Medo do adjetivo

Não é a pri­meira vez que ouço poe­tas e crí­ti­cos falando que uma poé­tica é rica por­que prima pelo subs­tan­tivo ao invés do adje­tivo. Eu me per­gunto: por que tanto medo do adje­tivo? Uma coisa que per­ce­bia numa pri­meira poé­tica minha era a ausên­cia de ver­bos no pas­sado ou futuro: ape­nas pre­sente. Mas nunca me per­cebi fugindo de adje­ti­vos — muito embora a amiga Maria do Carmo tenha obser­vado isso no [des­vir­tual pro­vi­só­rio]. Em “O peso do medo, 30 poe­mas em fúria”, per­cebi que abuso de adje­ti­vos, de epí­te­tos mesmo, sem ter medo de pare­cer deca­den­tista ou român­tico. Por exemplo:

onde teu medo parede vigi­ada onde tua fúria fera engai­o­lada onde teu medo soli­dão siti­ada onde tua fúria manhã mas­ca­rada onde teu medo desejo saci­ado onde tua fúria pânico alado onde teu medo só & metri­fi­cado onde tua fúria verso esfa­ce­lado (O peso do medo, 30 poe­mas em fúria, vol. 1, ver. 1, Onde)

Claro que aqui eu exa­ge­rei, por­que na pri­meira parte do poema está tudo metri­fi­cado, mas acho bonito o adje­tivo, prin­ci­pal­mente quando é des­con­cer­tante, quando você brinca com sines­te­sias, por exem­plo. Não tenho medo dos adje­ti­vos. Acho bonita uma ima­gem como “soli­dão siti­ada”, ao mesmo tempo que “fera engai­o­lada” parece cli­chê, mas quando falo de “fúria fera engai­o­lada”, assume outro refe­rente. Subs­tan­tivo é essen­cial, mas é legal ver um subs­tan­tivo, todo metido a besta, com uma roupa estra­nha, um adje­tivo que lhe tira a máscara.