
A insustentável leveza do elefante 2 por Rodrigo Souza Leão
Rodrigo de Souza Leão era um dos cinquenta finalistas do Portugal Telecom e foi embora assim, de surpresa, deixando tudo no ar. Não conhecia a obra dele. É estranho sentir curiosidade de conhecer alguém, porque parece aquela coisa mórbida do interesse pelo morto, mas a verdade é que visitando o blog da Micheliny vi um link, que levou a um link que levou ao blog do Rodrigo (lowcura).
Aí me veio a coisa: é algo triste o blog de um morto. Um blog normalmente é algo que tem movimento, que te põe em contato com o autor. Sabê-lo morto, ver o blog ali, como os restos digitais de alguém é algo que me deixa depressivo. Esse é um tema que já tentei transpor em poema, mas que nunca me sai: o espólios digitais de um morto. Eu imaginava no poema — esse que ainda está nascendo em mim — a desolação da caixa postal de um morto. As mensagens chegando, suspensas no mundo virtual, eternamente sem resposta. O blog de Rodrigo tem a última postagem no dia 25 de junho. Ele morreu no dia 1 de julho. O post é este:
A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations. (link para o blog acima)
Rodrigo era esquizofrênico. Andei lendo coisas dele, principalmente poesia. Achei tão verdadeiro, tão forte. O último poema me ficou na cabeça, como o Voy a dormir, de Storni. Publicou no dia 25. Diz assim:
Tudo é pequeno
Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguanaO que é grande
É a arte
Há vida em marte
Dá um nó na garganta. Aí eu retomo aquela coisa da morbidez de procurar saber sobre alguém depois morte. Acho que o Rodrigo merece ser descoberto ou redescoberto, porque faz arte. Continua Rodrigo na rede, suspensas suas palavras, esperando olhos e mentes, flutuando na memória como um poema rebelde, fugindo pra sempre do cemitério de elefantes.


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