URRRRRR…
Quatro homens no palco. Vestem camisas rosa. Não são atores. São escritores munidos de um repertório bem humorado e dramático da literatura. Eles urram.
O grupo Urros Masculinos estreou no dia 29 de outubro de 2008, em Olinda, no evento Quartas Literárias. Em “oposição” ao Vozes Femininas[1], quase uma brincadeira, o Urros é uma “defesa” de uma masculinidade estereotipada, de uma possível literatura com temas masculinos, os urrosmasculinos na literatura. Provocação desde o começo. Uma das características do grupo é exatamente a provocação e a diversidade de estilo literário e de concepções que cada um tem da literatura. Para os integrantes, o Urros não é um projeto principal, é uma espécie de “trabalho paralelo” ou playground, ou pura diversão, mas buscando sempre a qualidade. Também é uma forma de fortalecer a ideia em Recife de que existe a possibilidade de expandir a circulação da literatura feita aqui, a literatura feita por novos autores que moram na cidade, e que também existe a possibilidade de trabalhar a literatura de formas menos convencionais; é uma tentativa de se sair das mesmices dos antigos saraus, cansativos, silenciosos, herméticos e rosário das vaidades. Se analisada de uma forma mais séria, essa ideia está na contramão da realidade contemporânea, mas o grupo acredita na valorização do autor, do escritor. Embora andem na contramão, os escritores do Urros não se consideram excluídos do que pode ser pensado como “novo” hoje, muito pelo contrário. Pensam que a literatura fica mais “real”, mais próxima, quando divulgam que “nas veias de ‘Deus’ também corre sangue”, no que parece ser uma referência aos versos do poeta chileno Vicente Huidobro (“El Poeta es un pequeño dios”). Aí vão ao palco, utilizam algo de comédia (mas nem sempre), fazem referências a escritores que admiram, sempre com o papel na mão e quase nunca com o texto decorado. As apresentações tendem a ter uma relação bastante íntima com o espectador. O Urros Masculinos tem um clima de bastidores, de “como se faz”, de um ensaio sem fim. É onde experimentam novos textos, publicam as primeiras ideias, os rascunhos, seguem testando, amadurecendo.
A estreia foi dirigida pelo escritor e ator Biagio Pecorelli, na época, também integrante do Urros, mas posteriormente a direção passou a ser coletiva. Cada apresentação – as apresentações duram mais ou menos 40 minutos — tem um tema. Os temas sempre estão contatados com acontecimentos da atualidade. O escolhido para a estreia foi, especialmente, o próprio nome do grupo: Urros Masculinos, como uma forma de explicar melhor essa “paródia”, aproveitando para fazer uma homenagem ao grupo Vozes Femininas. Utilizam figurino: paletó e camisa rosa, quatro microfones, tudo num estilo meio jogral, meio teatral, meioVozes. O grupo adianta que o homenageado da próxima apresentação é o poeta Miró. Para o Urros, a maior dificuldade é conseguir ensaiar semanalmente: faculdade, trabalho, família, tudo dificulta para se conseguir uma agenda acessível. Mas continuam tentando fixar esse padrão de ensaios semanais. O local, dia e hora normalmente mudam, mas ultimamente os ensaios têm ocorrido na casa de Wellington de Melo, no bairro do Pina.
Algumas características do Urros destacadas aqui, somente elas, assim, já deixam evidentes as diferenças conceituais entre o Vozes Femininas e o Urros Masculinos. Naturalmente, a “paródia”, a brincadeira, de alguma forma, sempre aparecerá nas apresentações; a discussão sobre gêneros, o masculino, o feminino, o sexo dos anjos, etc. No entanto, desde o início, os escritores tinham consciência de que queriam definir um grupo conceitualmente bastante diferente do Vozes.
“Basicamente, adoramos a diversão que é fazer o Urros, cada ensaio, cada nova ideia maluca, cada texto recém-nascido, cada texto revisitado, cada centímetro crescido (no bom sentido). Aliás, adoro trocadilhos fáceis como Erros Masculinos ou Burros Masculinos”, comenta Artur Rogério.
“Os grupos literários muitas vezes surgem por afinidades estéticas. OUrros não, porque temos estilos bem diferentes, mas quando pensamos em coisas para as apresentações há uma alquimia, uma outra cachaça, um quinto elemento que surge e que é a cara do Urros, não é mais só a soma de cada estilo”, analisa Wellington de Melo.
“O Urros Masculinos é, antes de tudo, um grupo de escritores que são escritores e querem mostrar serviço enquanto escritores, divulgando o queproduzem para quem estiver interessado”, esclarece Bruno Piffardini.
Por enquanto, estão com três integrantes: Wellington de Melo, Bruno Piffardini e Artur Rogério, mas estão à procura de mais um pra refazer o quarteto. Pretendem se apresentar não só no Recife, mas também em cidades do interior, ampliar esse diálogo muitas vezes esquecido pelos que trabalham literatura na capital. E continuar trabalhando pra fortalecer cada vez mais essa nova onda que vem aquecendo o campo literário do Estado, dar continuidade a uma historicamente referencial literatura nos livros e nos palcos do Recife, essa arte que não desiste de se expor, de urrar, de enriquecer a nossa relação com a existência.
[1] Além de Silvana Menezes, fazem parte do grupo Cida Pedrosa, Mariane Bigio e Susana Moraes. As quatro escritoras apresentam, no palco, textos autorais e também de outras escritoras, utilizam elementos cênicos, um tom profundamente lírico-sensual, e algo que poderia caracterizar a mulher, as vozes femininas na literatura.

