Miró recitará no teu enterro | Wellington de Melo | escritor
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Miró recitará no teu enterro

Miró recitará no teu enterro

Hoje saiu uma matéria muito bacana no Diário de Pernambuco com Miró, que está há seis meses tratando-se da dependência do álcool e vem dando uma nova guinada em sua vida. Acho que devemos cada vez mais apoiá-lo em sua decisão de querer seguir vivendo.

Fico bastante irritado quando ouço vez ou outra o discurso do “poeta oficial”, de que “agora só chamam Miró para comer, não para beber”, “que agora que o estado publicou, tá com a vida feita”, como se isso fosse uma caretização, como se tirasse sua genialidade e não fosse, ao contrário, o reconhecimento dela, como se agora, lúcido, ele não estivesse mais antenado ainda com seu tempo, como se o que valesse fosse o clichê romântico do poeta que morre bêbado na sarjeta.

O vício do álcool é um flagelo que acomete milhões e não é fácil vencê-lo. Aliás, é algo que se vence a cada dia, sempre um recomeço. Para alguém que não tem família, como Miró, o desafio é maior ainda. Não à toa sua recaída aconteceu no dia de Natal, diante da solidão e do desamparo – mesmo tendo conseguido um sucesso no trabalho como nunca havia conseguido antes. Não há problema nenhum em assumir-se doente e querer parar, e qualquer pessoa que critique quem quer ajudar o poeta nessa empreitada me parece um idiota. Conversando com Miró ontem, ele falou como foi a um sarau em que todo mundo estava bebendo e um ou outro chegava para oferecer. Dá pra entender a força de vontade que o cara tem que ter para resistir num ambiente desse? E que pessoa é essa, que sabendo da condição do outro, oferece bebida?

Cada um tem seu limite e tem seus venenos. Para alguns, a comida, para outros, as compras, o jogo, o sexo, para outros o álcool. Algumas pessoas conseguem conviver com seu veneno e viver muitos anos. Outros, se excedem e o veneno vai, invariavelmente, consumi-los. Como amigo de Miró – e acho que todos os amigos de verdade pensam igual – o quero vivo. Não há nada de bonito na morte, não tem essa de glamour. E quem ficar chateado com isso, nem merece a amizade dele, pra ser sincero.

Que Miró ainda cause muita inveja nessa Hellcife dos infernos e que ainda vá recitar no enterro de muitos invejosos nos próximos anos. Saravá.

Wellington de Melo
poet@wellingtondemelo.com.br

Escritor, professor e tradutor. Publicou diversos livros, entre eles "O caçador de mariposas", traduzido para o francês, e "Estrangeiro no labirinto", semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Edita autores contemporâneos pelo selo Mariposa Cartonera, que publica livros artesanais com capas de papelão reutilizado.

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