Uma antologia em busca do presente

Maté­ria Publi­cada no Jor­nal do Com­mer­cio, 01 de nov. de 2009.

Foto de Alexandre Belém/JC Imagem

Por Luís Fer­nando Moura

Urros Mas­cu­li­nos lança Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali, cole­tâ­nea de poe­tas e con­tis­tas que não revo­lu­ci­o­na­ram a história

As anto­lo­gias nor­mal­mente reto­mam aque­las obras que, de ante­mão, legi­ti­ma­mos: cons­ti­tuem His­tó­rias de H maiús­culo. São cole­ções de um tempo car­to­gra­fado, de uma geo­gra­fia ima­gi­ná­ria, de um autor em busca da cano­ni­za­ção em papel. O grupo lite­rá­rio Urros Mas­cu­li­nos se mete a pro­por uma outra ética e cata­lo­gar o pre­sente. Na anto­lo­gia Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali, o cole­tivo recorta a obra de escri­to­res mais ou menos nova­tos: vie­ram à tona das publi­ca­ções nos últi­mos dez anos. Fechando a década em que os mar­ca­do­res zera­ram, a com­pi­la­ção reper­cute uma nova lógica de espaço-tempo, em que a vivên­cia da nos­tal­gia e as pre­vi­sões do futuro se con­fun­dem. “Nor­mal­mente a Aca­de­mia diz que você pre­cisa dar um tempo antes de iden­ti­fi­car o que de bom ou de ruim foi feito. A gente fala muito do que se pro­du­ziu na Gera­ção 65, nos anos 80. Mas e o que foi publi­cado na última década?”, ques­ti­ona Wel­ling­ton de Melo, um dos organizadores.

Wel­ling­ton é tam­bém um dos inte­gran­tes da com­pi­la­ção, que agrupa poe­sias e con­tos de 10 escri­to­res. Junto a ele estão os poe­tas Adé­lia Coe­lho, Amanda Moraes, Artur Rogé­rio, Hel­der Herik, além dos fic­ci­o­nis­tas Artur Lins, Bruno Pif­far­dini, Cristhi­ano Aguiar, Fer­nando Farias e Jean San­tos. A anto­lo­gia faz rever­be­rar um mosaico deste con­junto de auto­res (de diver­sas ida­des), em busca de uma marca gera­ci­o­nal para o nosso pre­sente lite­rá­rio. “Alguns dos escri­to­res difi­cil­mente teriam apoio público para publi­car de outra forma. Con­se­gui­mos apro­var o pro­jeto no Con­se­lho Muni­ci­pal de Cul­tura e o livro calhou de ficar pronto às vés­pe­ras da Free Porto, onde vamos lançá-lo”, diz Wel­ling­ton. O evento ocorre em para­lelo à Fli­porto, entre os dias 6 e 8.

Nem todos os par­ti­ci­pan­tes são per­nam­bu­ca­nos. Wel­ling­ton lem­bra o caso do bai­ano Cristhi­ano Aguiar e do pau­lista Bruno Pif­far­dini. “Eles não nas­ce­ram aqui, mas moram em Per­nam­buco e seus tra­ba­lhos dia­lo­gam com o que acon­tece por aqui”. Cristhi­ano, autor do livro de con­tos Ao lado do muro, além de ser um dos edi­to­res da revista Cris­pim, divide as pági­nas com escri­to­res nunca antes publi­ca­dos, des­co­ber­tos na sorte dos blogs rede afora. Amanda Moraes, por exem­plo, tem ape­nas 20 anos – e uma poe­sia com a den­si­dade de 50 anos de ado­les­cên­cia. Seu verso cam­ba­leia entre a domi­na­ção e a eman­ci­pa­ção: diz que “para­do­xal­mente, vou-me cons­truindo, como se eu car­re­gasse em mim peso e leveza, um pouco de patrão e de negri­nho”. Hel­der Erick, natu­ral de Gara­nhuns, tam­bém debu­tou na inter­net. “Conheci Erick atra­vés do seu blog, mas só vamos nos conhe­cer pes­so­al­mente durante a Free Porto”, conta Wellington.

A des­peito dos enfei­tes do bom gosto, a publi­ca­ção sai do forno em festa no sábado (7), às 22h, no Fran­cis Drinks (Av. Alfredo Lis­boa, 33, Bairro do Recife). Uma mesa de dis­cus­são, antes da bom­ba­ção com DJs, deve reu­nir Delmo Mon­te­ne­gro e Johnny Mar­tins, auto­res dos pre­fá­cios do livro, que jogam con­versa fora sob a medi­a­ção da drag queen Gera Cyber. Tudo nos trin­ques de um grupo que ensaia um reor­de­na­mento da nossa lógica de recep­ção. “O Urros busca expe­ri­men­ta­ções na maneira de fazer a lite­ra­tura cir­cu­lar. A gente sem­pre pensa que a lite­ra­tura tem que ser feita em mesas, em livra­rias, em um lugar este­ri­li­zado. Quando a gente reduz a lite­ra­tura a estes espa­ços, ter­mina tolhendo sua liber­dade”, diz Wel­ling­ton. Entre as inves­ti­das, está o lite­ral lan­ça­mento de livros que acon­tece na Free Porto. “Escri­to­res jogando livros na rua pode ser uma ima­gem muito forte, mas que­re­mos sub­ver­ter a ideia de coquetel”.

A estra­té­gia tem con­tra­par­tida lite­rá­ria no emble­má­tico Wel­ling­ton de Melo, poema que o pró­prio assina (ler ao lado), com ares de pre­fá­cio. “O título é uma auto-ironia. Repre­senta um pouco a angús­tia de uma gera­ção que per­cebe que escri­tor famoso que vai viver de lite­ra­tura no Bra­sil é quase uma ilu­são. O poema é a nega­ção das ilu­sões da fama”, diz Wel­ling­ton. Afirma, no entanto, que o Urros não é um cole­tivo mera­mente anár­quico. “A gente não tem uma pos­tura de se opor ao sis­tema, de ven­der livro de porta em porta. Temos conhe­ci­mento de edi­to­ra­ção, dia­gra­ma­ção. Sabe­mos que pode­mos pro­cu­rar edi­tais de cul­tura, bus­car patro­ci­na­do­res. Não que­re­mos mudar o mundo, mas se a gente con­se­guir que uma pes­soa dê uma olhada para a esquerda ou para a direita e veja algo, a gente chama aten­ção para a literatura”.

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