Prévia do [desvirtual provisório]

Coloco aqui dois poemas do [desvir­tual provi­só­rio], que saíram na Conti­nente Multi­cul­tu­ral (n. 95, nov/2008).

[CASA]
A meus pais, José Geraldo de Melo
& Iraci Tere­zi­nha de Melo.
“A casa onde vive­mos a nossa infân­cia jamais nos aban­dona, tornando-se a primeira grande expe­ri­ên­cia de trans­mu­ta­ção poética.”
Gaston Bache­lard
essa casa que me habita
& que me faz pare­des abertas –
me acom­pa­nha
& se verte
sombra em meu presente –
exerce
sobre mim a influência
que a M@quina
em vão aplaca.
essa casa que me habita
& que me faz medo & sonho
me lembra que
meu nome impresso
em tua sina
não se desfaz
como o metal sangrento:
é lume
é terra
é vento.
[DESVIRTUAL PROVISÓRIO]
“Os textos, de certo modo, exis­tem antes que sejam escri­tos. Vive­mos imer­sos em textos virtuais.”
Osman Lins, Avalovara.

I
& houve um tempo
em que bastava um
clique
para que a cabeça decapitada
sorrisse bits enfu­re­ci­dos na tela
seme­ada pelo tédio
para que o esque­leto subnutrido
da menina asi@tica
fosse estu­prado mil vezes num segundo
para que línguas de fogo
lambes­sem lascivas
a carne rosada das duas torres de marfim
para que meu sangue de alumí­nio escor­resse pelo
Verbo & se deixasse
aban­do­nar na Fome.
II
naquele tempo
meu sorriso pasteu­ri­zado devo­rou o Pânico
minha pupila aqu@tica renun­ciou a tudo que é
sólido
minha língua sem asas assis­tiu ao enterro do céu
& ador­meci
pl@cidamente ador­meci com o último controle remoto
sobre o primeiro monte de corpos carbonizados
III
neste tempo
um sonho metálico
vomitou-me a verdade:
nada mais importa
nada além do não que repito ao Éter
nada além do meu umbigo banhado em mel
que você lambe em finais de tarde meteóricos
nada além de meu sorriso dominic@l
neste tempo de c@l & treva
de concreto & silício
foi que final­mente a M@quina
roubou de mim a palavra
que me fazia humano,
que me impri­mia a dor:
o horror
o horror

o horror