
Apagou o cigarro, olhou para baixo, fez mira e deu uma cusparada sustenta. Duas estudantezinhas com farda de colégio de bacana. Banho legal levaram.
“O que é que você tá fazendo?”
“Nada. Matando o tempo.”
“Vamo brincar de ajudar, né?” “Já vou.”
Não ia. Esse trampo era até mais ou menos tranqüilo — tirando essa última bronca. Dia todo ali, fazendo cera, esperando a menina trazer o almoço — já tava na hora, cadê ela? Nos últimos dias, na hora do descanso, ficava no terraço — tinha umas caqueiras com uma plantas secas, uma mesinha enferrujada e um porta-revistas cheio de poeira. Ali ficava, fumando um, lendo Caras do ano passado, tomando banho de sol e poluição, presenteando os transeuntes com cuspe e restos de pão — às vezes jogava migalhas molhadas no leite.
As meninas olharam pra cima. Ele acenou e sorriu sem um dente. Esbravejaram, disseram um ou outro palavrão que ele não se importou de ouvir. Continuou folheando Caras e ignorando o destino das estudantes.
“Vem me ajudar aqui. Esse cara aqui já já acorda.”
“Vou…”
Não ia. Ontem tinha feito um monte, deixa ele se virar um pouquinho. Hoje, que deu essa merda, é que não ia mesmo, ele que arranjou essa. Um velhinho passeava com um poodle champanhe. Poodles eram irritantes. Poodles champanhe eram insuportáveis. Nada contra o velhinho. Poderia ser qualquer outra pessoa. Já o poodle… Puxou lá do fundo a cusparada. Catarro junto. Gostinho de Plaza e cuscuz com ovo. Mira era importante — leu uma vez que o que diferencia o homem da mulher era o lance da mira. “Homem mira pra mijar, mulher não. Mira é poder, porra.”
Não lembra bem quem foi o tabacudo que disse isso, mas era uma verdade fodida. Depois disso entendeu a insegurança da sua ex e a habilidade dela para controlar e infernizar os homens: era pelo simples fato de não controlar um pau na hora de mijar — “inveja do pênis”, leu num livro cinza, um cara barbudo da capa, que um dos caras que trabalhavam no apê antes dele tinha esquecido. Ainda preferia Caras. Puxou de novo. A consistência da cusparada o assustou por um instante. Leve inclinação para trás, e lá se foi pelo ar. Obra de arte. A sincronia lembrava os cruzamentos na área de Juninho Paraíba do América de Natal. Banho duplo no velhinho e na porra do poodle. Cadê a menina com o almoço?
Deve ser uma bosta receber uma cusparada vinda do nada, mas fazer o quê? Cada um com seus problemas. Na Caras de hoje — ou a que ele lia hoje — tinha a foto de uma atriz cujo nome não lembrava. Ia com o namorado da semana. Já tinha visto essa dona em outra Caras — e com outros caras. Já pensou os dois receberem uma cusparada no meio desse tapete vermelho em que estão nessa foto?
“Vai me ajudar aqui ou não, porra?” “Peraí.”
Fez a merda e agora quer ajuda. Não ia.Tocou a campainha. Era a menina com o almoço! Foi-se encaminhando para a porta, o colega na cozinha, terminando de resolver suas broncas. Ia ajudar nada. Abriu a porta. “Finalmente, né porra?”
As duas meninas putas da vida, a fardinha ainda molhada de cuspe. Lembra de ter sorrido antes de ver a cara do PM que as acompanhava. O PM lembra de ter dado só três tiros quando viu os homens dentro da cozinha, um dos quais embalava freneticamente papelotes. Mas isso foi só segundos depois de ver de relance no chão, num golpe de sorte, a mala cheia de dinheiro e o corpo ensangüentado de um dos comparsas do grupo.

