Sobre coincidências e fé

O pes­soal do Café Colombo é muito desconfiado.

Após ler um artigo, publi­cado em um dis­tinto jor­nal local, escrito por um ilus­tre aca­dê­mico de nossa Aca­de­mia Per­nam­bu­cana de Letras (o artigo está aqui), acha­ram de suge­rir que houve uma pos­si­bi­li­dade remota de cópia de tre­chos deste artigo aqui sem os devi­dos cré­di­tos. Mal­dade. Eu acre­dito que houve aqui uma sim­ples coin­ci­dên­cia. Vejam: no pri­meiro artigo (pos­te­rior, mas escrito por nosso aca­dê­mico) se lê:

Que impac­tos as novas tec­no­lo­gias estão tra­zendo para a indús­tria do livro no mundo e na Amé­rica Latina? Livrei­ros das três Amé­ri­cas e da Europa dis­cu­ti­ram esse tema, nesse mês, no 3º Con­gresso Ibero-Americano de Livrei­ros. Pro­du­tos ele­trô­ni­cos como e-book e audi­o­book, supor­tes por­tá­teis como o Kin­dle, da Ama­zon, e o Sony Rea­der, terão espaço garan­tido de expo­si­ção e dis­cus­são neste que é con­si­de­rado o maior e mais impor­tante evento do mer­cado edi­to­rial da Amé­rica Latina e do mundo hispânico.”

Já na segunda ver­são (escrita antes, mas pela des­co­nhe­cida Janes Rocha, do Valor Econô­mico, se lê:

Que impac­tos as novas tec­no­lo­gias estão tra­zendo para a indús­tria do livro no mundo e na Amé­rica Latina?

Livrei­ros das três Amé­ri­cas e da Europa vão dis­cu­tir esse tema a par­tir do dia 18, no 3º Con­gresso Ibero-americano de Livrei­ros, que ante­cede a 35ª Feira Inter­na­ci­o­nal do Livro de Bue­nos Aires, que começa no dia 23, aliás, Dia Inter­na­ci­o­nal do Livro. Para­fer­ná­lias ele­trô­ni­cas como o e-book e audi­o­book, supor­tes por­tá­teis como Kin­dle, da Ama­zon, e o Sony Rea­der, terão espaço garan­tido de expo­si­ção e dis­cus­são neste que é con­si­de­rado o maior e mais impor­tante evento do mer­cado edi­to­rial da Amé­rica Latina e do mundo his­pâ­nico.” (podem con­fe­rir com a imagem).”

Ora, nota-se cla­ra­mente a dife­rença de esti­los. Vejam que a senhora Janes Rocha, com um estilo vici­ado pela esté­tica jor­na­lís­tica, insiste no uso do “olho”, sepa­rando o pri­meiro enun­ci­ado do resto do texto. Cli­chê! Já nosso bri­lhante aca­dê­mico, com­ple­ta­mente livre des­sas limi­ta­ções esté­ti­cas e, por que não, estru­tu­rais, que faz? Dá flui­dez ao texto, unindo o “olho” ao resto da maté­ria. Que traço pós-moderno, que visão, que frescor!

Vocês, do Café Colombo, é que são mal­do­sos. Eu acre­dito pia­mente na coin­ci­dên­cia. Não per­ce­bem, tal­vez por sua falta de con­tato com a lite­ra­tura ou por uma infe­liz con­fluên­cia dos astros, as suti­le­zas da cons­tru­ção do artigo de nosso aca­dê­mico. Vejam, ó infi­eis, como o autor do artigo cita Bor­ges! Ficou claro para mim. Ele estava pen­sando natu­ral­mente na obra invi­sí­vel de Pierre Menard: quis escre­ver um artigo idên­tico, com as mes­mas pala­vras, dez dias depois. Afi­nal, até che­gar à mudança do tempo ver­bal (acer­ta­dís­sima na ver­são per­nam­bu­cana, sim sinhô) são ape­nas 25 pala­vras idên­ti­cas e dis­pos­tas na mesma sequên­cia. A isso os senho­res cha­mam de plá­gio? Balela! Não sou lá espe­ci­a­lista em aná­lise de pro­ba­bi­li­da­des, mas vocês que são bons nisso devem com cer­teza per­ce­ber que num uni­verso de ape­nas 340.000 (ou mais) é algo com­ple­ta­mente pos­sí­vel. Bor­ges acre­di­ta­ria tam­bém que foi uma coin­ci­dên­cia. Só vocês não. Ora bolas, tenham paciência!

A meu aca­dê­mico, reco­mendo ape­nas igno­rar essas afir­ma­ções. Uma sólida car­reira lite­rá­ria — que o con­du­ziu, jus­ta­mente, à cáte­dra da Aca­de­mia, que por sinal passa por eter­nas refor­mas — não pode ser aba­lada pelas afir­ma­ções vazias des­ses garo­tos moder­no­sos. Eles não sabem o que fazem. Tenha paci­ên­cia. E fé.