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Visões do Ultrarromantismo: melancolia e modo ultrarromântico

Tre­cho da tese de dou­to­ra­mento de André de Sena Wan­der­ley “Visões do Ultrarromantismo: melancolia lite­rá­ria e modo ultrar­ro­mân­tico”, p. 5155171 O segundo autor alu­dido, o jovem poeta reci­fense Wel­ling­ton de Mello (1976-), que ainda expande as asas no uni­verso da cri­a­ção lite­rá­ria, no poema inti­tu­lado [des­vir­tual pro­vi­só­rio] (sic) (2008), tam­bém se uti­liza de vários topoi ultrar­ro­mân­ti­cos na cons­tru­ção deste tra­ba­lho con­cei­tual que busca can­tar os emba­tes téc­no­fi­lo­só­fi­cos entre o homem e a máquina. Mas, mesmo em se tra­tando de uma temá­tica bas­tante con­tem­po­râ­nea, ainda se vê a antiga forma do treno insu­flando a melan­co­lia dis­fó­rica do texto, que rea­liza os expe­ri­men­tos icô­ni­cos típi­cos da poe­sia van­guar­dista, como se pode ver no excerto de prosa poé­tica inti­tu­lado “Preâm­bulo à m@quina” (2008: 13):


Eu acordo & j@ não me reco­nheço na face emba­çada do espe­lho. Eu, parafern@lia de núme­ros que se repe­tem, que dão conta de quem eu sou, de minha Fome, do Vazio que me devora. Eu, repe­ti­das vezes nin­guém, sufo­cado entre telas que nada me dizem sobre mim. Eu, uma exten­são de um Nada que se afasta cada vez mais da terra da qual roubo meu nome:
homem Eu, homem, só me reco­nheço no Caos que me pre­sen­teia o Verbo. Eu, trans­lú­cida som­bra de mim, atra­vesso os dias como uma lâmina fugaz, mas não me sei a não ser na pala­vra que alguém me empresta. Eu, avesso de uma pos­si­bi­li­dade, Eu, mas­ti­gado pelo coti­di­ano heré­tico dos Anjos, final­mente des­cu­bro que pesa sobre mim a herança de meu tempo, a única ver­dade que o Homem de meu tempo entende: a M@quina É a ela que canto. É ela que odei­amo. É ela que mato & é ela quem me renasce. É ela que me anula & por­que me anula me faz mais homem. Mais homem, por­que o homem de meus dias des­co­nhece a úmida ver­dade sob o con­creto escal­dante; meus dias de con­creto & silí­cio rolam para o pre­ci­pí­cio da insa­ni­dade. O homem de meus dias não é outro senão o Não-Homem, a Besta que devora sua cauda, uró­boro apo­ca­líp­tico. O homem de meus dias é a M@quina. Eu canto, pois, a M@quina: o que a pre­cede, o que ela é, o que a mata, o que a supera & o Éter. A proto-M@quina, a M@quina, a anti-M@quina, a hiper– M@quina & o Pó. Canto a M@quina, não por­que a ame. É que cantando-a a anulo & anulando-a anulo o que h@ de M@quina em mim, no homem sou, no Nao-Homem que reco­nheço na face emba­çada daquele espe­lho. O velho espe­lho que é meu tempo. Anulando-me, ali­mento a M@quina que h@ em mim & por fim não existo. Só assim, final­mente, serei livre.

Porém, no trans­curso da lei­tura de [des­vir­tual pro­vi­só­rio] a pos­si­bi­li­dade entre­vista pelo último verso acima trans­crito (“serei livre”) não se cum­pre. Dos emba­tes filó­so­fi­cos entre a cons­ci­ên­cia do homem e o ser-estar das máqui­nas no con­texto moderno resulta ape­nas o nada, uma apo­ria inú­me­ras vezes pre­sen­ti­fi­cada na série de poe­mas que com­põe o livro.

Não há dife­rença ou limi­tes entre o espaço do nada e o nada do cybe­res­paço (visto como “um lugar triste para a pala­vra” – idem: 44), como afirma o poema “Mundo plano” (ibi­dem: 34):


des­do­bras o hori­zonte estran­gu­las topo­gra­fias cegas

- te faço plano ó mundo de pala­fi­tas mudas te des­troço globo res­gato a última letra de teu nome esquecido

- te faço plano a vela da nau j@ não per­fura o horizonte

- te faço plano ó senhor do des­co­nhe­cido reve­lado tuas mãos san­gren­tas me reve­lam o Nada que se verte sobre mim encarcerado

& te faço plano Pla­ni­mundo Imun­da­mente Plano.

É muito sim­bó­lico o fato de que o sema “Nada” seja o pri­meiro, neste poema, gra­fado com ini­cial maiús­cula. A ele se ligam outros seme­lhan­tes (“Pla­ni­mundo”, “Imun­da­mente” e “Plano”), a con­fi­gu­rar uma atmos­fera de ina­de­qua­ção à rea­li­dade típica do modo ultrar­ro­mân­tico, com as tra­di­ci­o­nais hipér­bo­les do dis­curso melan­có­lico dis­fó­rico. Indo con­tra a eufo­ria tec­no­ló­gica típica do hodi­erno, a escri­tura melan­có­lica de Wel­ling­ton de Melo per­passa vários outros poe­mas do livro, a exem­plo de “Obri­gado” (ibi­dem: 51):

é um desejo rou­bado do aço o que te assalta entre suo­res diante da tela
é o que não é teu o que de novo te traz velhas memó­rias alheias
numa tarde inoxid@vel per­ce­bes por fim o nada.
então de nada neces­si­tas. de nada.

A apo­ria tam­bém pode apa­re­cer num con­texto ima­gé­tico con­tem­po­râ­neo. De súbito, do trabalho/embate coti­di­ano com a “m@quina” irrompe o mal-estar típico do modo ultrar­ro­mân­tico e a última estrofe desse poema (“então de nada / neces­si­tas. / de nada.”) pode até mesmo suge­rir uma certa ali­e­na­ção que pos­sui elos com aquele topos do con­vite lite­rá­rio ao sui­cí­dio. E o fim do livro-poema, ape­sar de uma nota do autor empí­rico na qual pre­tende se afas­tar do nii­lismo, atesta nova­mente a vitó­ria do vácuo e do modo ultrar­ro­mân­tico em âmbito con­tem­po­râ­neo, na parte “VI” do poema “Pó” (ibi­dem: 76):

eu pós-fronteiras

fron­teira de mim mesmo não me sei senão reta­lhos senão calei­dos­có­pio embaçado

eu
pós-moderno
pós-pó
sou o pó
do que resta
do que reza
a cons­ci­ên­cia
de meu tempo

: o Vazio

: o Nada

Vazio” e “Nada”, nova­mente os únicos semas cujas ini­ci­ais são maiús­cu­las, con­cluem o poema de maneira frag­men­tada e incon­ci­li­a­dora, asso­ci­a­dos, segundo o eu-lírico, à “cons­ci­ên­cia” (tam­bém) frag­men­tada do tempo de hoje. Este e outros poe­mas demons­tram que o modo ultrar­ro­mân­tico se adapta aos mais diver­sos con­tex­tos e ima­gi­ná­rios fic­ci­o­nais – e assim o será por muito tempo ainda –, fecundando-os com suas cores e mati­zes melan­có­li­cos tão característicos.

  1. WANDERLEY, André de Sena, Visões do Ultrar­ro­man­tismo: melan­co­lia lite­rá­ria e modo ultrar­ro­mân­tico. – Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (dou­to­rado) – Uni­ver­si­dade Fede­ral de Per­nam­buco. CAC. Teo­ria da lite­ra­tura, 2010.
  • http://www.wellingtondemelo.com.br Wel­ling­ton de Melo

    Não, o tre­cho é só esse. Cabe­ria uma con­tra­po­si­ção entre a máquina român­tica e da moder­nista, por­que na m@quina há um pouco das duas.

  • http://www.literarizando.wordpress.com Bianca

    Que tu é chi­que feito Cha­nel e vita­mi­nado como Pipos quem é besta de duvidar? :)

    Per­gun­ti­nha: o texto dele aborda a dife­rença da máquina român­tica e a tua, a nossa, m@quina con­tem­po­râ­nea? Curiosa!