Angola: José Eduardo Agualusa defende ortografia brasileira

O escri­tor ango­lano, José Edu­ardo Agua­lusa, defende, em cró­nica divul­gada pelo sema­ná­rio A Capi­tal, de Luanda, que Angola «deve optar pela orto­gra­fia bra­si­leira», caso o Acordo Orto­grá­fico não venha a ser apli­cado por «resis­tên­cia» de Portugal.

Para esta tomada de posi­ção de um dos mais res­pei­ta­dos escri­to­res ango­la­nos e lusó­fo­nos, José Edu­ardo Agua­lusa avança como jus­ti­fi­ca­ção o facto de Angola ser um pais inde­pen­dente, nada dever a Por­tu­gal e o Bra­sil ter 180 milhões de habi­tan­tes e pro­du­zir muito mais títu­los e a pre­ços mais bara­tos do que Portugal.

Agua­lusa diz ainda, na cró­nica que publica regu­lar­mente em A Capi­tal, que Angola «tem mais a ganhar com a exis­tên­cia de uma orto­gra­fia única do que Por­tu­gal ou o Bra­sil», por­que o país não pro­duz livros mas pre­cisa «deses­pe­ra­da­mente deles».

O Acordo Orto­grá­fico da Lín­gua Por­tu­guesa foi alcan­çado em 1991 e assi­nado por todos os paí­ses da CPLP, sendo ime­di­a­ta­mente rati­fi­cado pelo Bra­sil, Cabo Verde e Portugal.

Em 2004, em S. Tomé e Prín­cipe, foi acor­dado um Pro­to­colo Modi­fi­ca­tivo, segundo o qual bas­tava este ser rati­fi­cado por três Esta­dos para entrar ime­di­a­ta­mente em vigor.

Este Pro­to­colo Modi­fi­ca­tivo foi assi­nado por todos os paí­ses lusó­fo­nos, mas ape­nas rati­fi­cado ini­ci­al­mente pelo Bra­sil e Cabo Verde.

Em Agosto do ano pas­sado foi rati­fi­cado tam­bém por S. Tomé, «pas­sando juri­di­ca­mente a entrar em vigor».

Sobre a situ­a­ção em Angola, a aná­lise do docu­mento para rati­fi­ca­ção está entre­gue aos minis­té­rios das Rela­ções Exte­ri­o­res e da Edu­ca­ção e, segundo fonte pró­xima do pro­cesso con­tac­tada pela Lusa em finais de 2007, o governo ango­lano está a «desen­ca­dear meca­nis­mos inter­nos» para a sua conclusão.

O último passo será dado quando o pro­cesso pas­sar pela apro­va­ção do Con­se­lho de Minis­tros e da Assem­bleia Nacional.

«Os Esta­dos foram noti­fi­ca­dos para se pro­nun­ci­a­rem sobre o assunto e nós esta­mos a desen­ca­dear meca­nis­mos inter­nos para saber como estão as coi­sas», acres­cen­tou a fonte.

De acordo com a fonte con­tac­tada pela Lusa, existe uma «pre­o­cu­pa­ção» de todos os esta­dos lusó­fo­nos para resol­ver a ques­tão, na medida em que há actu­al­mente «uma fala e duas escritas».

Para o governo ango­lano, o Acordo Orto­grá­fico ainda não foi assi­nado por­que «caiu no esque­ci­mento», con­si­de­rando a fonte que «agora é impor­tante vol­tar a analisá-lo para lhe dar seguimento».

Entre­tanto, em Por­tu­gal está em pre­pa­ra­ção a rati­fi­ca­ção do Pro­to­colo Modi­fi­ca­tivo ao acordo, embora sujeito a uma reserva de 10 anos, con­forme anun­ciou recen­te­mente a ex-ministra da Cul­tura, Isa­bel Pires de Lima.

A posi­ção do governo por­tu­guês, anun­ci­ada pela então minis­tra, é que «juri­di­ca­mente o Acordo Orto­grá­fico, assi­nado e rati­fi­cado por Por­tu­gal em 1991, está em vigor».

Toda­via, invo­cou razões de ordem cien­tí­fica e empre­sa­rial para pedir 10 anos de reserva para «ava­liar com a soci­e­dade civil» a sua implementação.

Ainda no refe­rido texto do escri­tor José Edu­ardo Agua­lusa, este defende que a edu­ca­ção das popu­la­ções ango­la­nas e o desen­vol­vi­mento do país depende da impor­ta­ção, nos pró­xi­mos anos, de milhões de livros.

E defende que as auto­ri­da­des ango­la­nas devem criar «rapi­da­mente legis­la­ção» que per­mita e faci­lite a entrada de pro­du­tos cul­tu­rais e, «em par­ti­cu­lar», de livros, no país.

Agua­lusa aponta ainda como razões para a demora na acti­va­ção do acordo a «con­fu­são» entre orto­gra­fia, as regras de escrita e lin­gua­gem, resu­mindo que o acordo tem por objec­tivo a exis­tên­cia de «uma única orto­gra­fia» no espaço de lín­gua por­tu­guesa, sendo «absurdo» pensar-se em uni­fi­car as dife­ren­tes vari­an­tes da «nossa» língua.

O autor aponta ainda o dedo a um «enrai­zado sen­ti­mento impe­rial» de Por­tu­gal em rela­ção à lín­gua para o pro­te­la­mento de uma decisão.

E, con­tra­ri­ando esta pos­si­bi­li­dade, diz que a His­tó­ria nega este sen­ti­mento por­que «a lín­gua por­tu­guesa formou-se fora do espaço geo­grá­fico onde se situa Por­tu­gal — na Galiza».

«Por outro lado, a lín­gua por­tu­guesa tem sido sem­pre, ao longo dos sécu­los, uma cri­a­ção colec­tiva de por­tu­gue­ses, afri­ca­nos, bra­si­lei­ros e povos asiá­ti­cos», aponta.

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