Estávamos à mesa, naquele momento fatídico entre a última garfada e a chegada da conta, quando todo o assunto se vai e esperamos pacientemente o fim do jantar. No que ordenamos a conta o garçom pergunta “Aceitam um cafezinho?”. Eu, claro, aceito, assim como Osvaldo. Lembramo-nos, eu e Ana, que certa vez aconteceu algo semelhante, em que o garçom ofereceu o café e no final o danado veio na conta. “Onde foi mesmo?”, indaguei como que profetizando algo.
Chega a conta, olho para a lista e lá estão os dois cafés, cada um a R$1,50. Pensei “Foi aqui!”, mas verbalizei algo um pouco diferente:
“Filhos da puta!”
Devo dizer que o fiz num tom digamos algo elevado. O garçom estava atrás de mim. Soube disto ao olhar a cara de terror dos comensais. Fiquei com mais vergonha da cara deles do que de ter metido o pau no restaurante ao lado do funcionário. Eu tentei continuar o comentário, mas todos pareciam querer estar em outra dimensão naquele instante, incluindo minha esposa, que ficou imóvel. Talvez ela tenha pensado “Sou uma samambaia, sou uma samambaia e não conheço esse louco a meu lado”. O desconforto durou mais ou menos até o garçom perguntar:
“Algum problema?“
“Não, é brincadeira”, falei, todo errado.
“Estamos falando de outro lance, … ” Osvaldo meio sem convicção e com um sorriso completamente amarelo.
Na minha cabeça, depois do “Algum problema” eu devia ter dito: “Nada, só esse roubo por um cafezinho de merda”, mas realmente fiquei intimidado pelas caras de pânico de meus acompanhantes, no que calei e fiquei feito bosta n’água. Pensam que terminou? Não. O garçom se aproxima mais e pergunta “Foram quatro rodízios?” “Isso”, responde Osvaldo desconversando. “Um momento então, que está errado”. No momento, pensei: “É, eles vão tirar essa porra desse café que cobraram… Menos mal. Ainda existe justiça no mundo!” Mas qual não foi a supresa quando a conta volta… R$18,00 mais alta, pois tinham anotado um rodízio a menos.
“Muito bem, Wellington”, disse triunfante Osvaldo. “Se tivesse ficado calado…”
Pensei comigo: “Caralho, que nova lei é essa que cobra por chamar palavrão no restaurante?” Foi vingança desse funcionário padrão por eu ter chamado seus patrões de filhos da puta? Vai ser corporativista e babão assim na putaqueopariu!

