Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
Com uma titulação em que se percebe a intenção da identificação de um jogo de palavras, lidas de diferentes formas, mas todas identificadoras do virtual e do provisório, Wellington de Melo coloca-nos frente a duas concepções: se o provisório reflete um dos signos do nosso tempo, isto é, a ausência de um chão definitivo, de raízes de permanência, o virtual nos coloca frente a substituição do real pelo próprio virtual, ou seja, por uma realidade paralela.
“meu desejo agora
vem de fora
de mim
é simulacro
em que me escondo
para não lembrar
quem sou”
Guiando-nos por entre esses labirintos, preparando-nos com cuidados evidentes para os horrores de nosso tempo
“foi nesta era estanque
de cal e treva
de concreto e silício
que finalmente a Máquina
me roubou a palavra
que me fazia humano,
que me imprimia a dor:
o horror
o horror
o horror”
ele nos dá de beber o que seria um antes, um antes com sabor dos tempos primeiros, tempo germinal, um tempo de antes, como diz:
“antes de todo o caos
depois de toda a paz
em mim
havia o poema”
E, com isso, declara a primazia do poema, como princípio e fim “centelha de vida que se eleva sobre a minha face como seiva primordial”.
A sua poesia em tudo diferente – pela temática única perseguida e pela linguagem despida de artifícios lingüísticos para se tornar mais grito e mais protesto: “não alimenta a paz minha pena” – que se fazia construída num crescendo, toda centrada e bem dividida e que nos leva da Proto-Máquina, à Máquina, à Anti-Máquina e à Hiper-Máquina: “minha voz morre/ no momento em que a Máquina/ marcha sangrenta sobre o meu sonho”.
“Te penso, Máquina,
Leviatã de meu tempo,
amada opressora,
esmagando naus
cibernéticas
que persistem no sonho.”
Utilizando uma linguagem contundente proposital-mente despida de adjetivação, Wellington construiu a sua saga diante dos signos e paradoxos de nossos tempos, tempos de desumanização do homem e da máquina, que adquiriu o poder de pensar por ele.
Que poderei dizer do impacto que este instigante livro me causou? Estamos diante de uma lúcida consciência que detecta com aguda percepção a decadência do homem de agora frente aos desvalores e distorções simbolizados na figura desumanizadora da máquina.
“meu sonho
sob os pés
da Máquina
escorre
entre
seus dedos”
Essa máquina que pretende subir aos céus e se sentar à direita do Pai?
“É a língua do silêncio
a do meu tempo
É a sala de espera do vazio
o nosso tempo (…)
e te sufoca o verbo mudo
e te arranca das entranhas
o nome secreto
que nos fará
de novo livres.”
Mas, como no início, nele “havia o poema” e por isso resiste e nos convida à resistência
“em mim
havia o poema
e resisto à treva
de meu tempo”
Bendito seja!
Recife, novembro de 2008.

