Autores leiloam seus originais

Publi­cado no Jor­nal do Com­mer­cio, dia 25 de maio de 2010.

Por Sch­nei­der Carpeggiani

Lei­lão rea­li­zado hoje conta com os tex­tos que deram ori­gem a Gali­leia e Angu de san­gue. O obje­tivo é arre­ca­dar dinheiro para a Freeporto

Os ori­gi­nais de dois dos livros per­nam­bu­ca­nos mais sim­bó­li­cos na última década esta­rão entre os itens do 2º Lei­lão de Manus­cri­tos e Ori­gi­nais de Escri­to­res em Per­nam­buco. São eles Angu de san­gue, de Mar­ce­lino Freire, e Gali­leia, de Ronaldo Cor­reia de Brito (na época desse esboço, o livro ainda se cha­mava Davi entre as feras). O evento acon­tece hoje, às 19h, no Espaço Muda, e é orga­ni­zado pelo cole­tivo Urros Masculinos.

Em 2010, Angu de san­gue come­mora 10 anos. Foi a estreia da prosa elíp­tica, rápida e viru­lenta de Mar­ce­lino Freire. “Coin­ci­den­te­mente, eu aca­bei de vol­tar do oftal­mo­lo­gista. Pre­ciso usar óculos. Para con­ti­nuar lendo e escre­vendo. Lem­bro: à época do Angu minha vista ainda estava zero bala. Tra­ba­lhava como revi­sor de tex­tos em uma agên­cia de pro­pa­ganda. E tem uns dois anos que vivo, direta e indi­re­ta­mente, ape­nas de lite­ra­tura. E esse Angu foi o começo de tudo. Foi o meu pri­meiro livro por uma edi­tora. Por indi­ca­ção do crí­tico lite­rá­rio João Ale­xan­dre Bar­bosa, que escre­veu o pre­fá­cio”, lem­bra Freire.

Logo na estreia, o autor se con­sa­grou como uma dos gran­des nomes da lite­ra­tura bra­si­leira. Sem­pre fiel aos con­tos, ganhou um Prê­mio Jabuti por Con­tos negrei­ros. O título foi adap­tado para o tea­tro por uma com­pa­nhia local que aca­bou se bati­zando como Angu de san­gue. “Angu de san­gue veio dar tem­pero ao meu tra­ba­lho. Uma voz que, reve­lada ali, ainda está comigo. E estará. Eu só escrevi o Angu por­que vim morar em São Paulo. É quase um inven­tá­rio des­ses meus pri­mei­ros anos pau­lis­ta­nos. A par­tir dele, fui apri­mo­rando a minha visão de mim e do mundo, enxer­gando cada vez mais longe, entende?”, provoca.

O ori­gi­nal colo­cado em lei­lão é última prova digi­ta­li­zada do livro. “Tem alguns peque­nos acer­tos meus. Em cada folha, dá para ver a data em que a prova foi impressa. E eu impri­mia tudo isso den­tro da agên­cia de pro­pa­ganda em que tra­ba­lhava. Na sur­dina. Sil­vana Zan­do­meni, que fez a dire­ção de arte do livro, foi uma grande com­pa­nheira nesse sen­tido. Pas­sá­va­mos madru­ga­das mexendo nisso. Tudo está ali, nesse ori­gi­nal, regis­trado. Vejo-o e me lem­bro dessa pri­meira emo­ção, des­ses dias cor­ri­dos. O livro foi lan­çado uns dois meses depois. E foi um sucesso.” Junto ao ori­gi­nal, a prova de uma das foto­gra­fias que o artista plás­tico per­nam­bu­cano Jobalo (que mora hoje na Itá­lia) fez espe­ci­al­mente para a obra. “Ou seja: o cara vai levar um ver­da­deiro dos­siê do Angu”.

Foi Jobalo, inclu­sive, quem deu nome ao meu livro. “Ele mandou-me uma carta da Itá­lia brin­cando que se você tirasse a letra ‘S’ e a letra ‘E’ da pala­vra ‘sAN­GUe’, tem ‘angu’ lá den­tro. E eu estava pre­ci­sando de um título para fechar aquela reu­nião de con­tos. Alguns, que eu havia escrito ainda no Recife. Outros, escri­tos em cho­que com a cidade de São Paulo. Foi sendo cozi­nhado assim o livro – em con­tato com os car­ros e a fumaça de São Paulo. João Ale­xan­dre fala sobre isto no pre­fá­cio: o angu da tra­di­ção virou, aqui em São Paulo, o Angu de San­gue, o angu que foi pos­sí­vel cons­truir, recons­truir. Foi o prato que eu criei nessa cidade. Para não comer o pão que o diabo amassou”.

Mar­ce­lino res­salta que esse é um livro de “sota­que” e em que “todos os per­so­na­gens estão fora do lugar, desam­bi­en­ta­dos no tempo e no espaço. Como eu estava, há dez anos.

PRECIOSIDADE

Com seu romance de estreia, Gali­leia, Ronaldo Cor­reia de Brito levou para casa, ano pas­sado, o maior prê­mio em dinheiro do País, o São Paulo de Lite­ra­tura. Segundo o autor, o ori­gi­nal doado ao Urros Mas­cu­li­nos é o mais vali­oso de todos os ori­gi­nais do romance. “Desde o pri­meiro esboço de Gali­leia, foram oito anos. O ori­gi­nal que doei para a Fre­e­porto é o mais sig­ni­fi­ca­tivo das deze­nas de tra­ta­men­tos do romance. Nele, eu aban­dono pro­je­tos e tomo novos rumos. Quem o ler, ficará sur­preso com os esbo­ços de cons­tru­ção e des­cons­tru­ção de minha escrita”, des­taca o autor.

Nesse ori­gi­nal, o lei­tor encon­trará um foco maior no per­so­na­gem Davi, que daria nome ao romance. “Eu pre­ten­dia que Davi fosse o per­so­na­gem prin­ci­pal do romance. Mas, com o tempo, ele per­deu força para Ado­nias e Ismael, o que é bem comum de acon­te­cer ao longo da escrita. Tive de bus­car um outro nome para o romance. Minha mulher, Ave­lina, me suge­riu Gali­leia, sem nem mesmo ler o livro, ape­nas por ouvir meus rela­tos sobre a his­tó­ria. Conhe­cer o pro­cesso de cri­a­ção dos artis­tas é como via­jar no tempo, ou ler um bom romance poli­cial. Quem ler esse Davi entra as feras, depois de ter lido Gali­leia terá gran­des sur­pre­sas”. O lei­lão con­tará ainda com obras de Sama­rone Lima, Fer­nando Farias, Aldo Lins, Sil­vana Mene­zes e André Cer­vins­kis. A renda será rever­tida para a rea­li­za­ção da 2ª Freeporto.

» 2º Lei­lão de Ori­gi­nais e Manus­cri­tos de Escri­to­res em Per­nam­buco: hoje, às 19h, Espaço Muda (Rua do Lima, 280)