O convite era para participar de um evento promovido por uma escola municipal do Pina. Fernando Farias recomendou meu nome e me avisou.
Dias depois a coordenadora da escola entrou em contato por email. Disse que era um projeto para aproximar os alunos do colégio dos escritores locais. Pediu que recomendasse alguns poemas de meus livros. Eu disse que deixaria um exemplar de cada na portaria e que ela poderia pegar. A coordenadora disse que o objetivo era que os professores trabalhassem com os alunos em sala os textos dos escritores convidados. Seria um bate-papo com os alunos, pelo que tinha entendido. Pensei em falar mais sobre a produção contemporânea na cidade e mostrar alguns caminhos para publicar pela internet, mais para incentivar a produção.
A primeira coisa que me deixou preocupado foi quando a coordenadora disse que a coisa seria na quadra do colégio — chamava-se Concerto de Leitura. Achei que seria muito, fiquei intimidado, mas não me recusei a falar. Chegou o dia. Uma sexta-feira. Nos arrumamos e fomos ao colégio. O que se segue foi muito emocionante pra caber aqui, mas vou tentar.![Poema da professora Ana Cláudia dialogando com o [desvirtual provisório]](http://wellingtondemelo.com.br/site/wp-content/uploads/2010/04/Concerto-300x225.jpg)
Chegamos e havia pouca gente. Poucos alunos — disse a coordenadora — por conta do incêndio de dias atrás no Bode: muitas famílias se re-estruturando. Conversei com a professora Ana Cláudia, que estava responsável pelo projeto. Muito preparada, teceu comentários bem pertinentes sobre o que leu dos dois livros (O diálogo das coisas e [desvirtual provisório]). Então me mostrou os trabalhos que os alunos tinham feito. Eram alunos da EJA e o trabalho da professora parecia ter sido muito bem feito, porque os alunos, à sua maneira, tocaram temas importantes da obra, muitas vezes criticando certos posicionamentos que assumo em alguns poemas, como “Eu me abandono”, que foi lido lindamente por uma senhora que despejou sua emoção na leitura, ainda que titubeasse com as letras.
Uns leram poemas, outros análises de textos, a professora fez uma apresentação muito legal e eu ali, embasbacado com tanta beleza. Não foi egolatria não, porque eu ficava maravilhado em comprovar como a literatura pode levar as pessoas a pensar sobre suas vidas e sobre o mundo, como tudo o que eu tinha escrito não me pertencia mais. Achei tão bonito os livros correndo por aquelas mãos cansadas, de gente que quer algo mais, que luta para aprender a ler.
Mas o momento mais marcante foi quando fui fazer a leitura de dois poemas. Li “Fábula” porque achei que alcançaria mais o público. Depois, anunciei que leria “Wellington de Melo”. Quando disse as primeiras palavras, um alvoroço no fundo da quadra. Pensei que eram alunos badernando e li mais alto, para não me desconcentrar. No final da leitura, o mesmo grupo fez zoada. Não liguei. Depois de alguns minutos, agradecendo a todos por poder estar ali entre eles, uma menina começou a falar comigo e com Ana. Disse que ela e o grupo tinham se preparado para fazer um teatro mudo de “Wellington de Melo”, mas que alguns faltaram e não deu pra fazer. Tinha trazido um vestido, props e coisa e tal. Quando eu li os primeiros versos, foram eles que fizeram a zoada, emocionados em ouvir o poema que tinham estudado tanto. Eu fiquei com a cara no chão, emocionado. A menina disse que o poema emocionou o grupo e isso me tocou demais.
Saímos de lá, eu e Ana, em estado de graça. Não tinha ideia de que seria tão arrebatadora a experiência. Vontade de continuar escrevendo, vontade de que isso sirva de alguma coisa pra alguém.


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