Wellington: Fazer 25 anos de poesia é ter visto muita coisa, ter muita história pra contar. Lembra aí uma história hilária desses 25 entre poetas.
Lara: Foram tantas. Algumas hilárias. Outras, trágicas. Lembro de um recital no bar Curupira, em Dois irmãos, que era parte de uma noitada cultural. O ano era 1997. O bar tava lotado. Na metade do recital, já tava todo mundo entupido de todas as drogas, com os egos inflamados, e rolando uma disputa feroz e insana pelo microfone. Aí Erickson, ao recitar, não queria passar o microfone pra mais ninguém. Espinhara foi lá e tomou o microfone de Erickson na maior violência. Depois pegou o microfone e bateu ele com força nas paredes do bar. Começou a sair umas faíscas de fogo enormes. Quanto mais saía, mais ele batia. Todo mundo começou a correr, rolou um princípio de tumulto. Pegou fogo na caixa de som. Foi um fuzuê arretado. Tinha um vizinho do bar que era tenente da PM e ameaçou prender todo mundo. Que confusão, rapaz. Pereirinha era o dono do bar e, pra que o tenente não chamasse os “home”, encerrou tudo naquela noite. Fechou o Curupira naquela hora mesmo. Fomos terminar a noitada numa bocada lá da Brasilit, ali por trás do cemitério da Várzea. Pense num pardieiro.
Wellington: Mas também tem o lado negro. Poderias falar disso?
Lara: Pra mim, o lado mais negro é a condição de estigma, anátema, estranho no ninho. Você ser visto como um inimigo ideológico, social, cultural. Aí rola discriminação existencial braba. É um círculo de fogo terrível ao redor. É sabor amargo mesmo. Desprezo. Perseguição. As pessoas normais, bem adaptadas, não fazem a menor idéia das agonias existenciais decorrentes desse círculo de fogo. É bronca pesada. Alguns chegam a acusar-nos de paranóicos, mas as relações de poder estão aí pra quem quiser ver, é só tirar a venda dos olhos.
Wellington: Todo mundo diz que poesia não vende. Dá pra viver de poesia?
Lara: Ninguém vive de poesia nesse país, principalmente se é uma poesia que destoa do gosto popular. Ferreira Gullar vive de jornalismo e outros “trampos”. Miró tem outras virações. Espinhara era professor. Eu sou assistente administrativo. Outros promovem oficinas e mil “histórias”. Poesia não vende MESMO. Existem raríssimas exceções, mas mesmo assim, nestes casos, não é apenas a poesia que cobre todas as despesas. O poeta ainda é um estranho no ninho da normose estabelecida.
Wellington: Da produção atual, algo te chama a atenção?
Lara: Entre os jovens escritores do Brasil, há gente de muito talento. Algo que me chama muito a atenção nesses jovens é um forte pendor para a escatologia existencial e a experimentação formal exacerbada. Deixam-me a impressão que são uma espécie de divisor de águas na literatura brasileira: um pontapé inicial diferente dos jovens do início do Século Vinte. Aqui em Pernambuco eu citaria Fernando Chile e Aline Andrade. No Brasil, Sérgio Vaz e Bruna Beber.
Wellington: Fazendo aquela pergunta idiota de fim de entrevista: que conselhos pra quem tá começando agora, se metendo nessa doideira de ser escritor? Ou melhor: qual o segredo da longevidade com energia?
Lara: Querer viver apenas de literatura, é bobeira mesmo, coisa de quixote ou “peter pan”. Eu não aconselharia isso pra ninguém. Eu mesmo vivo de serviço público há 24 anos. Alguns raros conseguem viver apenas de literatura, mas pagam um preço por isso: limitações no estilo e no conteúdo. A condição existencial e financeira do escritor não é nenhum mar de rosas. É muito incerta, e em alguns casos chega a ser mal vista. Longevidade depende, como sabemos, de uma vida saudável. E vida saudável não é um troço muito comum entre poetas e escritores. Esse pessoal tem um pendor muito forte para os excessos “dionisíacos” e para os abismos mentais.
Wellington: É isso. Faltou dizer algo?
Lara: Vou enfatizar rapidamente o seguinte: a maturidade me trouxe a percepção de que, entre os diferentes campos literários, a postura mais frutífera é abrir-se para o jogo dialético entre eles, ao invés da hegemonia “absoluta” de um deles sobre os outros, seja ele qual for. Hoje não vejo mais a hegemonia do campo “independente” como a posição mais frutífera. Qualquer campo pode ser vivido como um compartimento mental que limita bastante as percepções em geral, não apenas as percepções artísticas, mas a expansão da consciência em todos os seus aspectos.

