No homem, antes de tudo, há sempre poesia…

Ana Bea­triz Durant

Da nuli­dade cinza dessa vida caduca, ainda depois de Drum­mond, surge a letra de Wel­ling­ton de Melo. Escri­tor de rigor cabra­lino, crí­tico e atento aos ape­los da moder­ni­dade como seu mes­tre Gul­lar, sen­sí­vel e humano como Bar­reto Cam­pello, escreve com a cons­ci­ên­cia de um homem cir­cun­dado pelo caos, teme­roso e envol­vido pelo con­creto, pela rapi­dez frí­vola da comu­ni­ca­ção, mas com­pas­sivo às gran­des ques­tões huma­nas, sem datas, sem ros­tos, de todos nós. 

Como no seu livro de estréia — ”O diá­logo das coi­sas” -, esse poeta faz soar em seu ver­sos um mar­te­lar forte que nos intro­duz numa secura de pala­vras subs­tan­ti­vas, caó­ti­cas, fecun­das de inqui­e­ta­ções. Res­posta ao tempo de depu­ra­ção abso­luta em que se encon­tra o homem-máquina, essa secura cor­tante de Wel­ling­ton não é geo­grá­fica, mas his­tó­rica, de homem con­tem­po­râ­neo, esgo­tado, estéril, que absorve maqui­nal­mente o seu tempo sem as amar­ras que lhe são impos­tas pela Máquina.

A pala­vra de Wel­ling­ton luta e segue na “este­ri­li­dade metá­lica” desse tempo a quem chama de alu­mí­nico numa das mais belas metá­fo­ras do livro, sem a mes­mice e a inge­nui­dade dos inú­me­ros volu­mes que lotam as pra­te­lei­ras das livra­rias. A pers­pi­cá­cia desse poeta se encon­tra jus­ta­mente em seu senso uni­ver­sal de lei­tor voraz da pala­vra exposta nos mais diver­sos meios em que se encon­tra a huma­ni­dade: rea­li­dade e virtualidade.

Seu livro é divi­dido em cinco par­tes, sem, é claro, cor­rer o risco de seg­men­ta­ção e dis­tor­ção entre elas, a saber: A proto-Máquina, A Máquina, A anti-Máquina, A hiper-Máquina, O pó. Na pri­meira parte, o nas­cer dos ver­sos, diante dessa rea­li­dade vã, é can­tado como pura neces­si­dade, como san­gue que brota da desor­dem. Na segunda, o poeta expõe a grande engre­na­gem diante da exis­tên­cia humana. Na anti-Máquina, há uma inqui­e­ta­ção diante de tanta inex­pres­si­vi­dade do homem. Na penúl­tima parte, é pos­sí­vel vis­lum­brar um indi­ví­duo lutando para não ser máquina, que ora o é, ora lampeja-se ape­nas homem, frá­gil. Em O pó, o der­ra­deiro des­tino, o retrato de um ser que é ape­nas super­fí­cie, sem espes­sura, coberto por uma camada cinza que mata, pene­trando aos pou­cos, ape­nas na ina­la­ção da mai­o­ria desavisada.

Diante de tais con­si­de­ra­ções, é justo afir­mar que a poe­sia desse per­nam­bu­cano não é outra senão a luz de um tempo nublado pela soli­dão de con­creto armado, emol­du­rado pela rigi­dez de rela­ções con­fli­tan­tes. O que há nessa mar­cante escrita é a res­posta pre­cisa e cons­ci­ente do homem em busca de pro­fun­di­dade onde só encon­tra­mos poeira, ates­tando que, ape­sar de tudo, ainda há a poesia.

Recife, agosto de 2008