Visões 2009 (poema)

Talvez...

eu vi gabriel cruzar tel aviv com um rastro flame­jante e descer sobre a terra com a fúria de mil deuses vi o sorriso carbo­ni­zado das meni­nas de rafah e seus dentes arra­nhando o asfalto derre­tido vi touros blin­da­dos banhando o Jordão com seu sêmen fecun­dando o sangue de sete mil virgens eu lambi as seis pontas da estrela eu rocei a palma da mão no fio minguante da lua eu assisti à cruz silen­ci­osa no púlpito escar­late esbra­ve­jar baixi­nho eu vi as ruas infla­ma­das à meia-noite pelas novas lágri­mas das últimas carpi­dei­ras eu vi um homem-bomba se mastur­bando diante do muro das lamen­ta­ções maldi­zendo a chegada da hora fatí­dica vi o soldado dizendo amém ao aper­tar o botão vi o sol deitado nas coli­nas de golã por seis dias e seis noites vi um muro que não cessa não cessa que avança sobre a luz da alvo­rada eu medi meu medo e vi que era bom então o dei de presente para os homens do deserto para o peixe-ômega que me olha do altar empo­ei­rado para os deuses pagãos do shop­ping center todos os deuses esque­ci­dos para os herdei­ros de auschwitz para os dester­ra­dos de gaza todos os órfãos de jeru­sa­lém eu vi minha dor de exis­tir espar­ra­mada no sofá da sala eu me vi tecendo minha morta­lha numa manhã enso­la­rada enquanto o mundo desa­bava eu me vi rasgando o que há de humano em mim eu temi o que há de humano em mim eu me vi enfim humano eu me vi

Creative Commons License photo credit: azizul hadi

  • Josi Guima­rães

    Eu me vi tecendo minha morta­lha numa manhã ensolarada”…todos os ossos do medo a tremer, eu vi, me vi no teu olhar tbm, senti o mesmo pavor e a mesma dor, humano dema­si­ado humano em seu fim.
    …enfi­lei­ra­dos a cami­nho da sala do torpor. a cami­nho da face do terror, as crian­ças meu pai e as crian­ças?! ..estas crian­ças já sabem o que dizem.

    …Welling­ton, sua sensi­bi­li­dade merece destaque.

  • Marta Velozo

    Meu pai é ex-combatente da 2ª Guerra Mundial… Quando ele soube das bombas atômi­cas sobre o Japão, pensou “E se tivesse sido em Lajedo…” Sim! A sua cidade natal. Então,
    posso dizer que trago comigo essa indignação.

    São essas nossas peque­nas e gran­des omis­sões de cada dia…
    Pior: na maio­ria das vezes acha­mos que ao descar­tar­mos certas lega­li­da­des esta­be­le­ci­das por pactos legí­ti­mos, ou não ques­ti­o­nar­mos lega­li­da­des esta­be­le­ci­das por inte­res­ses espú­rios, esta­mos falando em nome de um suposto cole­tivo…
    e, no fim, são inte­res­ses de quem!?

    E fica­mos na espreita para ver no que dá a PRAG-MÁ-TI-CA dos
    discur­sos, ou o curso das “balas perdi­das”, nesta guerra civil… (sobre)vivemos acima dos omiti­dos nos nossos sonhos.

    Abra­ços,
    Marta Velozo.

  • Johnny Martins

    Israel não enxerga que tem ofere­cido aos outros o mesmo que efere­ce­ram ao seu povo durante a segunda Guerra Mundial: into­le­rân­cia, segre­ga­ção e morte.

    Belo texto, Wellington!

  • http://www.wellingtondemelo.com.br Welling­ton de Melo

    É isso mesmo: não há lados certos, o caos é gene­ra­li­zado. Não importa mais quem tem a razão, quem come­çou o quê. O poema vai por aí, cutu­cando tudo e todos…

  • http://vozesdantartica.blogspot.com Artur

    Tá esquen­tando…

  • http://www.fernando.farias.zip.net/ Fernando Farias

    Welling­ton, há quem acre­dite que o tortu­rado aprende com o tortu­ra­dor a tortu­rar. As víti­mas de Auschwitz usam os mesmos méto­dos, as mesmas descul­pas? Por outro lado, o fana­tismo louco, redu­dân­cia?, de homens bombas. Tem um para­fuso solto neste mundo. Deve ser o meu que não entendo de guer­ras e divi­sas geográficas.