Encontro literário às avessas

Maté­ria publi­cada na Folha de Per­nam­buco, 13 de out.

Por Mônica Melo

Escri­to­res tres­lou­ca­dos, ofi­ci­nas lite­rá­rias às aves­sas, tea­tro, música, muita farra e, claro, polê­mica. É com essa baga­gem que aporta na capi­tal per­nam­bu­cana, entre os dias 6 e 8 de novem­bro, a Fre­e­Porto, Festa Lite­rá­ria do Recife. Ini­ci­a­tiva do grupo Urros Mas­cu­li­nos, o irre­ve­rente evento, a come­çar pelo nome (uma refe­rên­cia à Fli­porto), irá se ins­ta­lar no Bairro do Recife

De acordo com o con­tista Artur Rogé­rio, um dos inte­gran­tes do Urros, a rea­li­za­ção da Fre­e­Porto sur­giu do desejo do grupo em publi­ci­zar, de forma ime­di­ata e pujante, o que ele, o escri­tor Bruno Pif­far­dini e o poeta Wel­ling­ton de Melo pen­sam sobre toda essa mul­ti­pli­ca­ção de fes­tas lite­rá­rias, bie­nais e “espas­mos fli­pi­a­nos”, con­si­de­ra­dos por Artur parte rele­vante no pro­cesso de pro­mo­ção de velhos e novos auto­res. “Ape­sar da apa­rente iro­nia em ‘espas­mos fli­pi­a­nos’, não vemos essas fes­tas como algo essen­ci­al­mente nega­tivo. Par­ti­cu­lar­mente, me sinto pri­vi­le­gi­ado de viver e tra­ba­lhar neste ins­tante his­tó­rico. São impor­tan­tís­si­mas na mesma medida em que são ridí­cu­las todas essas fes­tas. E são inte­res­san­tes por isso”, comenta.

Supe­ra­das as difi­cul­da­des finan­cei­ras, a pri­meira edi­ção do evento con­tará com uma pro­gra­ma­ção “sara­pa­tel”, a par­tir da par­ti­ci­pa­ção de escri­to­res inu­si­ta­dos e rea­li­za­ção de ofi­ci­nas no mínimo curi­o­sas. O escri­tor Pedro Amé­rico de Farias, por exem­plo, irá minis­trar a off-cina “Como amar­rar o cadarço em pé”. Já a “Off-cina de cai­pi­ri­nha” será enca­be­çada pelo escri­tor Val­mir Jor­dão. “O dife­ren­cial da Fre­e­Porto é a nossa pro­du­ção e revi­são da ideia do que seja uma festa lite­rá­ria, com aten­ção vol­tada à festa mesmo e não a deba­tes, mui­tas vezes lin­dís­si­mos, mas que tal­vez cou­bes­sem mais no audi­tó­rio do Cen­tro de Artes e Comu­ni­ca­ção da UFPE”, acredita.

O escri­tor Mar­ce­lino Freire, um dos con­vi­da­dos da festa, reve­ren­cia a pro­posta dife­ren­ci­ada da Fre­e­Porto. “Os meni­nos do Urros vêm para balan­çar a cena, dar gás, fugir do “ofi­ci­oso”, do “naf­ta­loso”, da cul­tura chapa-branca. A Free é um evento que vem para fazer his­tó­ria em Per­nam­buco. Chega de caviar e lagosta, que­re­mos lite­ra­tura da boa e dis­cus­são calo­rosa. Enquanto os outros fazem festa com um milhão, os meni­nos fazem a Fre­e­Porto com humi­lha­ção”, diz o escri­tor, com a pro­pri­e­dade de quem orga­niza, há qua­tro anos, a Balada Lite­rá­ria, em São Paulo. Para ele, o vigor, o fres­cor e a irre­ve­rên­cia do evento con­sis­tem no grande mérito da Fre­e­Porto. “Penso que o que empaca, em boa parte, a lite­ra­tura feita em Per­nam­buco é o excesso de gra­vata, de sole­ni­dade, de José Sar­ney, Gló­ria Maria, de gente que vem falar de lite­ra­tura sem nenhuma graça, sem pul­sa­ção”, defende Marcelino.

Con­vi­da­dos
A aber­tura da Fre­e­Porto – Festa Lite­rá­ria do Recife no dia 6 de novem­bro con­tará com a pre­sença de Mar­ce­lino Freire, Clau­dio Wil­ler, Ron Whi­te­read, Lucila Nogueira, Rai­mundo Car­rero, entre outros. Para o sábado, está pro­gra­mada a par­ti­ci­pa­ção de San­ti­ago Naza­rian, Ivana Arruda Leite, Jomard Muniz de Brito e Val­mir Jor­dão. A poe­tisa Cida Pedrosa, Rai­mundo Moraes, Pedro Amé­rico de Farias, Cristhi­ano Aguiar, Samuca San­tos e Bia­gio figu­ram entre os con­vi­da­dos da festa.

Urros
O grupo lite­rá­rio Urros sur­giu em 2008 na forma de brin­ca­deira com as meni­nas do Vozes Femi­ni­nas: Sil­vana Mene­zes, Mari­ane Bigio, Susana Moraes e Cida Pedrosa. “Como um ‘con­tra­ponto’ à pro­posta das par­ti­ci­pan­tes do Vozes, cri­a­mos o nosso grupo de ‘escri­to­res machos’”, explica o con­tista Artur Rogé­rio, que atua no grupo junto ao escri­tor Bruno Pif­far­dini e o poeta Wel­ling­ton de Melo.

Con­forme Artur, a ideia ori­gi­nal con­sis­tia em pro­mo­ver apre­sen­ta­ções lite­rá­rias. A empol­ga­ção foi tanta que eles pas­sa­ram a se dedi­car à pro­du­ção de even­tos, como o Pri­meiro Lei­lão de manus­cri­tos e ori­gi­nais de escri­to­res em Per­nam­buco, além de uma flash­mob des­ti­nada a home­na­gear o poeta Manuel Ban­deira. A segunda flash­mob home­na­geou Car­los Drum­mond de Andrade durante a sétima edi­ção da Bie­nal Inter­na­ci­o­nal do Livro de Per­nam­buco, como pré­via da FreePorto.