Os segredos da rasura: Terêza Tenório sob a ótica da Crítica Genética

Este ensaio ser­viu de base para uma comu­ni­ca­ção, apre­sen­tada durante o II Coló­quio de Estu­dos Con­tem­po­râ­neos — UFPE (nov. 2008)

Se para Whit­man, tocar um livro é tocar um homem, que se dirá de ter acesso à inti­mi­dade mais pro­funda dos manus­cri­tos? Todo escre­ver é um ato de vio­lên­cia, e o ras­cu­nho é, desta luta entre o Real e o Sim­bó­lico, o palco no qual o escri­tor faz as vezes de espec­ta­dor, vítima e ver­dugo. Quan­tos segre­dos repou­sam nesse ato apa­ren­te­mente ino­cente de rasu­rar o nas­cente texto? Enten­dida aqui a rasura num sen­tido amplo con­forme Wil­le­mart, qual seja, como o que cobre qual­quer mudança na pri­meira escri­tura (2005:68), pode­mos expli­ci­tar mais o con­ceito dizendo que

pode ser uma pala­vra ris­cada, um acrés­cimo impor­tante pre­en­chendo um branco, a supres­são de um pará­grafo ou mesmo um capí­tulo sem mani­fes­ta­ção grá­fica na ver­são seguinte (idem)”.

A pala­vra sel­va­gem do pri­meiro ras­cu­nho luta para sobre­vi­ver às ava­lan­ches de cen­sura que se seguem no pro­cesso de cri­a­ção atra­vés do ato do scrip­tor; a pala­vra domada pelo Super-Eu, mol­dada pela tra­di­ção esté­tica, pelo olhar de um lei­tor ima­gi­ná­rio ou mesmo o do pri­meiro lei­tor, o pró­prio autor. Essa pala­vra e as outras que nas­cem e se apa­gam, feras ador­me­ci­das, des­co­nhe­ci­das do lei­tor da suposta “obra defi­ni­tiva”, se apre­sen­tam ao crí­tico gené­tico, tími­das, escon­di­das na rasura, a cada ver­são subs­ti­tuí­das por outros ter­mos em suces­si­vas cama­das tex­tu­ais cada vez mais opa­cas; e é que o fazer lite­rá­rio é um sem­pi­terno jogo de ocul­ta­mento e reve­la­ção, de segre­dar e negar, jogo esse que o estudo do ras­cu­nho e traz à luz, e que cabe ao crí­tico gené­tico deven­dar. Não se pense, no entanto, que o labor do crí­tico gené­tico se resume a uma mera busca psi­ca­na­lí­tica atra­vés de pul­sões reve­la­das nos manus­cri­tos. Essa “pala­vra sel­va­gem” a que nos refe­ri­mos, assemelha-se muito mais o “texto móvel” a que se refere Wil­le­mart, ou, dito a nossa maneira o “texto-nascedouro”, que ator­menta e per­se­gue o escri­tor durante sua escri­tura. A com­pre­en­são dessa busca leva, em última ins­tân­cia, à com­pre­en­são do pro­cesso cri­a­tivo, objeto mesmo da crí­tica gené­tica. É certo que a abor­da­gem que um crí­tico faz de uma obra é nor­te­ada não pelo desejo do pri­meiro, mas pela espe­ci­fi­ci­dade da última. Recen­te­mente, em par­ce­ria com a pro­fes­sora Lucila Nogueira, levei a cabo a edi­ção do livro “A musa rou­bada”, de Terêza Tenó­rio, publi­cado pela CEPE, que foi com­posto a par­tir do estudo que rea­li­zei dos ras­cu­nhos da autora[1]. Ao deparar-me mui­tas vezes com deze­nas de ver­sões de um mesmo poema, como por exem­plo “A cidade”, publi­cado em “A casa que dorme” (2004), ou ainda com diver­sas ver­sões de poe­mas iné­di­tos e, como como tais, sem uma ver­são mais recente conhe­cida – evito o termo “defi­ni­tiva” pro­po­si­tal­mente – senti a neces­si­dade de ade­quar meu desejo à espe­ci­fi­ci­dade que ora se apre­sen­tava, e a crí­tica gené­tica ofe­re­cia o arca­bouço teó­rico que entre­via naquela selva autó­grafa. Como exem­plo da espe­ci­fi­ci­dade que encon­tra­mos ao ana­li­sar os ras­cu­nhos tere­zi­a­nos, lembremo-nos das qua­tro fases da gênese que pro­põe Pierre-Marc de Biasi, apre­sen­ta­das por minha colega de mesa, a Mes­tre Ana­mé­lia Maciel. Seria impos­sí­vel esta­be­le­cer um “dos­siê gené­tico” (GRÉSILLON apud SPAGGIARI & PERUGI, 2004) com­pleto como pro­põe o autor, uma vez que os docu­men­tos a que tive­mos acesso per­ten­ciam essen­ci­al­mente à fase reda­ci­o­nal, ou seja, os poe­mas que uti­li­za­mos em “A musa rou­bada” não che­ga­ram a ser publi­ca­dos. Além do mais, como defi­nir, neste caso a etapa pré-redacional? Começa quando o autor demons­tra o desejo de trans­for­mar um con­junto de poe­mas guar­da­dos em livro ou deve­mos con­si­de­rar a pré-redação de cada poema em sepa­rado? No caso de Terêza, há indí­cios, a par­tir da aná­lise de sua obra publi­cada, de que a autora pla­ne­java um livro à melhor maneira cabra­lina. Pis­tas gené­ti­cas nesse sen­tido apa­re­cem, por exem­plo, no manus­crito “Uma lua” – pro­to­po­ema que faz parte do sin­tagma gené­tico do que viria a ser o poema “Can­ção do exí­lio depois - cujo cabe­ça­lho leva a nota “novos poe­mas”, ou ainda no enig­má­tico rodapé manus­crito de uma ver­são do poema “Encosto” (fl. 3): “Terêza, O livro é para você. T.”. Da fase pré-editorial poder-se-ia falar tam­bém das incan­sá­veis lis­tas de poe­mas que apa­ren­te­mente pro­du­zia antes de publi­car um livro, nas quais alte­rava a ordem de poe­mas ou os excluía. No entanto, mesmo com a nas­cente lite­ra­tura deste ramo da crí­tica lite­rá­ria de que dis­pu­nha reco­men­dando uma meto­do­lo­gia na apro­xi­ma­ção ao ras­cu­nho, per­cebi que, assim como cada escri­tor tem um pro­cesso de cri­a­ção, o pró­prio crí­tico pre­cisa desen­vol­ver um pro­cesso explo­ra­tó­rio ade­quado. Isso é neces­sá­rio, em pri­meiro lugar, para não perder-se na com­plexa cadeia de ras­cu­nhos com supo­si­ções empí­ri­cas. É impor­tante, por exem­plo, desen­vol­ver um método minu­ci­oso para cata­lo­gar os fólios e quando pos­sí­vel digitalizá-los. Em segundo lugar, esse método deve res­pei­tar a sin­gu­la­ri­dade da escri­tura que ana­lisa e ser pau­tado jus­ta­mente no conhe­ci­mento que tem o crí­tico da obra. Neste ponto, as ope­ra­ções de pes­quisa de Biasi foram cru­ci­ais. O cor­pus em que tra­ba­lhá­va­mos era muito espe­cí­fico, uma vez que se tra­tava dos ras­cu­nhos – manus­cri­tos ou digi­ta­dos – dis­po­ní­veis na resi­dên­cia da autora. Deci­di­mos que ape­nas uti­li­za­ría­mos os poe­mas não publi­ca­dos, no que fez-se neces­sá­ria uma cata­lo­ga­ção de todos os poe­mas já publi­ca­dos, incluindo as ver­sões e modi­fi­ca­ções que apa­re­ce­re­ram em suas repu­bli­ca­ções. Por exem­plo, os poe­mas de “Pará­bola” (1970) são ree­di­ta­dos em “O cír­culo e a pirâ­mide” (1976); em Poe­a­ma­ceso (1985) reeditam-se esses dois últi­mos além de “Man­dala” (1980) e “Noturno sel­va­gem” (1981). Cir­cuns­crito o texto móvel publi­cado em livro, esta­be­le­cía­mos o espaço do que cha­ma­re­mos de “gênese em anda­mento”, que com­por­tava os poe­mas não publi­ca­dos. A par­tir daí, come­çá­va­mos a segunda ope­ra­ção, a da espe­ci­fi­ca­ção das peças, que, como já dis­se­mos, eram per­ten­cen­tes à fase reda­ci­o­nal, com alguns indí­cios pré-redacionais. As pou­cas peças rela­ci­o­na­das à fase pré-editorial, como lis­tas de poe­mas, relacionavam-se à publi­ca­ção de “A casa que dorme”. Curi­o­sa­mente, alguns dos poe­mas iné­di­tos cons­ta­vam ini­ci­al­mente nessa lista – uma pista gené­tica impor­tante para esta­be­le­cer a data­ção dos mes­mos. A etapa da deci­fra­ção, trans­cri­ção e clas­si­fi­ca­ção gené­tica apre­sen­tou tam­bém par­ti­cu­la­ri­da­des, uma vez que nem sem­pre as seme­lhan­ças entre tex­tos os enqua­dra­vam em um mesmo para­digma; na obra de Terêza Tenó­rio, são comuns as repe­ti­ções de títu­los de poe­mas ou de ver­sos em poe­mas con­si­de­ra­dos dis­tin­tos. Daí que ins­ti­tuir os “sin­tag­mas gené­ti­cos” pas­sava muito mais por esta­be­le­cer a evo­lu­ção do mesmo poema do que ima­gi­nar a seqüên­cia que teriam os dife­ren­tes poe­mas no livro por nas­cer – algo que sem dúvida era impor­tante para autora, mas cujas pis­tas gené­ti­cas rara­mente exis­tiam. Há pouquís­si­mos casos em que per­ce­be­mos uma con­ca­te­na­ção de poe­mas em mesmo nível, como acon­tece em um con­junto de fólios gram­pe­a­dos do que antes eram vários poe­mas “dife­ren­tes” e que se trans­for­ma­ram na “Can­ção do exí­lio depois”. Ape­sar de toda a aná­lise empre­en­dida, a ine­xis­tên­cia da ver­são publi­cada dos poe­mas impe­dia o esta­be­le­ci­mento de uma última ver­são do texto móvel. Dessa impos­si­bi­li­dade nasce a publi­ca­ção em “A musa rou­bada”, livro no qual são apre­sen­ta­das as diver­sas mani­fes­ta­ções do texto móvel ana­li­sado, são esta­be­le­ci­dos os sin­tag­mas gené­ti­cos decor­ren­tes de nosso estudo, mas é evi­tado qual­quer fina­lismo. Isso faz com que essa obra passe a ser enten­dida muito mais como um ver­da­deiro dos­siê gené­tico, um breve olhar sobre o com­plexo pro­cesso de cri­a­ção da musa da Gera­ção 65. Desta forma, assim como para Scho­lem (2006), o mís­tico da cabala, ao inter­pre­tar as escri­tu­ras, escorifica-as e lhes atri­bui uma nova dimen­são, o crí­tico gené­tico, ao ser exposto à pré-história do texto, cap­tura a cada ins­tante, atra­vés do minu­ci­oso tra­ba­lho de cata­lo­ga­ção e trans­cri­ção de peças e aná­lise do pro­cesso cri­a­tivo, os segre­dos da rasura, não aqui uma sim­ples rasura no papel mas um breve arra­nhão no Real, faça­nha con­ce­dida ao escri­tor pela força de sua escritura.

REFERÊNCIAS

BERGEZ, D. et al. Méto­dos crí­ti­cos para a aná­lise lite­rá­ria. 2 ed. São Paulo: Mar­tins Fon­tes, 2006.

SCHOLEM, G. G. A cabala e seu sim­bo­lismo. São Paulo: Pers­pec­tiva, 2006. (Deba­tes, 128)

SPAGGIARI, B. PERUGGI, M. Fun­da­men­tos da crí­tica tex­tual: his­tó­ria, meto­do­lo­gia, exer­cí­cios. São Paulo: Lucerna, 2004.

WHITMAN, W. Folhas das Folhas de Relva. Sele­ção e tra­du­ção de Geir Cam­pos. São Paulo: Edi­ouro, [1983].

WILLEMART, P. Pequena Letra em Teo­ria Lite­rá­ria. A Lite­ra­tura sub­ver­tendo as teo­rias de Freud, Lacan e Saus­sure. São Paulo: Anna­blume, 1997 (Cole­ção Parcours)

____________. Bas­ti­do­res da cri­a­ção lite­rá­ria. São Paulo: Ilu­mi­nu­ras, 1999.

____________. Crí­tica gené­tica e psi­ca­ná­lise. São Paulo: Pers­pec­tiva; Bra­sí­lia, DF: CAPES, 2005. (Estu­dos, 214)


[1] Pre­firo o termo ras­cu­nho a manus­crito pois o pro­cesso de cri­a­ção da autora inclui uma pri­meira fac­ção manus­crita e logo uma cópia digi­tada sobre a qual ela tra­ba­lha à mão inces­san­te­mente. Dado o ecle­tismo das peças, o pri­meiro termo é natu­ral­mente mais adequado.