Os sonhos (conto)

Mercado de Trajano, Roma.

Na noite ante­rior à prova, ador­me­ceu entre os livros – uma edi­ção sur­rada de Gra­dus Pri­mus, uma gra­má­tica de Latim de Napo­leão Men­des, com­prada meses antes de um dono de sebo pouco expe­ri­ente, e um exem­plar do dici­o­ná­rio Latino Por­tu­guês de San­tos Saraiva.

Quase nada do que viveu no sonho daquela noite ele lem­bra­ria. Não se lem­bra­ria da colo­ra­ção ama­re­lada das ten­das empo­ei­ra­das do velho mer­cado, das vie­las claus­tro­fó­bi­cas de Subura, dos sor­ri­sos des­den­ta­dos dos comer­ci­an­tes enquanto pesa­vam azei­to­nas, car­re­ga­vam pães enor­mes em ces­tas for­ra­das de algo­dão, entre­ga­vam aos escra­vos dos com­pra­do­res as ervas enco­men­da­das – não, não se lem­bra­ria do aroma ado­ci­cado do viçoso ramo de man­je­ri­cão com o qual aquela mulher de sem­blante triste pas­sou a seu lado em Vicus Tus­cus. Não se lem­bra­ria do san­gue dese­nhando for­mas ale­a­tó­rias no duro chão de barro quando Pupi­a­nus Sal­vius, sor­rindo ao lem­brar de um sonho que tivera na noite ante­rior, deu uma esto­cada na jugu­lar do cor­deiro – não lem­bra­ria nem sequer da car­caça do mesmo cor­deiro sendo pen­du­rada, de suas par­tes expos­tas à venda, das moe­das que com­pra­ram sua anca direita. Jamais se lem­bra­ria do toque suave de seus dedos na seda fina dan­çando ao quente vento de junho no Campo de Marte – quanto havia andado para ter che­gado ali, do outro lado da cidade? Jamais, jamais se lem­bra­ria do olhar inqui­ri­dor do nego­ci­ante de escra­vos, nem de suas mãos mali­ci­o­sas roçando o minús­culo seio da jovem macedô­nia. Não lem­bra­ria, por todos os deu­ses, não lem­bra­ria, da ira que cor­reu por seu san­gue quando o nego­ci­ante esbo­fe­teou a linda macedô­nia semi­nua. Depois disto, no entanto, algo mudou. Neste ins­tante, lem­brou de toda a into­le­rân­cia, toda a vio­lên­cia pela qual ele mesmo pas­sara e não silen­ciou. A par­tir daí, nada mais seria esque­cido, tudo per­ma­ne­ceu em sua memó­ria. Esbra­ve­jou con­tra o infame nego­ci­ante, exi­gindo que tra­tasse a escrava com a mínima dig­ni­dade – se é que se pode falar de dig­ni­dade na con­di­ção do escravo. Teme­rá­ria a sua ati­tude de estran­geiro em ter­ras de Roma, mas não podia calar diante do ato nefasto do nego­ci­ante. Enquanto as pala­vras saíam per­fei­ta­mente arti­cu­la­das de sua boca, como lâmi­nas ances­trais cor­tando o ar fétido da ala­meda romana, per­ce­beu que se mul­ti­pli­ca­vam os risos – logo trans­for­ma­dos em gar­ga­lha­das – dos nego­ci­an­tes, dos tran­seun­tes. Adver­tiu, não sem assom­bro, até mesmo um leve sor­riso no canto da boca da escrava macedô­nia. Inu­til­mente con­ti­nou gri­tando, mas isso só aumen­tava a bal­búr­dia. Enten­deu o que acon­te­cia pou­cos segun­dos depois: a voz do nego­ci­ante de escra­vos, com uma ento­na­ção que pareceu-lhe las­civa e per­me­ada um sar­casmo incon­tido, che­gava a seus ouvi­dos, mas ele nada enten­dia. Só assim com­pre­en­deu que o latim que apren­dera não ser­via para as ruas de Roma: era uma pan­to­mima, como máximo, do que fala­vam aque­les homens rudes.

Des­per­tou entre suo­res. Os livros ainda sobre a escri­va­ni­nha. O sol subia tímido pela janela do seu quarto e sala quando ele se diri­giu para a gela­deira e tomou um gole de leite em caixa, sem sus­pei­tar que numa manhã exa­ta­mente como aquela, Pupi­a­nus Sal­vius, o açou­gueiro cuja esto­cada cer­teira matara o cor­deiro nas vie­las de Roma, tam­bém des­per­tara de um sonho per­tur­ba­dor. Estava ele em uma sala cuja lim­peza lhe agre­dia os olhos. Várias sel­las dis­pos­tas sime­tri­ca­mente em filas – sete, no máximo – nas quais jovens sen­ta­dos com rou­pas estran­gei­ras – per­sas? – extre­ma­mente colo­ri­das, debruçavam-se sobre per­ga­mi­nhos colo­ca­dos sobre uma pequena mesa gru­dada à sella. Na frente deste salão per­ma­ne­cia de pé e está­tico um homem com rou­pas mais sóbrias, mas igual­mente estran­gei­ras. Ao per­ce­ber a inqui­e­ta­ção do jovem Pupi­a­nus, o homem, com uma voz aus­tera, dirige-se a ele com um olhar ame­a­ça­dor. Pupi­a­nus não lem­bra o que o homem per­gun­tou. Lem­bra, no entanto, que sua fala, pom­posa e arre­don­dada como a dos glo­tões sena­do­res, mas com um acento estran­geiro indis­far­çá­vel, provocou-lhe um acesso de riso, parado ape­nas pelo seu des­per­tar, naquela manhã enso­la­rada de junho.