Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Enorme

Quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

Não acei­tar apoios em troca de favo­re­cer os inte­res­ses dos pode­ro­sos, contra as verda­des em que acredito.

Isso deve­ria ser um manda­mento quando se trata de artis­tas, de gente que veio ao mundo para arra­nhar a reali­dade, para abrir pupi­las. Mas não é. E quando se fala de provín­cia, onde o fisi­o­lo­gismo impera, onde todas as clas­ses — sem exce­ção! — possuem indi­ví­duos conta­mi­na­dos, parece que a coisa piora. Há uma parte da classe artís­tica que vive dessas esmo­las gover­na­men­tais, que vive grudada na soleira do poder como um lodo reni­tente, governo após governo, gera­ção após gera­ção. Tem um cargo? É meu. Uma verbi­nha pra desen­vol­ver meu projeto enga­ve­tado por déca­das porque é simples­mente… medío­cre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se proli­fera por todas as outras maçãs da feira.

Vermes.

Ficam ali se alimen­tando da maçã, depois da podri­dão da maçã, depois do que restar das outras maçãs, depois da podri­dão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difí­cil de você iden­ti­fi­car a podri­dão do verme, a medi­o­cri­dade do verme entre as maçãs.

É assim por aqui em Recife, a maior provín­cia do Brasil. Todas as clas­ses têm seus vermes. Eu disse todas. Não se choque, não se doa: gente envol­vida com “arte” também. Também ou prin­ci­pal­mente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que confere, que me fere ver uma corja (colô­nia) de vermes devorando-a. É gente que vive de favo­re­zi­nhos, de trocas inde­cen­tes, batendo de porta em porta nas repar­ti­ções com seus proje­ti­nhos, repe­tindo as mesmas ladai­nhas por anos a fio para ter verba pública.

O que inco­moda mesmo não é o fato de baju­la­rem os pode­ro­sos, mas a sua medi­o­cri­dade. Ver tanta gente fazendo coisas que real­mente mere­ciam desta­que sem dinheiro para levar ao público seu traba­lho enquanto os vermes lambem as alca­ti­fas dos gabi­ne­tes. Isso inco­moda um pouqui­nho. Ver gente compe­tente traba­lhando e tendo o seu traba­lho menos­pre­zado. Ver gente traba­lhando e os vermes se apro­pri­ando do seu traba­lho, usando a buro­cra­cia, a pres­ti­gi­ta­ção e o engodo para apagar da histó­ria os nomes que inte­res­sam. Mas é tática do verme. Que tudo decaia, que o verme impere por cima das maçãs podres! Diante da podri­dão - que o próprio verme cria — tudo é beleza deca­dente; a medi­o­cri­dade vira o modelo, tudo que se faz depois disso é um reflexo distor­cido dessa farsa que o verme montou.

E as maçãs? As maçãs podem fazer pouco. Belas as maçãs, mas está­ti­cas à ação do verme, repou­sando no tabu­leiro da feira. Invejo a beleza das maçãs. Incomoda-me sua passi­vi­dade, sua classe, seu salto alto, sua rombuda forma de ser. É que as maçãs estão acos­tu­ma­das à beleza e querem preservá-la enquanto for possí­vel. Igno­ram os vermes, a putre­fa­ção dos vermes. Mas a putre­fa­ção dos vermes, como sabe­mos, acaba passando para as maçãs. Elas se negam a fazer algo. É a natu­reza da maçã, não há o que fazer. A maçã traba­lha seu gosto, sua forma, sua exati­dão de maçã. Esquece-se do verme, esquece-se que o verme inter­fere na sua exati­dão de maçã, na sua forma, no seu gosto.

Mas o que escapa ao verme é o fato de ainda exis­ti­rem os Extirpadores.

São uma raça estra­nha, que vive rondando a feira, apare­cendo vez ou outra, que inco­moda a todos — às maçãs e ao verme -, que não se cala, que vigia a feira em busca dos vermes, que iden­ti­fica a lenta loco­mo­ção do verme no meio das maçãs, que futuca a maçã em busca do verme, que expõe o verme à multi­dão raquí­tica. Even­tu­al­mente a multi­dão clamará pela volta do verme, acos­tu­ma­dos que estão ao tempero do verme na maçã, à podri­dão propa­gada pelo verme. E o Extir­pa­dor não verá outra maneira de agir senão entre­gar a maçã podre. O verme mais uma vez vence, mas das entra­nhas do Extir­pa­dor, às vezes, nasce uma maçã que pode chegar à boca da turba faminta. E eles podem até apre­ciar do gosti­nho — mudar o pala­dar da multi­dão é coisa dura, melin­drosa. O gosto lembra o das maçãs sem o verme — quanto tempo faz que não prova­mos? — mas é gosto fugaz, só um lampejo da memó­ria. É pra lembrar que ainda exis­tem maçãs sem vermes.

Talvez nesse momento, obser­vando o brilho nos olhos da multi­dão, cada um deliciando-se com sua maçã, o Extir­pa­dor sinta-se à vontade para, num ligeiro golpe de pole­gar e indi­ca­dor, esma­gar defi­ni­ti­va­mente o verme diante dos come­do­res de maçãs podres. Mas há tantos vermes, há tantos vermes… E há tanta gente que se acos­tu­mou a comer maçãs podres. E há tantas maçãs para­das na feira. Não importa. A natu­reza do Extir­pa­dor é azedar a vida do verme, é banhar as feri­das do verme com vina­gre, é fazer de sua exis­tên­cia um caos tão avas­sa­la­dor que não lhe restará outra coisa senão deixar o tabu­leiro e voltar para a imun­dí­cie do lodo, para o silên­cio das alca­ti­fas esté­reis dos gabi­ne­tes vazios, para o Nada, seu reflexo derra­deiro, o lugar de onde nunca deve­riam ter saído.

Recife, 23 de junho de 2009.

Creative Commons License photo credit: orso­rama

  • http://www.wellingtondemelo.com.br Welling­ton de Melo

    Acho que é por aí, Gerusa. Vamos em frente!
    @Gerusa Leal -

  • Pingback: Wellington de Melo | Resenha crítica sobre o primeiro episódio de Som e Fúria | Wellington de Melo - site do poeta pernambucano

  • http://www.cafecolombo.com.br Renato Lima

    Belo texto, Welling­ton. Pena que os vermes estão cada vez mais gordos, de tanto come­rem as maçãs. Vermes gordos… Lembrei desse artigo do profes­sor Alexan­dre Barros, cien­tista polí­tico, publi­cado lá no Insti­tuto Mille­nium (http://​www​.imil​.org​.br/​a​r​t​i​g​o​s​/​v​o​c​e​-​p​a​g​a​-​t​o​d​o​s​-​o​s​-​p​r​i​v​i​l​e​g​i​o​s​-​d​e​l​es/):
    “Os cama­rões comi­dos nos palá­cios do governo saem nadando do seu bolso. O uísque bebido nas recep­ções do Itama­raty foi confis­cado de algum brasi­leiro que pagou sua passa­gem inter­na­ci­o­nal com o seu dinheiro e trouxe um pouqui­nho mais do que o governo gosta­ria que ele trouxesse.

    Não se iluda, ilus­tre passa­geiro, foi apre­en­dido dos brasi­lei­ros sem privi­lé­gios. Porque os privi­le­gi­a­dos passam pelo “canal azul” da alfân­dega. Ah, você achava que só exis­tiam os canais verde e verme­lho? O azul existe, mas é invi­sí­vel. Por ele passam os privi­le­gi­a­dos e os que corrom­pem funci­o­ná­rios corrup­tí­veis. Você nem chega a saber que ele existe.”

    • http://www.wellingtondemelo.com.br Welling­ton de Melo

      Pois é, rapaz. Gordi­nhos que só.

  • http://www.wellingtondemelo.com.br Welling­ton de Melo

    Cami­nhe­mos, querida Gerusa, caminhemos…

  • http://www.flor-de-gelo.blogspot.com Gerusa Leal

    Welling­ton, como diria uma amiga poeta, nem pana­céia nem berço de todos os males. Mas te entendo, já tive (e expres­sei) vários momen­tos de cuspir sobre os vermes. Desde que a gente não rasteje com eles, vamos conti­nuar tentando extir­par as maçãs podres e degus­tar as saudá­veis. Afinal, os vermes (e as maçãs) sempre exis­ti­rão. E não só dos mari­nhos, que dão nos aReci­fes. Que a arte seja culti­vada, acima, além de, e nutrida por todas as diferenças.