Balanço musical 2008

Parece que você vai ficando velho e a paci­ên­cia vai aca­bando. Com música é a mesma coisa: eu não tenho tanta paci­ên­cia para garim­par coisa nova, fico roendo os ossos de meu som antigo, o que já conheço, meu ter­ri­tó­rio seguro.

Só que este ano um evento remo­veu meu chão: junto com meu carro, leva­ram 70% da minha cole­ção de CD’s que estava minha case que usava desde a época das memo­rá­veis fes­tas de Gaibu dos 90’s. Ontem Ana me obri­gou a dar fim nas cai­xas vazias que se entu­lha­vam num móvel que com­prei só pra isso. Ela, como sem­pre, que­ria espaço. Não tive outra coisa a fazer que jogar fora, mas antes saí vendo as capas que que­ria man­ter ou cujos dis­cos pre­ten­dia bai­xar para pelo menos man­ter o regis­tro. Só neste momento senti o que real­mente tinha per­dido. Entre outras coi­sas, Gar­bage, Car­din­gans, Pixies, Vio­lent Fem­mes, The Cure (tudo com cheiro de Non Stop), Frank Zappa, Tal­king Heads, AC DC, Led Zep­pe­lin, Black Sab­bath (minha ado­les­cên­cia me dando adeus), Chris­tophe, Car­pen­ters (minha infân­cia tam­bém), e, final­mente, o maior baque: quase toda a minha cole­ção de Belle and Sebas­tian. Jun­tei as capas, cabis­baixo. Encon­trei, por fim, uma capa que guar­dava mas cujo disco me tinham rou­bado há alguns anos: Peren­nial Favo­ri­tes, do Squir­rel Nut Zip­pers. É uma banda ame­ri­cana dos anos 90 que toca rag­time, musica dos 30. Um dos meus melho­res acha­dos da década pas­sada. Foi aí que pen­sei: pre­ciso regis­trar meus acha­dos de 2008. E aqui esta­mos. Durante meu balanço, vou colo­car alguns links para cli­pes ou outras infor­ma­ções sobre o pes­soal de que fala­rei. Basta cli­car em cima.

Como disse, minha paci­ên­cia está mais curta. Não aguento ouvir aque­les meni­nos de franja falando de dizer a ver­dade pra namo­rada, de que está triste por­que não se verão mais e blá blá blá. R&B é sim­ples­mente intra­gá­vel. O que mais vejo é coisa pas­teu­ri­zada, com gosto de gela­deira. Este ano, no entanto, ouvi algu­mas coi­sas que revi­si­ta­vam sono­ri­da­des anti­gas e por isso mesmo tinham gosto de novo. A mai­o­ria des­tas des­co­ber­tas tem mulhe­res no vocal, o que acho ótimo.

Gos­tei da dupla inglesa Ting Tings, com aquela música repe­ti­tiva — pop, ora bolas! — que no final vem num cres­cendo, quando as gui­tar­ras apa­re­cem, mas sem­pre con­ti­das, você que­rendo pular, gri­tar e ela con­ti­nua lá. Vamos ver se não é banda de um hit só. Ainda lá pela ingla­terra, gos­tei da KT Tuns­tall. O hit If only, que tem uma pegada bem 90’s e um refrão pra can­tar no banheiro, me puxou pelo ouvido. Pode ser que tenha gos­tado por lem­brar outras coi­sas — Gar­bage vin­tage, tal­vez — mas e daí. O jeito meio doi­di­nho desda lon­di­nense me pegou. O site dela, todo ins­pi­rado em HQ, é muito legal.

Subindo ainda mais, a sueca Peter, Bjorn and John foi outro achado. Fiquei abes­ta­lhado ao ver que a banda existe há dez anos. “Como não ouvi isso antes”, me cri­ti­quei. Mais cho­cado ainda quando des­co­bri que Young Folks — que usei como música de fundo para o tea­ser do lan­ça­mento do meu novo livro — era de 2006. Senti-me um antrô­nomo, obser­vando um céu do pas­sado. A sono­ri­dade de Young Folks me lem­bra muito Belle and Sebas­tian, que por sinal lem­bra coisa dos 60’s.

Para não dizer que não falei de ame­ri­ca­nos, dois acha­dos: pri­meiro, o The Gos­sip. Por sinal, é pre­ciso dizer que esta banda para mim repre­senta uma rup­tura da impo­si­ção da voca­lista boni­ti­nha — tipo aquela menina irri­tante e poser do Para­more. A ati­tude de Beth Ditto, decla­ra­da­mente “gorda, femi­nista e lés­bica”, não neces­sa­ri­a­mente nesta ordem, é demais. Mete o dedo na cara des­sas ban­das de magri­ce­las fran­ju­dos e melan­có­li­cos. Ela sai do palco, canta com a pla­téia, faz strip-tease. Baga­ceira, como diria meu amigo Jaime! Só espero que ela não invente de dar um mosh. O som deles vem traz algo dos 70, vocal negão da Beth, gro­ove na veia ati­tude rock ‘n’ roll.

A última das amé­ri­cas é daqui mesmo. Gos­tei muito do 9000 Anjos, a banda nova do Júnior. Con­fesso que ouvi com todo o pre­con­ceito pos­sí­vel, embora sem­pre tivesse con­si­de­rado o rapaz um músico exce­lente. Eu ima­gi­nava que a banda dele fosse um pop­zi­nho besta, mas não é assim não. É rock ‘n’ roll mesmo. As letras ainda dei­xam a dese­jar, mas o som é muito legal, com uma coisa da qual sen­tia falta: solos de gui­tarra, que pouco a pouco vem vol­tando a apa­re­cer. Uma pro­messa essa banda.

O que guarda dois mil e nove? Espero que tan­tas velhas-novidades como em dois mil e oito. Ah, e minha cole­ção de volta, que terei que com­prar de novo.

  • Natá­lia

    De fato Para­more não me havia des­per­tado aten­ção até que eu avis­tasse a capa de seu álbum, na qual estava espa­lhada por todo o CD a pala­vra “Riot”, acho que você ja ouviu falar das ‘Riot­gr­rls”. Bem, basta dar uma olhada na estru­tura da banda, que é unica e exclu­si­va­mente comer­ci­al­zi­nha, para per­ce­ber que não tem nada aver com o as riots. Poser, por mais que fãs des­sas mulheres/bandas, incri­veis de verdade.

    Obs: Beth Ditto tem uma voz deli­rante, e uma ati­tude no palco impressionante.

    PS: Indico Magic Num­bers, o álbum “Magic Num­bers” é o melhor.