Um Urro para o Mundo

Entre­vista publi­cada no Por­tal do Escri­tor Per­nam­bu­cano em novem­bro de 2009.

Por Rapha­ela Nicácio

O grupo Urros Mas­cu­li­nos vem con­quis­tando espaço e res­peito no cená­rio cul­tu­ral da cidade

Três jovens, um sonho, um ideal. Pode­ria ser mais um capí­tulo das aven­tu­ras dos “três mos­que­tei­ros”. Mas é “ape­nas” um grupo que che­gou em Recife de forma sim­ples, cora­josa, e hoje alcan­çou o cená­rio da lite­ra­tura per­nam­bu­cana com ino­va­ção, pre­ten­dendo sub­ver­ter o tra­di­ci­o­na­lismo. Sair dos “gue­tos”, das “redo­mas” lite­rá­rias e ganhar as ruas da cidade.ff_urros7

A Festa Lite­rá­ria do Recife (Fre­e­porto) surge como um fes­ti­val que pro­por­ci­o­nará uma refle­xão dife­ren­ci­ada da lite­ra­tura. Entre per­for­man­ces, apre­sen­ta­ções irre­ve­ren­tes, off-sinas, curto-circuito e chá dan­çante da ABL; o Fre­e­porto se pro­põe tra­zer a liber­ta­ção. Dando con­ti­nui­dade a ação do Urros Mas­cu­li­nos, o grupo prepara-se para lan­çar a anto­lo­gia “Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali”. O tra­ba­lho com­pila auto­res de dife­ren­tes ida­des e quer dei­xar sua marca geracional.

Fazem parte do Urros Mas­cu­li­nos: Artur Rogé­rio, Bruno Pif­far­dini e Wel­lig­ton de Melo. Em entre­vista ao Por­tal do Escri­tor Per­nam­bu­cano, Wel­lig­ton de Melo, conta a tra­je­tó­ria do grupo.

Por­tal do Escri­tor Per­nam­bu­cano — O Urros Mas­cu­li­nos urra pelo o quê?

Wel­ling­ton de MeloPor fazer lite­ra­tura sem ter o rei na barriga.

PEP — Pode ser con­si­de­rado mais que um movi­mento literário?

WMEu acho que não deve ser con­si­de­rado nem um movi­mento (risos). Acho que é um grupo de escri­to­res que deci­diu mos­trar outras manei­ras de fazer cir­cu­lar literatura.

PEPComo sur­giu o grupo e como foi o pro­cesso para con­se­guir cha­mar a aten­ção do público e da crí­tica?
E nós cha­ma­mos a aten­ção da crí­tica? (risos). O grupo sur­giu em 2008. O nome era uma brin­ca­deira com o Vozes Femi­ni­nas, toda aquela dis­cus­são sobre lite­ra­tura de gênero e tudo mais. Já pas­sa­ram pelo grupo Cristhi­ano Aguiar, Bia­gio e Fer­nando Farias. Hoje esta­mos Artur Rogé­rio, Bruno Pif­far­dini e eu, que entrei no começo deste ano. Na época o grupo tinha feito uma apre­sen­ta­ção em outu­bro de 2008 e pre­pa­rava outra. Em abril fize­mos a pri­meira inter­ven­ção dife­rente do for­mato de reci­tal. Foi uma ‘flash­mob’ que acon­te­ceu num shop­ping da cidade: lemos “Vou-me embora pra Pasár­gada” na praça de ali­men­ta­ção. Depois tive­mos a ideia de fazer a Fre­e­Porto. Mas como levan­tar algum dinheiro e fazer um lan­ça­mento sim­bó­lico? Aí tive­mos a ideia de fazer o Sara­pa­te­li­te­rá­rio, que foi o pri­meiro lei­lão de manus­cri­tos de escri­to­res em Per­nam­buco. Na ver­dade, no for­mato que usa­mos, acho que foi iné­dito no Bra­sil. Lan­ça­mos a Fre­e­Porto em maio e agora esta­mos na reta final pro evento. No meio do cami­nho par­ti­ci­pa­mos da Bie­nal do Livro, fazendo uma apre­sen­ta­ção e outra flash­mob (o vídeo está aqui: http://​wel​ling​ton​de​melo​.com​.br/​s​i​t​e​/​2009​/​10​/​v​i​d​e​o​-​d​a​-​f​l​a​s​h​m​ob/). Enfim, o Urros hoje é outra coisa, dife­rente do for­mato ini­cial de apre­sen­ta­ções. É tam­bém isso, mas se trans­for­mou num grupo de agi­ta­ção cul­tu­ral (no melhor sen­tido da expressão!).

PEPAlguns dizem que é um grupo irre­ve­rente, outros res­sal­tam como um grupo de jovens que veio somar com a lite­ra­tura. O Urros pode ser uma fusão disso tudo e de mais alguma coisa?

WMEu acho engra­çado quando falam de ‘irre­ve­rên­cia’ como se fosse algo diver­tido, mas sem seri­e­dade. Acho que esque­cem daquilo do ridendo cas­ti­gat mores. O que importa é a lite­ra­tura. As pes­soas não sabem – ou esque­cem – que nós escre­ve­mos, temos tex­tos publi­ca­dos – em papel, na inter­net etc. A parte da agi­ta­ção cul­tu­ral é um pedaço do qua­dro inteiro, que tal­vez só será enten­dido depois. Mas eu que­ria res­sal­tar isso: irre­ve­rên­cia não anula a qua­li­dade da obra, muito meios a desa­bona. Não é pre­ciso revestir-se de uma aura aca­dê­mica san­ti­fi­ca­dora para fazer as coi­sas com seri­e­dade. O que as pes­soas acham ‘engra­çado’, está, na mai­o­ria das vezes em nosso caso, reves­tido de uma res­pon­sa­bi­li­dade que deve­ria calar a pla­teia. Mas é difí­cil enten­der isso.

PEPA Semana de Arte Moderna mar­cou época ao apre­sen­tar novas ideias e con­cei­tos artís­ti­cos, a exem­plo da poe­sia atra­vés da decla­ma­ção que antes era só escrita. Ao dis­cu­tir e apre­sen­tar a lite­ra­tura de uma forma dife­ren­ci­ada, sem seguir os mode­los tra­di­ci­o­nais dos Fes­ti­vais, a Fre­e­porto pode ser con­si­de­rada como um movi­mento “revo­lu­ci­o­ná­rio” que irá incen­ti­var a mudança do modo de se dis­cu­tir a lite­ra­tura em Pernambuco?

WMAcho meio pre­ten­ci­oso dizer-se revo­lu­ci­o­ná­rio. Tem tanta gente boa pro­pondo dis­cus­sões legais sobre a lite­ra­tura. A Fre­e­Porto é uma pro­posta, a meu ver, nova no Bra­sil, por­que dis­cute o con­ceito de ‘festa lite­rá­ria’. Mas não a vejo como algo total­mente ori­gi­nal ou a solu­ção para os pro­ble­mas em torno da divul­ga­ção da lite­ra­tura e da for­ma­ção de lei­to­res. É a maneira que des­co­bri­mos pra reti­rar o pó das pra­te­lei­ras. Espero que outros des­cu­bram a sua maneira. E assim vai.

PEPVocês sen­ti­ram resis­tên­cia de outros gru­pos lite­rá­rios e dos pró­prios escri­to­res per­ten­cen­tes a tra­di­ci­o­nais enti­da­des cul­tu­rais? Quais?

WMOlhe, se há resis­tên­cia, não che­gou a nos­sos ouvi­dos. Quem vai resis­tir a viver a lite­ra­tura de maneira des­con­traída e leve? Com quem fala­mos houve um grande apoio. Ape­nas um órgão de quem espe­rá­va­mos um apoio mais forte não se posi­ci­o­nou, mas isso é página virada. Envi­a­mos um email con­vi­dando escri­to­res que qui­ses­sem par­ti­ci­par e fize­mos uma reu­nião no Espaço Pasár­gada (que, na figura de Clara Angé­lica deu todo o apoio desde o começo). Os que foram entra­ram na pro­gra­ma­ção. Quem não foi, mas entrou em con­tato depois, tam­bém. Deve haver gente tor­cendo o nariz, mas eu posso dar jeito nisso? Eu posso tam­bém me inco­mo­dar? Não dá pra dar cada passo abrindo um guarda-chuvas para abri­gar todos. Aí sim pas­sa­ria a ser uma “festa do cabide” (risos).

PEPRea­li­zada no mesmo período da Festa Lite­rá­ria de Porto de Gali­nhas (Fli­porto), o Fre­e­porto é uma boa alter­na­tiva para quem não poderá ir ao “bal­neá­rio das letras”?

WME pra quem poderá ir tam­bém (risos). Acho que são pro­pos­tas dife­ren­tes, que atraem públi­cos, de certa forma, diferentes.

PEPQuais são as boas sur­pre­sas que o público encon­trará na Freeporto?

WMA pro­gra­ma­ção já está no site (www​.fre​e​porto​.word​press​.com), mas há por exem­plo o “Lan­ça­mento de livros”, em que os escri­to­res ‘lan­ça­rão’ seus livros em plena rua da Moeda. Mar­ce­lino Freire, Cida Pedrosa, Pedro Amé­rico de Farias e Lucila Nogueira, entre outros, par­ti­ci­pa­rão da coisa. Tem tam­bém um bate-papo com San­ti­ago Naza­rian sobre um conto iné­dito dele. Essas duas coi­sas acon­te­cem no sábado à tarde. Na noite do sábado, um jogo da ver­dade com Jomard Muniz de Britto, cha­mado Toca da Raposa – a pla­teia ves­tirá más­cara de raposa e fará per­gun­tas a Jomard. No domingo é a Fre­e­Ca­reta, que é uma pro­cis­são lite­rá­ria em home­na­gem ao ines­que­cí­vel J. G. de Araújo Jorge, home­na­ge­ado da Fre­e­Porto. Jorge Mar­tins, do Cor­pos Per­cus­si­vos vai con­du­zir o grupo de mara­catu Tam­bo­res do Pilar. Tem tam­bém “Miró invade!!”, que é a ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­ção das inva­sões de Miró, a qual­quer momento na pro­gra­ma­ção. Além do “Curto-Circuito”, que são apre­sen­ta­ções em duplas com escri­to­res daqui e de fora. Tem tanta coisa que devo ter esque­cido agora! A pro­gra­ma­ção tem muita coisa! É bom visi­tar o site!

PEP - A Gera­ção 65 foi um grupo lite­rá­rio per­nam­bu­cano que mar­cou época e reve­lou gran­des nomes da lite­ra­tura como Alberto da Cunha Melo, Mar­cus Acci­oly, Rai­mundo Car­rero, Lucila Nogueira. Na anto­lo­gia “Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali” , pro­mo­vida pelo Urros Mas­cu­li­nos, pretende-se bus­car uma marca gera­ci­o­nal para a atualidade?

WMNão há essa pre­ten­são não. Nossa ideia é fazer um retrato da pro­du­ção nos dez últi­mos anos. Mui­tos nomes fica­ram de fora por conta do prazo que demos pra entrega do pro­jeto ou outras con­tin­gên­cias. Há mui­tos outros nomes que fazem a cena e que não estão ali. O que os une não é uma pro­posta gera­ci­o­nal, mas o fato de divi­di­rem a exis­tên­cia num momento his­tó­rico, que é o que acho que acon­tece, aliás, com a Gera­ção 65 também.

PEP - A poeta Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo dei­xou na força da sua poe­sia a maior lem­brança. “Isso que vedes/não sou Eu/ Só me antecede/me prepara/ que vária e inconclusa/ sub­sisto e soli­tá­ria assisto/ às mui­tas mor­tes de mim”. Sua rela­ção de ami­zade com a poeta o influ­en­ciou como escri­tor? Alguns de seus poe­mas já foram ins­pi­ra­dos na poe­sia de Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo?

WMClaro. Inclu­sive no meu [des­vir­tual pro­vi­só­rio] o poema “Aérea” é pra ela. Mais do que isso, acho que a carne da minha poe­sia tem Maria do Carmo. Ela foi – é – uma grande ins­pi­ra­ção, um grande modelo como poe­tisa e como ser humano. Acho que tudo o que se faz para não esque­cer sua memó­ria é pouco. Eu sim­ples­mente amo Maria do Carmo Bar­reto Cam­pello de Melo. Incondicionalmente.

PEP - “(…) do mece­nato sobre­vi­ve­rás a lan­ça­men­tos soli­tá­rios em tar­des oci­o­sas de shop­pings lota­dos farás rimas fáceis em troca de um tro­cado baju­la­rás os papas da lite­ra­tura pro­vin­ci­ana do recife por um pre­fá­cio velado lerás tal­vez um dia um comen­tá­rio insosso num blog pouco visi­tado(…)”. Esse é um tre­cho do seu “Poema Wel­ling­ton de Melo”. Ao longo de sua tra­je­tó­ria lite­rá­ria, quais foram os seus mai­o­res desafios?

WMSão tan­tos (risos)! Mas eu acho que isso só se diz depois, quando tempo pas­sar. Se não fica pare­cendo lamú­ria. Deixa pra quando eu lan­çar minha pró­pria auto­bi­o­gra­fia não autorizada.

PEP - Como um novo autor poderá dri­blar as difi­cul­da­des? Unir-se a movi­men­tos ou criar novas for­mas de expres­são é uma boa solução?

WMCada um deve bus­car seu cami­nho. Gru­pos lite­rá­rios são bons até certo ponto. Você pre­cisa encon­trar a sua expres­são, sua maneira de fazer as coi­sas, de escre­ver prin­ci­pal­mente! Viver de lite­ra­tura, pura e sim­ples­mente, no Bra­sil, é uma uto­pia. No meu caso, sou pro­fes­sor, amo ser pro­fes­sor. E a melhor coisa é que faço isso que eu amo para poder sus­ten­tar outra coisa que amo, que é a lite­ra­tura. Fica tudo em casa. Embora faça parte do Urros hoje, acho impor­tante que cada um crie seu cami­nho. Como diria Anto­nio Machado, ‘o cami­nho se faz ao andar’.

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