O que é uma festa literária?

Quinta foi a cole­tiva de imprensa da FreePorto.

Fize­mos no bar Casa da Moeda, perto de onde acon­te­cerá a festa. Foi uma cor­re­ria pra mim, pois tinha aula logo em seguida, por isso tive que sair mais cedo. Hoje os três jor­nais (Folha, DPJC) noti­ci­a­ram a Fre­e­Porto. Boas maté­rias, muito embora uma ou outra afir­ma­ção sem­pre dão mar­gem a inter­pre­ta­ções equi­vo­ca­das. Mas isso é uma coisa que você não pode con­tro­lar, por­que o jor­na­lista fil­tra do seu jeito, é normal.

O meu sen­ti­mento sobre a Fre­e­Porto é que é algo muito mais amplo do que temos a dimen­são agora. Pode pare­cer mega­lo­ma­nia ou ego­lom­bra (pra usar um neo­lo­gismo que conheci nes­ses dias), mas acho que o evento tem em si um ine­di­tismo pela irre­ve­rên­cia e des­cons­tru­ção desse solo sacros­santo que é o da lite­ra­tura — não toda a lite­ra­tura, mas uma lite­ra­tura que se insiste de gabi­nete — que só será enten­dido depois. E eu acho que, muito embora não pareça, é sim a lite­ra­tura que está na essên­cia da festa. É que como esta­mos sub­ver­tendo muita coisa ao mesmo tempo, há uma certa incom­pre­en­são, um esque­ci­mento daquela pre­missa do ridendo cas­ti­gat mores. Parece que só se pode falar de lite­ra­tura numa mesa de deba­tes e não numa mesa de bar. Parece que é pre­ciso um ambi­ente este­re­li­zado e uma pla­teia apa­ren­te­mente com­pe­ne­trada fazendo rabis­cos num blo­qui­nho para que se fale de lite­ra­tura. É aquele clas­se­me­dismo de que falava dia des­ses o Xico Sá. Pri­meiro: a festa é orga­ni­zada por escri­to­res. Segundo: a festa é orga­ni­zada para escri­to­res e para os lei­to­res. Ter­ceiro: os escri­to­res que orga­ni­zam a festa tam­bém são lei­to­res. Acho que a Fre­e­Porto vai ser um evento que vai ver­ter lite­ra­tura pelos poros por­que os escri­to­res vão estar lá, mis­tu­ra­dos, cri­ando, con­ver­sando, falando sobre arte ou sobre o preço da cer­veja com os lei­to­res. Os escri­to­res, essas cri­a­tu­ras que mui­tas vezes são cer­ca­das por uma aura meio estra­nha, como se não fos­sem desse pla­neta — como aliás o mundo pop gosta de fazer com seus ídolos. O con­ceito do que se chama hoje de “festa lite­rá­ria” está mais pró­ximo de ciclo de pales­tras, con­gresso, semi­ná­rio, feira de livros ou qual­quer coisa pare­cida. Acho que um com­pro­misso da Fre­e­Porto é com a seri­e­dade do uso do termo “festa”. Con­tra­di­tó­rio, né? Levar a sério o termo festa? Pois é. Acho que toda pala­vra deve ser usada com seu peso. Se orga­nizo um evento que chamo de ‘festa’, dou um peso. Se chamo de ‘fes­ti­val’, dou outro. Se chamo de ‘semi­ná­rio’, outro. É assim, sim­ples. Fazer uma ‘festa lite­rá­ria’ é fazer uma cele­bra­ção de ser escri­tor e de ser lei­tor, é ofe­re­cer um espaço para que haja troca de ideias, não neces­sa­ri­a­mente entre escri­to­res, crí­ti­cos e jor­na­lis­tas, mas por qual­quer um que esteja na festa, no meio da rua ou na mesa de um bar. Fazer uma festa é… fazer uma festa.

E uma festa lite­rá­ria deve ter o quê? Bom, pra mim, pri­meiro, como uma aula pre­cisa, para acon­te­cer, mini­ma­mente de um aluno e de um pro­fes­sor, uma festa pre­cisa de escri­to­res lei­to­res. Mas essa pre­missa nos faz esque­cer da pala­vra “festa”. Então o for­mato deve­ria ter coi­sas que encon­tra­mos numa festa (des­con­tra­ção, con­versa, birita [por que não?], música, aza­ra­ção… diver­são, ora bolas! Então, junte escri­to­res, lei­to­res e os outros ingre­di­en­tes, faça com que eles se divir­tam sem pre­ci­sar mos­trar que são mais ou menos inte­li­gen­tes, que conhe­cem mais ou menos a obra de tal ou qual escri­tor e pronto! Você tem uma festa lite­rá­ria. Não tenho a menor dúvida de que haverá um monte de gente para cri­ti­car depois de o evento ter­mi­nar. E acho que as crí­ti­cas são ótimas, por­que te fazem ver o que fun­ci­o­nou e o que não. Ao mesmo tempo acho que o com­pro­misso de quem dá a festa é rece­ber, da melhor maneira pos­sí­vel, seus convidados.

Lem­bro quando orga­ni­zava com ami­gos, no final dos noventa, começo dos dois mil, fes­tas temá­ti­cas. Era ótimo por­que fazía­mos as fes­tas para nós mes­mos, para os ami­gos mais pró­xi­mos. As fes­tas come­ça­ram a ser um sucesso e uma noite eu me vi cer­cado de um monte de gente que não conhe­cia. Eu divi­dia as pic­kups com o grande amigo Jaime. Naquela noite, um cara que nunca tinha visto che­gou pra mim e disse: “DJ, toca Dou­ble You!”. Eu olhei pra cara dele — deve ter sido uma cara bem pedante — e disse: “Isso não se toca mais, ami­gui­nho.” O pro­blema não foi nem o pobre do Dou­ble You, mas o intruso tra­tando o anfi­trião como se fosse um empre­gado, aquele que fez a festa com cari­nho pra as pes­soas se diver­ti­rem. Tenho cer­teza que o prego deve ter pro­cu­rado os ‘orga­ni­za­do­res’ da festa pra recla­mar do DJ. Deve ter tido uma surpresa.

Mas enfim, falei disso por­que quando você orga­niza uma festa des­sas, vem um monte de gente pra botar defeito e dizer pra fazer assim ou assado, pra que­rer indi­car A, B ou C. E ficam cha­te­a­dos se você não chama B, por­que a lista tem que ser completa.

A Fre­e­Porto para mim repre­senta uma ten­ta­tiva de que­bra de para­dig­mas. A Fre­e­Porto para mim lem­bra um qua­dro de Bosch, um mundo às aves­sas, o mundo de Bizarro, para fazer uma refe­rên­cia pop ao Super-Homem. Os escri­to­res lan­çam livros na rua, falam com auto­ri­dade sobre coi­sas sur­re­ais ou coti­di­a­nas, mas não defen­dem sua poé­tica ou tal ou qual estilo, par­ti­ci­pam de jogos da ver­dade com pla­teias con­ve­ni­en­te­mente anô­ni­mas — o escri­tor des­con­for­tá­vel com o holo­fote — se mis­tura com outros escri­to­res para, pura e sim­ples­mente, criar, sem egos, ego­lom­bras ou afins. Ver a lite­ra­tura assim, às aves­sas, exposta, para mim só reforça aquilo que mais ama­mos nela: ser um lugar seguro para exer­cer a liber­dade. FreePorto.

  • http://www.flickr.com/ff_fotografia Felipe Fer­reira

    Eu vejo a fre­e­porto como marco his­tó­rico. Como acre­dito que dis­cu­tir sobre isso agora pode pare­cer “ego­lom­bra”, se é que pude com­pre­en­der o sig­ni­fi­cado do termo, vamos é cur­tir a festa!

    Abraço.

  • Johnny Mar­tins

    Como diria Miró

    Pas­sado o pri­meiro susto,
    o resto
    é café pequeno”

  • http://www.flor-de-gelo.blogspot.com Gerusa Leal

    Dizer mais o quê, Wel­lig­ton? É isso aí. Depois que você saiu da cole­tiva, na quinta, eu comen­tei, na mesa, que para mim além do cará­ter de festa, o que havia de mais impor­tante na Fre­e­porto era a coisa da cri­a­ti­vi­dade, sem o quê não se faz lite­ra­tura, não se faz música, não se faz arte. E você tão bem acres­centa: e liber­dade. Como criar sem? E criar implica em dar a cara ao tapa. Se não há dis­po­si­ção pra isso, vamos repe­tir, copiar, que é mais seguro.
    Abraço e viva­mos a Free.
    Gerusa