Carta aberta contra a incoerência

Aula

A greve dos pro­fes­so­res foi defla­grada na segunda-feira em assem­bleia no Sin­di­cato dos Ban­cá­rios. Lotada a assem­bleia. Acho que há anos não vejo uma mobi­li­za­ção tão forte dos pro­fes­so­res em defesa dos seus direi­tos, mas ainda assim há os que titu­beiam, que não aderem. Eu aderi, e de uma maneira muito serena, muito coe­rente, como nunca havia sido. E isso por­que o que está em jogo é defi­ni­ti­va­mente o rumo da classe, o des­tino da pro­fis­são de pro­fes­sor da rede pri­vada em Pernambuco. 

Os fatos: o sin­di­cato patro­nal, depois de 8 roda­das de nego­ci­a­ção, insiste com sua pro­posta de 6%. Até aí, nada de novo, já que o IPCA do ano pas­sado foi 5,9%. Nenhum ganho sala­rial, já que tudo aumen­tou muito mais, só que eles não para­ram aí. Com a des­culpa de adi­an­tar a pro­gra­ma­ção para o ENEM, o sin­di­cato patro­nal quis dar um golpe nos pro­fes­so­res, mudando as férias de julho para janeiro. Na prá­tica, isso pode­ria acar­re­tar a perda da esta­bi­li­dade que temos por ser demi­ti­dos no meio do ano. É natu­ral que se um pro­fes­sor é demi­tido no meio do ano difi­cil­mente encon­trará emprego até o ano seguinte. E hoje, só não se demite quem qui­ser por olhar feio por conta dessa cláu­sula. Se tira­rem esse direito nosso, melhor mudar de pro­fis­são, por­que a cate­go­ria, que é res­pei­tada como cão sar­nento por alguns donos de esco­las, per­derá ano a ano seus direi­tos. Batata.

Mas aí vem a mobi­li­za­ção, a greve. Eu vejo vários cole­gas deci­di­dos indo em frente e man­tendo a para­li­za­ção. Eu parei em todas as esco­las, inclu­sive naque­las que man­têm comigo uma exce­lente rela­ção, por­que não se trata de nada pes­soal, trata-se de coe­rên­cia. Quero dizer a meu filho daqui a alguns anos que em 2009 qui­se­ram roubar-nos a dig­ni­dade e eu disse não. Não sei se direi a meu filho que fui demi­tido no final do ano, mas sei que direi: “Filho, não abaixe a cabeça, não aceite que te tra­tem como um burro de carga. Para quem é com­pe­tente, tra­ba­lho não falta, mas uma vez que você perde a dig­ni­dade, não adi­anta pro­cu­rar no contra-cheque.”

Deixo, para aca­bar, um frag­mento do famoso poema de Edu­ardo Alves da Costa, No cami­nho com Maiakovski.

Assim como a cri­ança
humil­de­mente afaga
a ima­gem do herói,
assim me apro­ximo de ti, Mai­a­kóvski.
Não importa o que me possa acon­te­cer
por andar ombro a ombro
com um poeta sovié­tico.
Lendo teus ver­sos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conhe­ces melhor do que eu
a velha his­tó­ria.
Na pri­meira noite eles se apro­xi­mam
e rou­bam uma flor
do nosso jar­dim.
E não dize­mos nada.
Na segunda noite, já não se escon­dem:
pisam as flo­res,
matam nosso cão,
e não dize­mos nada.
Até que um dia,
o mais frá­gil deles
entra sozi­nho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhe­cendo nosso medo,
arranca-nos a voz da gar­ganta.
E já não pode­mos dizer nada.

Nos dias que cor­rem
a nin­guém é dado
repou­sar a cabeça
alheia ao ter­ror.
Os humil­des bai­xam a cer­viz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senho­res do mundo,
por temor nos cala­mos.
No silên­cio de me quarto
a ousa­dia me afo­gueia as faces
e eu fan­ta­sio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
tal­vez meus lábios
calem a ver­dade
como um foco de ger­mes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repe­tir
são men­ti­ras.
Mal sabe a cri­ança dizer mãe
e a pro­pa­ganda lhe des­trói a cons­ci­ên­cia.
A mim, quase me arras­tam
pela gola do paletó
à porta do tem­plo
e me pedem que aguarde
até que a Demo­cra­cia
se digne apa­re­cer no bal­cão.
Mas eu sei,
por­que não estou ame­dron­tado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espe­tar as cos­te­las
e o riso que nos mos­tra
é uma tênue cor­tina
lan­çada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plan­tio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e aca­bam por nos rou­bar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sem­pre o temos con­tra nós.
Dizem-nos que é pre­ciso
defen­der nos­sos lares
mas se nos rebe­la­mos con­tra a opres­são
é sobre nós que mar­cham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a con­di­ção
de falso demo­crata
e rotulo meus ges­tos
com a pala­vra liber­dade,
pro­cu­rando, num sor­riso,
escon­der minha dor
diante de meus supe­ri­o­res.
Mas den­tro de mim,
com a potên­cia de um milhão de vozes,
o cora­ção grita — MENTIRA!

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