Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso.
Michael Jackson morreu. O fato em si, não deveria despertar tanto assombro, afinal todos morrem. Por que então toda a comoção? Por que o fim da existência dele causa tanto escândalo? É que Michael Jackson, sua família talvez, tinha vocação para o escândalo. E aqui recorro à etimologia da palavra escândalo para usar uma das acepções. No latim, sacandàlum, “pedra de escândalo”, poderia ser uma “armadilha”. Foi assim a vida dele: uma armadilha.
Foi o pai, que, segundo dizem, abusava dele e pressionava todos na época do Jackson Five para que fizessem mais dinheiro quem fundiu a cabeça do rapaz? Também. Mas a raíz disso tudo, acho, é o que o consagrou: a indústria do entretenimento. Michael foi um ser criado pela indústria, transformado num bem de consumo, ‘coisificado’ para ser um ícone do Pop. E ele gostava disso. Deve ser complicado ser tratado como um faraó o tempo todo, como um deus caminhando sobre a Terra. Mas ele não era um deus, era cheio de fragilidades, de complexos, como qualquer um, mas não podia ser qualquer um, precisava ser o ícone. Mas as fragilidades continuavam lá, os traumas continuavam lá. Muita coisa que ia deformando a personalidade dele, coisa que precisava ser tratada mas que o exercício de deus não permitia. O caos dentro de Jackson não era despejado em lugar algum. Voltava para ele, remoía suas entranhas. Daí as excentricidades, a vida se dissolvendo numa farsa ao revés, a vontade de voltar a algum lugar escondido da infância, antes de tudo, antes da avalanche da indústria tê-lo transformado na aberração que se tornou. Acusações de pedofilia, estripulias econômicas, relacionamentos amorosos tão alegóricos como a sua própria vida. Tudo reflexo do escândalo, da armadilha montada para Michael. Ele caiu na arapuca, ficou se alimentando dentro da arapuca, gostou da comida e não saiu mais. Teve a sorte de não ser cuspido completamente dela, depois de ser devorado: já vinha enfrentando a decadência há anos, mas sua futura turnê na Europa já tinha todos os ingressos vendidos. Talvez tenha sido melhor assim: seu sonho acabando sem muito sentido, sem aviso.
No final das contas, por que a comoção? Porque a vida amargurada de Michael o transformou (?) num mártir pós-moderno, num ser esmagado pelo mercado, que não conseguiu ‘ser’ plenamente por conta da pressão que o seu mito lhe impôs. Tão pós-moderno que sua morte foi aunciada na internet, entre boatos, antes de ser divulgada na TV ou em jornais de papel; uma notícia tão cheia de mistério como a própria existência de Michael.
A morte de Michael pôs um fim a seu escândalo em vida para dar início a outro. Já prevejo as disputas judiciais pelos direitos de suas canções, das dos Beatles — que adquiriu, para a fúria de McCartney -, dos direitos de propagar sua imagem de deus, de faraó pós-moderno, deformado faraó, que se converteu no final em uma pantomima do que ele mesmo foi: um ser que queria ser outro, que queria estar em outro lugar, talvez na Terra do Nunca, onde seria eternamente só um menino que cantava bem.

