Essa maneira de olhar de forma aguda para além da imagem e do sentido usual das coisas tem sido a marca do poeta ao longo dos vários séculos do tempo cronológico. Essa compreensão de que a expressão verbal pode ser ultrapassada por uma linguagem que exceda os dicionários e atinja soberana alturas hipotéticas flutuantes tanto do Everest como do Himalaia, ao som de múltiplos sinos e mensageiros–do-vento na magia sempre presente no cotidiano dos contos de fada. Essa palavra incisiva a salvar do suicídio os possuídos dos apetites míticos atravessados pelo poder que emana das figuras em seu fatal direcionamento ao longo dos milênios, essa cumplicidade silenciosa por sobre as águas da gruta misteriosa a refletir o diálogo da caverna de Platão.
Poesia. Código perpétuo de completa identificação. O sonho de comunicar calando, de segredar revelando, pensamento e metáfora a atrair a terras desconhecidos desde o pégaso da infância à mandrágora subterrânea, do amor imaginário que dispensa a presença física até aquele exaltado da fúria até o êxtase pacificador. Os objetos/a linguagem/a vida.
Na denominação de Wellington Melo, as coisas/a letra/o sangue.
Mundo fechado onde papéis se acumulam/letra espiral/respira e se verte entre a linha do horizonte, sangue e palavras retorcidas / e um nome derramado de rancor/do que resta do nome, de novo luz/por trás do lábio inquieto/ de novo luz/ a navalha à luz retorna. Porque em mim repousa/o insensato e o incongruente/ as paredes e eu: em algum momento/que já não é o meu; estático/êxtase/estase; o real escapa à vista/à forma volta o sono em volta envolto em pânico. Uma poesia que às vezes necessita de referências espaciais, como em Casa Vazia na Rua do Futuro: na solidão de um casarão vazio/morreu um pedaço do meu passado/na Rua do Futuro/meu nome calado… /a cada foto apagada sorrisos mortos guardo:/ obrigado,obrigado, obrigado. Ou de evocações intimistas a antigas mestras da infância: matematicamente Dona Mércia/enchia a sala de ternura/Dona Júlia provava/cientificamente o amor ao mundo. A letra bebe sangue, afirma, como que imbuído do espírito analítico de Philippe Lejeune em O pacto autobiográfico. A letra comparti-lhando o medo na ocultação: a cada espaço a sombra de minhas memórias atônitas… /faço-me ler mais no que não digo, palavra gargantilha / que aprisiona pensamentos/num tempo elíptico./Ourives? Palavra lâmina arde em brasa /pai/mãe/filha / de ti mesma: queres ser menos/mas não te cabes. Porque a letra essencial / perdeu-se na minha boca de menino/quando minha mãe olhou para o outro lado.
Assim é a poesia de Wellington Melo, grave, enxuta, no entrelugar do desespero e do êxtase, de Apolo e Dionísio, da memória e da espera, do vazio e da viagem. O amor da palavra entranhado na carne, poeta e mestre, naturalmente, o dom e o preparo. Bem-vindo ao livro como letra impressa, Wellington, que nada lhe acrescentará que já não tenha, mas de cuja sina você não mais se libertará, nesse cotidiano e mágico percurso iniciático. Abracadabra.
Lucila Nogueira
Recife, novembro de 2006

