Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

A semana que ante­ce­deu a morte de Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo foi mar­cada por chu­vas tor­ren­ci­ais no Recife. Enquanto a poe­tisa lutava pela vida na uni­dade de tra­ta­mento inten­sivo de um hos­pi­tal, uma lúgu­bre chuva caía na cidade. A tarde em que foi enter­rada, no entanto, foi par­ti­cu­lar­mente enso­la­rada, como se o céu decla­rasse uma tré­gua para a che­gada de uma con­vi­dada ilus­tre, como se não fosse pos­sí­vel recebê-la entre lágri­mas, como se mere­cesse uma recep­ção solar. Deus não pode­ria ser mais justo.

D. Car­mi­nha foi uma matri­arca: criou oito filhos, viu cres­cer dezes­seis netos, foi uma dedi­cada esposa durante toda a vida – uma união que se per­pe­tuou quando menos de um mês após sua morte, seu esposo, o enge­nheiro e fotó­grafo José Otá­vio de Melo, tam­bém foi a seu encontro.

Ela con­se­guiu um feito que invejo, algo que os escri­to­res, poe­tas em espe­cial, difi­cil­mente con­se­gui­mos: con­ci­liar nossa escri­tura à famí­lia. Tenho comigo que – e os lei­to­res têm todo o direito de dis­cor­dar –, salvo raras exce­ções, os poe­tas são o olho do fura­cão, levam para seu abismo de letras todo o amor dos que os rodeiam e são con­su­mi­dos por suas pró­prias letras. Com D. Car­mi­nha, não. É um mis­té­rio para mim como con­se­guia a poe­tisa dar conta do caos que bro­tava do seu ser e que se des­pe­java em poe­sia, ao mesmo tempo que lograva ser uma pre­sença serena onde che­gasse; que aco­lhia quem lhe pedisse um pão com o mesmo fer­vor com que defen­dia a Aca­de­mia, pela poe­sia, con­tra a medi­o­cri­dade e os puros jogos de inte­res­ses. Quanta falta fazem os poe­tas autên­ti­cos, que o são por­que queima den­tro de sua alma uma ver­dade que não quer calar, por­que igno­ram os egos infla­dos e a soberba dos pode­ro­sos com uma ter­nura des­con­cer­tante. Quem a conhe­cia sabia que trans­cen­dia ide­o­lo­gias, bus­cava a pala­vra essen­cial, via a poe­sia no coti­di­ano ou nas pro­fun­de­zas da alma humana com suas pupi­las aéreas, pupi­las de poeta. Quanta falta fazem os poe­tas que der­ru­bam o mundo com um silêncio.

Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo foi ver­da­dei­ra­mente uma lumi­nosa pre­sença em incon­tá­veis vidas, uma irra­di­a­ção tênue e cons­tante na epi­derme dos que se apro­xi­ma­ram dela: com sua luz ali­men­tava flam­boyants para que desa­bro­chas­sem. Tal­vez um dia per­ce­ba­mos quan­tos flam­boyants aju­dou a nas­cer para a poe­sia. Tal­vez algum dia enten­da­mos a dimen­são da influên­cia da poe­tisa da Torre nas veias lite­rá­rias que se espa­lham por nossa cidade. Um exem­plo dessa dimen­são foi dado naquela triste tarde de 2008 em que nos des­pe­di­mos dela: a pou­cos metros do ataúde e da imen­si­dão de silen­ci­o­sas coroas de flo­res, cho­roso num can­ti­nho, Miró da Muri­beca. Mais uma vez, os que não conhe­cem D. Car­mi­nha tal­vez não enten­des­sem a emo­ção do poeta, dono de uma lírica que os incau­tos jul­ga­riam dia­me­tral­mente oposta à dela. Mas ape­nas pen­sa­riam isto os que não sabem que foi Maria do Carmo quem pri­meiro publi­cou o poeta em 1984, no jor­nal interno da Sudene, órgão em que ela tra­ba­lhou por vinte e cinco anos. A poe­tisa viu, nos tex­tos do então auxi­liar de lim­peza João Cláu­dio Flá­vio Cor­deiro da Silva, o nas­ci­mento de um grande poeta. Olhos de poeta, que veem além do pre­con­ceito mofado de parte das eli­tes dos casa­rões açu­ca­ra­dos. Entre lágri­mas, Miró con­tou naquela tarde como Maria do Carmo o aju­dou quando se tra­ves­tia de faxi­neiro da Sudene – o poeta sem­pre esteve ali, mas só Car­mi­nha o viu –, como ela lhe pedia para não “colo­car pala­vrões nos poe­mas”. Como um bom poeta, não era de seguir con­se­lhos, mas disse naquela tarde de sol um poema sem pala­vrões para D. Car­mi­nha. O poema de Miró dizia assim:

O céu hoje acor­dou cin­zento
sem nuvens
sem estre­las
sem nada.
Devo agora cal­çar os sapa­tos
Reto­car tim tim por tim tim o cora­ção
O chão da cidade
Não há mais sonhos nem arco-íris na íris do meu olhar
Que antes, bem antes
Era tanto mar, tan­tos rios, ton­tos risos
Devo agora fazer as malas
Aper­tar com cui­dado pou­cas rou­pas
alguns ami­gos
Car­tões pos­tais pra não te per­der de vista
E o eterno vício de que­rer mais que nunca o exer­cí­cio
[de viver
Sem ter que pegar no seu pé para ensi­nar o ritmo
Por ser­mos tão desi­guais dan­ça­mos em dife­ren­tes tri­lhos
Devo agora cami­nhar
Não dei­xei grãos de milhos na estrada
Mas devo saber voltar”

Poema de Janeiro, Miró da Muribeca.

O dia para Miró era cinza, como para todos os que ali esta­vam. Mas D. Car­mi­nha insis­tia em bri­lhar, em ser aquela pre­sença de que falá­va­mos, pre­sença terna que sinto ainda hoje, quando me pego lem­brando de nos­sas con­ver­sas ves­per­ti­nas em sua modesta sala, rode­a­dos de livros, ano­ta­ções, entre uma visita e outra que che­gava, sob o olhar zeloso de seu José. Sinto uma melan­có­lica ale­gria de ter sido um de seus últi­mos pupi­los, de ter com­par­ti­lhado sua ami­zade gene­rosa no auge de sua matu­ri­dade e sapi­ên­cia. Naquela tarde, após Miró, li um dos que con­si­dero ser um de seus mais belos poe­mas. Li-o como um canto con­tra a visão do esquife, que silen­ci­oso guar­dava o corpo que fora da amiga, como um grito que rom­pesse aquele silên­cio. O seu poema diz assim:

Isso
que vedes
não sou Eu,
tão só as coi­sas que
me com­põem:
o lenço, as mãos
os cabe­los vege­tais e esse
olhar lon­gín­quo.
As coi­sas
só me anun­ciam
e à minha pre­sença múl­ti­pla e frag­men­tá­ria
Mas me adi­vi­nha­reis e a
meu trân­sito nos dias. Sou uma dor iti­ne­rante.
Isso que vedes,
não sou Eu
só me antecede/ me pre­para
que vária e incon­clusa
sub­sisto
e sóli­tá­ria assito
às mui­tas mor­tes de mim.

Isso que vedes
não sou Eu.”

Nin­guém mais reci­tou poe­mas naquela tarde.

Con­fesso que a decep­ção me tomou num pri­meiro momento. Insó­lita mul­ti­dão de poe­tas silen­ci­o­sos diante de túmulo flo­rido. Depois com­pre­endi que nada mais devia ser dito, que tal­vez o silên­cio, tão que­rido a minha amiga, fosse um gesto que apre­ci­asse. Mas não! Tal­vez não fosse o silên­cio a última coisa que ela quisesse:

Vim para ficar não tenho parte com as coi­sas tran­si­tó­rias.
sou ima­nente incon­sú­til estru­tu­ral sou intei­riça: talharam-me de uma
peça só deram-me um nome
e uma cor secreta que adi­vi­nho em sonhos
daí que car­rego uma sau­dade nos olhos que me faz pare­cer um calen­dá­rio
[sem tempo.
Che­guei para ficar.
Minha per­ma­nên­cia per­turba tua tran­si­to­ri­e­dade sem raí­zes
des­com­passa teus pas­sos sem com­pro­misso com o chão que me retém.
Os que não me sabem me adi­vi­nham marco fin­cado
entre estra­das par­tindo para onde não sei
está­tica rosa dos ven­tos para tua face ins­tá­vel e fugidia.”

Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo per­ma­ne­cerá em nós – ape­nas os ver­da­dei­ros poe­tas per­ma­ne­cem; a imor­ta­li­dade não se con­se­gue com uma cadeira numa mesa de céle­bres senho­res e senho­ras, mas com letras, san­gue e alma. Agora, em todos nós resta a lem­brança desta senhora de sor­riso dis­creto, de pou­cas pala­vras, de uma alma imensa, de ges­tos sua­ves e ideias enér­gi­cas. Quanto a mim, lhes digo que me res­tam umas pou­cas coi­sas que guardo com o ter­ror das coi­sas de Rilke. Resta em mim uma última lágrima não der­ra­mada, resta em mim sua letra escon­dida entre os silên­cios de minha letra, resta em mim o cheiro doce dos jas­mins ves­per­ti­nos do quin­tal de sua casa, flo­res­cendo eter­na­mente no pátio de minha saudade.

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