Posfácio do [desvirtual provisório]

PROVISORIAMENTE TAMBÉM FALO DE POESIA

Artur Rogé­rio

Não falo sobre bons poe­mas. Nin­guém fala, vejo assim. Quando fala, fala qual­quer coisa. É que qual­quer coisa cabe a par­tir dum bom poema. Cer­ta­mente não é adi­ci­o­nal essa incli­na­ção. Tudo é a par­tir da poe­sia, por­tanto tudo é o cha­péu dum bom poema. Inda mais essa nova esta­ção muito bem inten­ci­o­nada e mui­tís­simo equi­li­brada arran­jada por Wel­ling­ton. Pro­vi­so­ri­a­mente, inverto a minha con­vic­ção. Troco, então, algu­mas inú­teis impres­sões, vir­tu­ais rela­ções, já que o com­pa­nheiro me soli­ci­tou umas pala­vras. Qual­quer coisa que eu lan­çar aqui não valerá mais que a tri­vi­a­li­dade duma con­versa de inter­net, não pas­sará duma ten­ta­tiva emba­ra­çosa de me comu­ni­car, achando ser efi­ci­ente, achando ser moderno, inte­li­gente e doismileoito.

Acabo de ler o des­vir­tual pro­vi­só­rio e o gosto que ainda tá na minha boca é, ines­pe­ra­da­mente, dos mais sabo­ro­sos. Não que eu tenha receios com rela­ção à saga­ci­dade e sen­si­bi­li­dade de Wel­ling­ton, mas por­que tenho todos os pre­con­cei­tos diante de quase todos os poe­mas e poe­tas. Os poe­mas sem­pre me pare­cem saí­dos da mesma bar­riga, como se quase todos os poe­tas tran­sas­sem com a mesma mulher, fizes­sem as mes­mas via­gens, falas­sem um único dia­leto. Cos­tumo ver os poe­tas (escri­to­res que escre­vem poe­mas) como se fos­sem uns ali­e­na­dos, uns con­de­na­dos que seguem uma idéia do que seja um poema, ape­sar das apa­ren­tes dife­ren­ças que os teó­ri­cos cos­tu­mam apon­tar como iden­ti­fi­ca­do­ras de tais e tais perío­dos his­tó­ri­cos e tal. Tenho cer­teza de que esse meu pre­con­ceito é filho da minha admi­ra­ção sem fim pelos poe­tas e suas obras a ponto de eu con­si­de­rar o poema a mani­fes­ta­ção lite­rá­ria mais radi­cal, a inde­fec­tí­vel, é uma explo­são semió­tica imper­doá­vel, irre­vo­gá­vel, abso­luta, o tiro ao alvo infa­lí­vel, é a morte e a vida uni­das, sem blá blá blá. Tam­bém é a escrita mais difí­cil. Os bons poe­mas são defi­ni­ti­vos, estão para o silên­cio e tudo o que existe den­tro do silêncio, revelam um novo céu mudamente.Wellington aborda, em seus poe­mas, com muita ousa­dia, o que está aí, as rea­li­da­des em que vive­mos nes­ses iní­cios dos anos 2000. A frus­tra­ção e o orgasmo abra­ça­di­nhos no mesmo assento, todo mundo sen­tado na sala de espera, um salão de pare­des apa­ga­das, todos os olhos vidra­dos nas pare­des impo­lu­tas, cada um gra­fi­tando e mon­tando mosai­cos como dese­jar. Trata-se dum hos­pi­tal público, duma facul­dade par­ti­cu­lar, duma igreja par­ti­cu­lar, cada um sabe o que quer, taí pra qual­quer um. Só que nin­guém comete o pecado de dizer onde está, o que tanto aguarda, o que inven­tou. Wel­ling­ton que­bra o silên­cio e repassa os seus óculos a todos.

Num livro nada extenso, como cabe aos poe­tas ajui­za­dos, Wel­ling­ton nos dá a seqüên­cia: A Proto-Máquina, A Máquina, A Anti-Máquina, A Hiper-Máquina, O Pó, mas não vejo nada pare­cido com line­a­ri­dade no livro. Lendo os títu­los das par­tes assim, só eles, tam­bém fica meio que apa­rente uma crí­tica voraz sobre tec­no­lo­gia, Inter­net, rea­li­dade vir­tual etc., que nos leva a uma desu­ma­ni­za­ção (des­po­e­ti­za­ção). No entanto, quando caí­mos nos ver­sos, encon­tra­mos o ele­mento vaci­lante, o que nos salva da pré-impressão duma já flá­cida crí­tica do mundo con­tem­po­râ­neo. A rela­ção entre o, no caso, poeta e a tec­no­lo­gia se com­ple­xi­fica, fica dúbia, toca a mar­gem da reve­rên­cia, volta ao oposto apo­ca­líp­tico, pre­fere pas­sar mais tempo numa outra para­gem onde se exer­cite, como prin­cí­pio, a poe­sia. Depois de che­gar a essas con­clu­sões foi que vol­tei ao nome des­vir­tual pro­vi­só­rio e, final­mente, notei que Wel­ling­ton já resume a alma do livro no título, e é tão evi­dente a dica!

A pegada do livro bateu em mim mais pras últi­mas pági­nas, pro último poema, o que tem mais ver­sos, O Pó (que, sem dúvida, teria redu­zida a sua força de impacto se lido iso­la­da­mente, sem o per­curso de todo o corpo do livro). O Pó tal­vez seja o texto mais direto, isso lhe dá uma carac­te­rís­tica mais agres­siva. É quando, no lugar de nos des­pe­dir­mos do livro, somos leva­dos a um ápice que se parece muito mais com a porta da frente dum ambi­ente nada apo­ca­líp­tico. É num ápice que os tex­tos che­gam ao fim, mas o livro não pára, fica pro lei­tor o livro em aberto e o iní­cio duma mani­fes­ta­ção pode­ro­sa­mente silenciosa. Sem saber, me sen­tei num carro de montanha-russa que subiu len­ta­mente a mais alta parte. Aqui, no mais alto, o carro bre­cou. Estou aqui em cima amando toda essa vul­ne­ra­bi­li­dade da situ­a­ção, ado­rando a visão. Depois des­ses tex­tos tão deli­ca­dos e que me enla­ça­ram pelo mini­ma­lismo, pelo ines­pe­rado óbvio dum olhar nada comum, fico com esse gosto refi­na­dís­simo na lín­gua. É o fino da bossa da nova lite­ra­tura per­nam­bu­cana, é o peso do mara­catu desse tal de “Uélin­ton”, esse Wel­ling­ton de Melo. 

Recife, 08 de agosto 2008.