A poesia de qualquer poeta é herdeira de um imaginário que nasce e morre com ele. Quando esse imaginário (e com ele os mitos e os valores que o informam) deixa de corresponder a qualquer realidade por ele sentida e vivida é sinal de que a poesia não mais se faz presente ou nem mais se reconhece.
Essa atual cultura de massa, despontada, sobretudo, a partir da década de 60 do último século, e que hoje alcança escala planetária, não produz mais nenhum imaginário mas apenas um enxurrada caótica de imagens que duram o mesmo que sua significação instantânea. Nada há de mais estranho ao caráter de um verdadeiro imaginário que o trottoir ininterrupto das imagens ou figuras das celebridades da hora. Foi-nos entregue um mundo, enfim, não mais forjado pela arte, pela religião e pela filosofia, se quisermos seguir a ordem dada às três apreensões da Idéia pela filosofia hegeliana.
O grande problema com o qual se defronta hoje todo artista — e principalmente o poeta que leve a sério seu fazer criador — é ser impedido de questionar, por uma rede às vezes invisível de apoios institucionais, qualquer novidade, mesmo quando essa novidade não seja portadora de nenhum valor. Porque o valor é a última questão a merecer debate — inclusive no seio da Universidade — de acordo com esse pensamento único que hoje domina todo tempo e lugar.
As coisas têm peso apenas enquanto provocam ruídos nas agências noticiosas de plantão. As artes, por conseqüência, não poderiam escapar a análises desse tipo, já que o menor juízo estético foi sendo palatinamente substituído pelo critério publicitário mais arbitrário e mais aleatório. Para essa ideologia ora dominante todas as coisas se equivalem, o critério axiológico comumente perdendo terreno para o último modismo imposto pelos meios de comunicação de massa. Dessa forma o relativismo de certa sociologia da arte cedeu seu lugar ao relativismo bem mais pobre do noticiário mais recente. O exemplo mais categórico dessa postura que vem se fazendo mais usual, talvez seja a declaração um tanto debochada e cruel do compositor Stockhausen, que, face ao pavoroso ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, no ano de 2001, considerou-o “a maior obra de arte de todos os tempos”.
Daí a importância atribuída a toda e qualquer forma de representatividade, independentemente do que esta signifique, desde que corresponda a um determinado tipo de apelo ou de demanda em obediência a certas necessidades publicitárias quando não mercadológicas. Como se tornou facílimo transformar o mais insignificante fenômeno performático, por exemplo, em motivo para tese universitária, não se espera de obra nenhuma a possibilidade de ela valer por si mesma. E onde fica, então, em sua exigência de aspectos tanto ontológicos quanto axiológicos, o necessário conflito entre o artista e a realidade?
Aprendemos com Yeats que “da contenda com os outros, fazemos retórica; da contenda com nós mesmos, fazemos poesia”. Mas tal contenda com nós mesmos — diferentemente da dos retóricos, que almejam resultados práticos e imediatos — também necessita de um terreno propício para florescer. Nenhuma contenda — muito menos uma contenda conosco — floresce sozinha: necessita, é claro, de forças culturais capazes de torná-la, senão vitoriosa, no mínimo produtiva. Pois toda luta é símbolo de alguma coisa maior do que ela. Porém o que queremos dizer com a palavra símbolo?
Eis o que nos ensina a filósofa judia-alemã Edith Stein, canonizada sob João Paulo II, que adotou no Carmelo o nome de Tereza Benedita da Cruz: “Toda obra de arte, independentemente da intenção do artista é, ao mesmo tempo, um símbolo É indiferente que o artista, em sua expressão, seja naturalista ou simbolista. Há um símbolo quando algo da plenitude do sentido das coisas penetra a mente humana e é captado e apresentado de tal maneira que a plenitude do sentido — inexaurível para o conhecimento humano — seja misteriosamente insinuada. Desse modo, toda arte verdadeira é uma espécie de revelação, e a produção artística, um ministério sagrado.”
Com este livro, Todas as coisas têm língua, ora em lançamento, — sendo uma seleção de toda obra poética publicada por nós até hoje — pretendemos, sobretudo, simbolizar o poder inerente a todas as coisas de comunicar sua propriedade dialógica e seu desejo de comunhão; poder que em vez de nascer e morrer apenas nas palavras, faz delas veículos de uma poesia anterior à linguagem, porque imantada do sortilégio de todas as coisas. Pois se todas as coisas têm língua, elas são símbolos de uma realidade que nos transcende porque portadora das chamas de tudo que vive e se sacrifica pelo mundo.
Iniciei minhas palavras dizendo que a poesia de qualquer poeta é herdeira de um imaginário. E outra coisa não expressou o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em seu livro Meditação sobre o Quixote, quando escreveu: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo a mim”. Significa isso que o imaginário de Ortega pertencia ao tempo e ao espaço de sua pátria espanhola; de uma Espanha que para ele existia e fazia existir o seu imaginário.
No nosso caso, tratando-se de algo inteiramente fora da cultura e, portanto, do imaginário nacional, a grande vantagem de escrever poesia no Brasil é a certeza de ninguém descobrir o que o poeta está dizendo; ao ocultar-nos atrás de um poema, estaremos, conseqüentemente, a salvo de qualquer perigo, como nos aconteceu nos tempos da ditadura militar, com dois de nossos livros, Proclamação do verde e O Inquisidor. Já a desvantagem é a poesia ser uma espécie de religião que dispõe de mais sacerdotes que fiéis. O número de seus sacerdotes é tão grande que é seguro dizer que ela deixou há muito de fazer sentido para a vida da sociedade. O cultivo da poesia se tornou, dessa forma, no culto inócuo de uma religião que não mais desperta a piedade de ninguém.
Por isso adotei em relação a este livro, como, de resto, a todos os outros de minha autoria, as palavras de Nietzsche abaixo do título do Assim falava Zaratustra: “Um livro para todos e para ninguém”. Só que, para Nietzsche, tratava-se da abertura de um novo idioma filosófico e, no nosso caso, do apagamento do mais velho idioma da humanidade.
Entretanto resta um destino, ainda que caprichoso, para este autor: o de escrever apenas para a língua portuguesa e, virtualmente, para todos os seus falantes existentes ou por existir em qualquer dos países que a adotaram como língua. E ainda se dentro de trinta ou quarenta anos esta língua se extinguir ente nós, transformada num patoá irreconhecível, não haverá problema, posto que ela continuará sendo falada em outros países que a tomaram como veículo de sua cultura, realizando, dessa forma, a sentença de Fernando Pessoa através de seu semi-heterônimo Bernardo Soares “Minha pátria é a língua portuguesa”.
E mesmo quando, ao nosso redor, não houver mais leitores para qualquer forma de poesia, ela permanecerá como um documento da língua. Pois é como documento que deixo este livro — no ataúde de luxo de sua bela edição — em testemunho de uma linguagem que perdeu para sempre o seu imaginário. E que nele viva a língua portuguesa.
Recife, 14 de Agosto de 2008.

