não vai fal­tar quem cri­ti­que e quem, por outro lado, apoie. Como tenho muito o que falar sobre o tema, já advirto que este será o pri­meiro post de uma série. Sem mais rodeios, lá vai: até que ponto a pira­ta­ria é o enorme bicho-de-sete-cabeças-besta-fera-do-apocalipse que as pes­soas pin­tam? Acho que as pes­soas não per­ce­be­ram, mas a pira­ta­ria tem um lado muito posi­tivo no final das con­tas. Para mim, aden­tra­mos na era do Tro­va­do­rismo Digi­tal. O termo — tal­vez não o melhor, mas o pri­meiro que me veio à cabeça — se jus­ti­fica pois para mim, o artista hoje deve real­mente ganhar a vida com seus shows, pois a indús­tria fono­grá­fica, pelo menos da maneira como conhe­ce­mos, está fadada ao desas­tre. E não acho que deve­mos cul­par a pira­ta­ria — seria como cul­par os afri­ca­nos pelas minas ter­res­tres que muti­lam a eles pró­prios; não devía­mos cul­par os que ven­de­ram as minas? Da mesma forma, cul­pe­mos a indús­tria que via­bi­li­zou uma tec­no­lo­gia que se tor­nou gra­du­al­mente mais barata de copiar as pro­du­ções artís­ti­cas: o CD. Por que­rer ganhar mais dinheiro, deram um tiro no pró­prio pé. Explico-me. Certa vez vi uma entre­vista com Hebert Vianna que falava que o advento do CD foi o maior logro da his­tó­ria fono­grá­fica. Vejam bem: você com­prava um vinil e ele durava a sua vida toda. O CD tem uma dura­bi­li­dade nota­da­mente menor, o que obriga um cole­ci­o­na­dor — como eu era — a reno­var sua cole­ção pelo menos umas três vezes em sua exis­tên­cia. Era uma tec­no­lo­gia muito mais barata a longo prazo do que o vinil e muito mais pere­cí­vel, o que aumen­tou e muito seu fatu­ra­mento num pri­meiro ins­tante. O preço dos dis­cos bai­xou? Não. Aumen­tou. Mas, ao ado­tar essa tec­no­lo­gia, tal­vez eles não ima­gi­nas­sem que as indús­trias dariam ‘minas’ para o con­su­mi­dor comum: ele mesmo gra­va­ria seus CD’s. Fora isso, a imensa carga de impos­tos que o Bra­sil cobra de qual­quer indús­tria for­mal deu vazão a que alguns come­ças­sem a pen­sar em usar essa tec­no­lo­gia — opa, não foram eles que cri­a­ram — para ganhar copi­ando as obras dos outros — que outros, per­gun­ta­rão; dos artis­tas ou das gra­va­do­ras, que ficam com a maior fatia do bolo? Mas aí você diz: “o crime orga­ni­zado usa o dinheiro da pira­ta­ria”. Minas ter­res­tres. De quem é a culpa? Eu lem­bro que anti­ga­mente ter um disco pirata era coisa pra cole­ci­o­na­dor. Eu mesmo con­se­gui uma rari­dade: um disco pirata de um show do Led Zep­pe­lin. Pes­si­ma­mente gra­vado, mas era uma rari­dade. Os mais jovens vão achar o que eu estou dizendo um com­pleto non sense, mas os que já têm uns trinta devem saber do que estou falando. Houve, então, uma mudança de para­dig­mas por­que naquela época era carís­simo pro­du­zir um vinil. Com a demo­cra­ti­za­ção da tec­no­lo­gia do CD, quem segura a pira­ta­ria? Nin­guém, pois mesmo que eles criem tec­no­lo­gias para tra­var CD’s e DVD’s, com cer­teza se cri­a­rão for­mas de dri­blar isso, ofe­re­ci­das por eles ou por um cida­dão qual­quer. Não há como parar a bola de neve. Eu acho que a inter­net é o Levi­atã de nos­sos tem­pos: é a pri­meira máquina cri­ada que nunca poderá ser des­li­gada, isso é muito fas­ci­nante, mas é muito sério. Nós não temos mais poder sobre ela ao ponto de “desligá-la”. No máximo con­tro­lar — de alguma forma tosca — o con­teúdo nela pro­pa­gado, mas só. Com­par­ti­lha­mento de arqui­vos? Acho que nunca con­se­gui­rão impe­dir ple­na­mente. Qual a solu­ção, então? O Tro­va­do­rismo Digi­tal, ora bolas! Assisti certa vez a um pro­grama com o Fred 04, do Mundo Livre S.A. no qual ele dizia como eles estão se virando agora: cri­a­ram um selo, fabri­cam seus CD’s e ven­dem nos shows a R$10,00. Se eles fos­sem produzi-los por uma gra­va­dora, segundo ele, cobra­riam 80% para dis­tri­buir. Por outro lado, você vê uma banda alter­na­tiva como “Can­sei de Ser Sexy” que junto com seu álbum coloca um CD vir­gem e com a seguinte men­sa­gem: “Faça bom uso”, reco­men­dando que gra­vem o álbum e dêm a um amigo. O pro­blema do Tro­va­do­rismo Digi­tal real­mente vai ser para os gran­des supers­tars, como Madonna, que ten­tou ata­car a pira­ta­ria no lan­ça­mento de “Ame­ri­can Life” divul­gando fai­xas fal­sas na inter­net. Curi­o­sa­mente, o que mais acon­tece agora é vasar albuns antes do lan­ça­mento. Para mega-astros, ter que ven­der seus CD’s olhando o público que com­pra — como os shows do Mundo Livre - é inad­mis­sí­vel. Como — dirão estu­pe­fac­tos numa reu­nião com seus advo­ga­dos - vamos poder ser glo­bais sendo tro­va­do­res? Real­mente. Abaixo a Globalização.