Sou uma patética variação do tema do outsider.
Cada vez mais percebo isso. Eu circulo por ambientes que não são meus, que não sou eu, em que não sou. Não é lamúria por ter origem humilde: é a constatação de que o universo a que pertenço é tão mais transparente do que esse pelo qual me arrasto como um pedinte. Otelo é Otelo não pelo ciúme a Desdêmona. É-o porque é um outsider: despertou a inveja e a fúria de Iago. Suporto com dificuldade os salões pela necessidade de alcançar certos objetivos que cada vez mais parecem menos meus. Uma piada de mau gosto. Eu sou rude, não tenho esse fino trato, esse sorriso que esconde fúrias. Se me enfureço, fecha-se a cara, pronto. Calar, calar, esperar, baixar a cabeça. Isso não é algo que aprendi com meu pai. Sou um estrangeiro. Quero-me de volta, mas parece que meu rosto está escondido em alguma gaveta. A um amigo que disse que escrevia um conto com um personagem baseado em mim, um conselho: se não for uma variação do tema do outsider, não serei eu. E não tem que ser, na verdade. Qual o sentido de tudo isso, para que tudo isso? Ouço conversas sobre viagens à Europa, tendências da literatura, projetos, editais. Cansado. Cansado de remar contra uma maré de imbecis. Cansado de ser um imbecil que acredita que pode fazer alguma coisa. Um estrangeiro. Num labirinto.

