Conceitos básicos de linguística

Vimos nas últi­mas aulas alguns dos con­cei­tos bási­cos que vão nor­tear nosso curso durante o ano. É impor­tante que tenha­mos muito claro em nossa cabeça o que pen­sa­mos ser lín­gua, lin­gua­gem e outros con­cei­tos para evi­tar fal­sas impres­sões sobre algu­mas expli­ca­ções que serão dadas à medida em que o curso avance.

Lin­gua­gem

Abaurre e Pon­tara defi­nem muito bem lin­gua­gem como

uma ati­vi­dade humana que, nas repre­sen­ta­ções de mundo que cons­trói, revela aspec­tos his­tó­ri­cos, soci­ais e cul­tu­rais. É por meio da lin­gua­gem que o ser humano orga­niza e dá forma às suas experiências.

Se enten­der­mos a pro­fun­di­dade deste con­ceito, enten­de­re­mos que não pode­mos redu­zir a lin­gua­gem a um meio de comu­ni­ca­ção, como nor­mal­mente se faz, já que é a par­tir dela que cons­truí­mos nossa memó­ria e con­se­quen­te­mente nossa His­tó­ria. Sem lin­gua­gem não exis­ti­ria a civi­li­za­ção como conhecemos.

Lín­gua

O con­ceito de lín­gua varia muito segundo a cor­rente teó­rica que o pro­fesse. Para nós, é impor­tante expor os con­cei­tos com os quais nos alinhamos. Abaurre e Pon­tara (2006:3) enten­dem a lín­gua como um

sis­tema de repre­sen­ta­ção soci­al­mente cons­truído, cons­ti­tuído de sig­nos linguísticos

Observe-se aqui o cará­ter social da lín­gua, uma vez que só existe medi­ante esta nego­ci­a­ção entre seus falan­tes. Com­ple­men­ta­mos o con­ceito das auto­ras com o de Mar­cus­chi (2005:31), para quem a língua é

um con­junto de prá­ti­cas soci­ais e cog­ni­ti­vas his­to­ri­ca­mente situadas.

Sendo assim, não pode­mos enten­der a lín­gua como uma estru­tura autô­noma, alheia à rea­li­dade dos falan­tes e imutável.

Signo lin­guís­tico

Toda lín­gua se com­põe de sig­nos lin­guís­ti­cos, que são as uni­da­des de sig­ni­fi­ca­ção que pos­suem um sig­ni­fi­cante (uma memó­ria acús­tica de um termo) e um sig­ni­fi­cado (con­ceito con­tido em um signo, aci­o­nado pelo significante).

Natu­ral­mente de uma lín­gua para outra os sig­ni­fi­can­tes podem mudar. O que passa desa­per­ce­bido é que o con­ceito pro­fundo de um termo tam­bém pode ser dife­rente em duas lín­guas que com­pa­re­mos, muito embora se refi­ram ao mesmo ser na natu­reza. Isso acon­tece por­que tudo na lín­gua é repre­sen­ta­ção, nada retém as coi­sas in natura, tudo se rea­liza como cul­tura. Assim, quando fala­mos de uma vaca em por­tu­guês, no Bra­sil, o con­ceito será muito dife­rente do que se terá na Índia, por moti­vos óbvios. É mais uma vez a con­fir­ma­ção de que a lín­gua é uma repre­sen­ta­ção de mundo.

Norma padrão

Sabe­mos que todas as lín­guas variam segundo dife­ren­tes cri­té­rios (o lugar onde são fala­das, a época, o grupo que as uti­liza etc.). No entanto, todas as lín­guas — inde­pen­dente do grau de evo­lu­ção tec­no­ló­gica que tenham — pos­suem uma vari­e­dade pres­ti­gi­ada que se uti­liza para ter acesso a deter­mi­na­das ins­tân­cias de poder. É o que cha­ma­mos de norma culta, norma padrão ou vari­e­dade prestigiada.

Ao con­trá­rio do que possa pare­cer, a norma culta não cor­res­ponde neces­sa­ri­a­mente ao pro­fes­sado nas gra­má­ti­cas nor­ma­ti­vas: é muito mais um amál­gama de nego­ci­a­ções em torno a for­mas lin­guís­ti­cas que repre­sen­tam o lin­gua­jar de uma deter­mi­nada elite sócio-econômica que impõe sua vari­e­dade como o padrão. Cien­ti­fi­ca­mente não se pode falar de uma vari­e­dade “melhor” ou “pior” do que a outra. A norma culta existe por conta de pres­sões soci­ais que exi­gem o emprego de uma deter­mi­nada vari­e­dade para deter­mi­na­das inte­ra­ções na soci­e­dade, mas seria qual­quer outra, caso os gru­pos soci­ais domi­nan­tes fos­sem outros. Por exem­plo, pode­mos notar um certo “padrão” entre os jor­na­lis­tas da Globo, nor­mal­mente ali­nhado às vari­an­tes do Sudeste. Isso se dá por uma certa impo­si­ção velada da empresa por repre­sen­tar o padrão da região eco­no­mi­ca­mente mais pode­rosa do país. Se o Nor­deste esti­vesse nesta posi­ção, pro­va­vel­mente o padrão “glo­bês” seria outro.

É de se espe­rar, por outro lado, de um can­di­dato a um emprego que requeira o trato com um público exi­gente que domine o padrão, e cabe à escola pos­si­bi­li­tar aos cida­dãos essa fle­xi­bi­li­dade para tra­fe­gar entre as vari­e­da­da­des que cada um pos­sui como herança de sua cri­a­ção, de suas inte­ra­ções soci­ais, e a vari­e­dade padrão.