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A poética cyborg de Wellington de Melo

Uma con­versa entre um homem e um com­pu­ta­dor figura entre os momen­tos mais tocan­tes do cinema: a cena em que o personagem-astronauta Dave Bow­man des­liga o super­com­pu­ta­dor HAL 9000 no filme 2001 – Uma odis­seia no espaço (1968), de Stan­ley Kubrick. A res­pi­ra­ção tranqüila do astro­nauta enquanto “mata” o com­pu­ta­dor, que “suplica” para que ele desista do ato, imprime no expec­ta­dor uma estra­nha iden­ti­fi­ca­ção e empa­tia pela máquina, pare­cendo esta mais humana do que seu inter­lo­cu­tor de carne e osso. Qua­tro déca­das após o lan­ça­mento daquele filme, tendo o com­pu­ta­dor se tor­nado parte da vida coti­di­ana, as refle­xões con­tem­po­râ­neas acerca da inte­ra­ção e seme­lhan­ças entre o ser humano e a máquina podem ser encon­tra­das sob diver­sas pers­pec­ti­vas, desde a bio­ló­gica até a filo­só­fica, che­gando à rup­tura com essa sepa­ra­ção atra­vés do “mito do cyborg”, 1 des­crito por Donna Haraway como um “híbrido de máquina e orga­nismo, uma cri­a­tura tanto da rea­li­dade social quanto da fic­ção”. Embora essa nossa rea­li­dade pós-moderna torne essas dis­cus­sões muito pas­sí­veis de ins­pi­ra­ção lite­rá­ria, encon­trar nessa apro­xi­ma­ção entre o humano e o inu­mano algo de poé­tico torna-se uma emprei­tada tanto difí­cil quanto ousada, sobre­tudo pelo perigo de se cair no clichê.

Um livro de poe­mas arti­cu­lado em cinco par­tes ? A proto-M@quina, A M@quina, A anti-M@quina, A hiper-M@quina e O pó ? con­duz o lei­tor por uma via­gem poé­tica, cujo veí­culo pode­ria mais ser a espa­ço­nave de Kubrick do que o navio moder­nista de Álvaro de Cam­pos (Fer­nando Pes­soa). O livro se chama [des­vir­tual pro­vi­só­rio], recen­te­mente lan­çado pelo poeta Wel­ling­ton de Melo. Na obra, a con­cep­ção de máquina se con­funde com algo que está antes, den­tro e depois do homem, com o caos orde­nado do cos­mos, 2 com a máquina-natureza, enfim, (con)funde-se com aquilo que mui­tas vezes desa­fia a raci­o­na­li­za­ção, mas, ainda assim, move-se e nos move: a poesia.

O título é reve­la­dor quanto à noção de que a poe­sia é sem­pre algo pres­tes a se fazer pre­sente, sem­pre algo vir­tual na exis­tên­cia das coi­sas, sem­pre à espreita para se tor­nar real mesmo que seja nas pou­cas deze­nas de minu­tos em que lemos um livro. E ela, a poe­sia, se “des­vir­tu­a­liza” nessa lei­tura, mesmo que pro­vi­so­ri­a­mente. Em [des­vir­tual pro­vi­só­rio], as pala­vras res­ga­tam ima­gens sal­vas na memó­ria das coi­sas, da His­tó­ria e do poeta; ora enfa­ti­zam, ora rebelam-se con­tra o nada, resis­ten­tes a se tor­na­rem pó, como se fora um cyborg, que “não foi feito do barro e não pode sonhar em retor­nar ao pó”. 3

O que é a poe­sia senão tam­bém a memó­ria res­sig­ni­fi­cada? O pós-modernismo ? que Fre­dric Jame­son pre­fere iden­ti­fi­car “não como um estilo, mas como uma domi­nante cul­tu­ral” 4 ? res­salta isso por toda parte em sua pro­du­ção artís­tica e nas diver­sas lin­gua­gens, com suas rein­ter­pre­ta­ções da memó­ria cul­tu­ral, prin­ci­pal­mente no que tange a His­tó­ria, a Esté­tica e a Ética. A pós-modernidade tem ope­rado uma “lim­peza de disco” sobre as con­cep­ções oriun­das da moder­ni­dade, mas sem “deletá-las”, ape­nas rees­tru­tu­rando e atu­a­li­zando os frag­men­tos de infor­ma­ções e expe­ri­ên­cias. [des­vir­tual pro­vi­só­rio] ali­nha, a seu modo, as letras per­nam­bu­ca­nas com o dis­curso para­do­xal pós-moderno de uma nega­ção aco­lhe­dora, ao mesmo tempo dis­tan­ci­ada e cúm­plice. E temos uma reve­la­ção disso em seu texto ini­cial, inti­tu­lado [Preâm­bulo à M@quina], no qual a sín­tese de opos­tos se con­cre­tiza na pró­pria lin­gua­gem atra­vés do neo­lo­gismo do verbo “odei­a­mar” (odiar + amar):
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[quote author=“Preâmbulo à M@quina”] […] final­mente des­cu­bro que pesa sobre mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de meu tempo entende: a M@quina. É ela que canto. É ela que odei­amo. É ela que mato & é ela quem me renasce. É ela que me anula & por­que me anula me faz mais homem. [/quote]
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O mito do cyborg, como já assi­na­lado, tam­bém alude à fusão do vir­tual com o real atra­vés da sín­tese, num mesmo corpo, de um ser oriundo da fic­ção cien­tí­fica (uma inte­li­gên­cia arti­fi­cial autô­noma) e da rea­li­dade social (o ser humano). Pode­ría­mos encon­trar essa noção tra­ba­lhada de forma poe­ti­ca­mente crí­tica nes­tes ver­sos finais do poema [osso-silício], em que o homem surge como parte de uma fic­ção opres­sora cri­ada pelas buro­cra­cias cotidianas:

[quote author=“osso silí­cio”] só sou se impresso regis­trado autenticado/ :enquanto isso/ sou possibilidade/ men­tira esquar­te­jada em carne/ & osso [/quote]

A máquina can­tada por Wel­ling­ton de Melo não é mais aquela das loco­mo­ti­vas, navios e demais engre­na­gens dos moder­nis­tas. O sím­bolo con­ven­ci­o­nal­mente cha­mado de “arroba” (@) marca sem­pre a pala­vra máquina, subs­ti­tuindo tam­bém em outras pala­vras a letra “a” tônica, fazendo alu­são aos sím­bo­los grá­fi­cos freqüen­tes na rede mun­dial de com­pu­ta­do­res, e tal­vez esta possa ser con­si­de­rada um “proto-cyborg”, onde a máquina se torna, de maneira cada vez mais irre­vo­gá­vel, uma espé­cie de con­ti­nui­dade do pen­sa­mento humano. Um “uró­boro apo­ca­líp­tico” é men­ci­o­nado no poema [Preâm­bulo à M@quina], o que imprime à arroba tam­bém uma lem­brança daquele dra­gão mito­ló­gico que devora a pró­pria cauda e é sím­bolo de infi­ni­tude em várias cul­tu­ras anti­gas. Aliás, a dimen­são trans­cen­den­tal da memó­ria cul­tu­ral humana é bus­cada na obra em vários momen­tos, inclu­sive atra­vés da pre­sença de ter­mos cuja ori­gem cul­tu­ral diverge bas­tante, em apro­xi­ma­ções para­do­xais, tais como: “uró­boro apo­ca­líp­tico” e “Ogum High­tech” (paga­nismo, cris­ti­a­nismo, can­dom­blé). A memó­ria, então, tra­zida para a via­gem que [des­vir­tual pro­vi­só­rio] pro­põe, é uma memó­ria cam­bi­ante entre as par­ti­cu­la­ri­da­des cul­tu­rais do poeta e a vas­ti­dão da His­tó­ria (enquanto arquivo das expe­ri­ên­cias da humanidade).

  1. Haraway, Donna. “A Cyborg Mani­festo: Sci­ence, Tech­no­logy, and Socialist-Feminism in the Late Twen­ti­eth Cen­tury”. In: Simi­ans, Cyborgs and Women: The Rein­ven­tion of Nature (New York; Rou­tledge, 1991), pp.149181. Dis­po­ní­vel em: www​.stan​ford​.edu/​d​e​p​t​/​H​P​S​/​H​a​r​a​w​a​y​/​C​y​b​o​r​g​M​a​n​i​f​e​s​t​o​.​h​tml.
  2. Uma epí­grafe de Nietzs­che ante­cipa os poe­mas com estas pala­vras: “É neces­sá­rio pos­suir um caos den­tro de si para dar à luz uma estrela bri­lhante”
  3. Haraway, 1991 (Op. Cit.).
  4. Pós-Modernismo: a lógica cul­tu­ral do capi­ta­lismo tar­dio. São Paulo: Ática, 2000, p.29.

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  • http://iacapuca.co.cc Pedro Luiz(Iacapuca)

    Wel­ling­ton você ja ouviu falar de Ghost in the Shell(Fantasma do Futuro)

    • http://www.wellingtondemelo.com.br Wel­ling­ton de Melo

      O mangá? Sim. Por quê?