Wellington de Melo | A atmosfera mítica e a recriação do mito contemporâneo em Terêza Tenório
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A atmosfera mítica e a recriação do mito contemporâneo em Terêza Tenório

RESUMO 

Nesta apresentação 1, tentaremos mergulhar no universo poético de Terêza Tenório, dona de uma poesia densa e de uma técnica primorosa. A autora já é reconhecida internacionalmente, mas ainda desconhecida do grande público, fato compreensível, dada a erudição de sua escrita. Chama-nos a atenção em sua poesia – e este é o foco de nossa análise – a presença constante do mito, conseguido não só numa busca no passado, mas na transmutação do mundo visível, imbuído, através de seu olhar líquido, de uma atmosfera mítica criadora.

A simbologia teresiana nasce de um sistema universal, flertando com o inconsciente coletivo de Jung 2, mas pouco a pouco evolui num movimento centrípeto em busca de um “universo interior”. Esse universo teresiano está repleto de símbolos particulares que apenas uma análise profunda conseguiria desvendar. Há, no entanto, um aspecto que permeia toda a poética de Terêza Tenório e que será o objeto de nossa breve explanação: a atmosfera mítica de seus textos.

O mito em Terêza não se entende apenas como uma revisitação aos clássicos, mas uma (re) criação de universos mitológicos próprios. O mito em Terêza é, pois, muito mais que um tema recorrente: é uma atmosfera, conseguida através de um olhar particular que, como num rito de iniciação, transforma o mundo visível e seus significantes próprios da vida secular.

O tratamento do mito na poesia de Terêza se dá de diferentes formas e em diferentes níveis. Podemos, no entanto, identificar certa aproximação entre determinadas obras que nos leva a colocá-las, com suas idiossincrasias e particularidades formais e temáticas, em três grandes blocos: os três primeiros livros (Parábola, 1970; O círculo e a pirâmide, 1976; Mandala, 1980) compõem o bloco que por ora chamaremos de “mito geométrico”; os três seguintes (Noturno selvagem, 1981; Poemaceso, 1985; Corpo da terra, 1994) compõem um segundo bloco, o “mito orgânico”; por fim, Fábula do abismo, de 1996 e o mais recente A casa que dorme, de 2002, fecham a obra publicada até agora com o que chamamos de “mito consolidado”. 3

O bloco do “mito geométrico” inicia a trajetória mito-universal à mito-interior. A cada livro desse bloco a autora desprende-se mais do mito clássico, algumas vezes reinterpretando-o, outras, utilizando significantes modernos na construção do novo mito. Com este movimento, que alcança seu ápice em Mandala, a autora desprende-se também do rigor das formas geométricas, aqui impregnadas de uma simbologia mística claramente influenciada pela cabala e pela alquimia.

O segundo bloco, o do “mito orgânico”, é uma evolução natural do que se pronunciava em Mandala: partindo do mito clássico, mergulha cada vez mais no mito-interior. Com Noturno selvagem o mito se incorpora definitivamente a sua poesia como um só organismo integrado e indissociável de sua escritura. Volta-se para o mito do amor – principalmente em Poemaceso, da infância, da perda. 4 Corpo da terra representa a nosso ver o ponto culminante do mito neste bloco, com direito a um apêndice dentro do próprio livro que é o poema O narguilé do xamã de Cybelius Manzini, de tom claramente autobiográfico e subversivo, tanto no que se refere à forma quanto à ideologia. 5

É em Fábula do abismo (1999) – e conseqüentemente no bloco do “mito consolidado” – que vemos o tratamento mais primoroso do mito na obra de Terêza. Embora retome os clássicos gregos e cabalísticos – as figuras de Orfeu e Lilith aparecem diversas vezes – apropria-se a poeta dessas imagens que agora são parte integrante de seu mundo, dona que é de seu próprio abismo, aquele a que se lança todo poeta a cada verso.

Uma vez que expusemos brevemente nossa compreensão da evolução do mítico na obra de Terêza Tenório, seria importante concentrar-nos na atmosfera de cada obra em particular. Infelizmente a limitação de espaço impede tal feito, de modo que discorreremos apenas sobre o bloco do “mito geométrico”, deixando os outros dois para um estudo posterior.

Parábola (1970) é o primeiro livro da autora, escrito quando tinha apenas 17 anos, mas que já apresenta aspectos que estariam presentes em toda a sua obra. O termo parábola é normalmente associado à narrativa alegórica que encerra preceitos religiosos. Isto até parece reforçado se consideramos os poemas que iniciam e fecham o livro (Retém eterna a vida e Términus), com uma temática claramente cristã. Ao percorrer o resto do livro, no entanto, notamos que a verdadeira parábola desenha-se no universo, através da viagem a que nos convida a autora. Subimos ao espaço como astro-argonautas até Alfa-centauro e percorremos um cosmos repleto de seres míticos. O movimento da parábola nos traz de volta a Terra, que também já recobra ares de universo paralelo, reconstruído pelo olhar líquido de Terêza.

Aqui já identificamos a semente da recriação do mito moderno, pela utilização de significantes inusitados:

A paisagem acrílica
de Alfa-centauro
evolui metálica
ante nossos olhos.

Antiformas bélicas
de astronaves mudas
(a mudez da pedra
gritante de um Buda).

Da mesma forma, no poema que marca a descida à Terra depois da viagem cósmica, observamos a particularidade do olhar teresiano. Neste poema, intitulado Paisagem do Recife, a própria cidade transmuta-se num ser mítico, como uma Atlântida viva:

Mil olhos cresceram como rios
e encheram cidades. A enxurrada
afogou papiros, peixes. Garças mortas
são n’água.

Calcamos silêncios e matinas
num longo desgaste. Hieróglifos
brotaram das esfinges onde retinas
são lótus.

Hipocampos, monstros do dilúvio
(a alucinação configurada).
Teus cabelos são pontes sobre os rios:
és pátria. 6

Em O círculo e a pirâmide a poesia teresiana mergulha cada vez mais na simbologia mística. Ambas as formas geométricas do título têm uma carga simbólica que remonta dos egípcios: a pirâmide simboliza o eixo do mundo, enquanto o círculo o próprio mundo. 7 Há, na verdade, uma profusão sincrética de mitos nesta obra: a figura egípcia do Ba (a alma imortal, o ego junguiano) e do Ka (a força criativa do homem) (DOUCET, 2001:116-122); um claro intertexto com A Odisséia, no qual o narrador é sempre uma figura feminina, muitas vezes identificada com Penélope; além disto, sugerem-se aqui os ritos de passagem celtas e escandinavos. Da mesma forma, as imagens marinhas, tão presentes em sua poesia, ganham força:

Os homens partiram com as gaivotas
À distância ainda brilha o branco
das longas velas latinas.

A última nau lentamente desapareceu
além do riscado de espuma.
– Cavaleiros do mar! O grito desperta
o sono mitológico de Netuno,
e ei-lo a emergir das águas à praia
num cortejo tumultuado de tritões, peixes e estrelas marinhas.8

Mandala é o mais alquímico livro deste bloco. A mandala é a representação circular de uma yantra, diagrama hindu utilizado para a meditação, normalmente colocado dentro de um quadrado. Mas não é apenas do hinduísmo que retira Terêza a inspiração para a atmosfera mítica deste livro. O universo mitológico de que se vale é amplo: germânico (Lorelai), nórdico (Cemitério das Baleias), celta (Melusina), hebraico-cabalístico (A dança dos golens), japonês (Elegia de Genji), grego (Teseu), cristão (Via Sacra). Mas longe de ser apenas uma colcha de retalhos mitológica, Mandala recobra o mito-interior a partir das recriações teresianas. É assim que cada mito é devorado e re-significado, transcendendo o mito-universal, como no soneto “O Kamikaze”:

Não apenas Ícaro e seu vôo
sobre a agreste costa mas somente
a fixidez dos olhos do herói
a refletir o templo dos mortos.

Antes o escondesse sob as fluidas
nuvens que envolveram as coníferas
durante o inverno da Noruega
ou nos arrabaldes de Estocolmo.

Talvez haja alguma semelhança
entre as estrelas e o olhar do herói
despedaçado além dos penhascos:

– A certeza do jamais retorno
lá onde não haverá encontros
ou sons remotos quase inaudíveis.

É o círculo da mandala que se fecha, quando o mito leva o homem de volta aos jardins edênicos, ao tempo mágico perdido da palavra primordial. É na palavra que guarda Terêza Tenório o segredo do mito, como nos diria a própria poeta: “Há noites em que eu perco/ a atmosfera do poema/ Retomo a fala obscura/ na límbica fenda/ o signo oracular do universo/ onírico/ o verso mural/ transverso.”

 

REFERÊNCIAS

BEZERRA, Jaci (org). Geração 65: o livro dos 30 anos. Recife: FUNDARPE/ FUNDAJ, 1998.

BRUCE-MITFORD, Miranda. O livro ilustrado dos símbolos: o universo de imagens que representam as idéias e os fenômenos da realidade. São Paulo: Publifolha, 2001.

CÂMARA, Leônidas. A alquimia de Mandala. in TENÓRIO, Terêza. Mandala. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

DOUCET, Friedrich W. O livro de ouro das ciências ocultas: magia, alquimia e ocultismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

LUCAS, Fábio. in TENÓRIO, Terêza. Corpo da terra. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro – Recife: CELPE, 1994.

NOGUEIRA, Lucila. Apresentação. in TENÓRIO, Terêza. Fábula do abismo. Recife: Edições Bagaço, 1999.

TENÓRIO, Terêza. Mandala. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

________________. Noturno selvagem. Recife: Edições Pirata, 1981.

________________. Poemaceso. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985.

________________. Corpo da terra. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro – Recife: CELPE, 1994.

________________. Fábula do abismo. Recife: Edições Bagaço, 1999.

________________. in SIQUEIRA, Elisabeth Angélica Santos (org.). Retratos – a poesia feminina contemporânea em Pernambuco. Recife: Bagaço, 2004.

Mostrar 8 notas de rodapé

  1. Comunicação apresentada durante o I Colóquio de Estudos Contemporâneos, Universidade Federal de Pernambuco, 2006
  2.  A própria Terêza o chama de “psicanalista alquímico” em seu posfácio de “Mandala” (1980:86). Acreditamos que as livres associações junguianas são a chave para compreender o intricado sistema simbólico teresiano, tema que merece um estudo posterior.
  3. Essa agrupação está longe de ser definitiva. Baseia-se muito mais na nossa percepção de como evolui o tratamento dado ao mito na obra da poeta, de como o universo teresiano vai tomando forma, envolvendo sua poesia de modo que o mito deixa de ser um tema e passa a um elemento constitutivo da poética de Terêza Tenório.
  4.  Como no capítulo elegíaco “Intersigno”, de Corpo da Terra, dedicado a seu pai, Ranulfo Tenório.
  5.  O narguilé do xamã renega o pensamento lógico em favor do que Doucet (2001:22-51) chama de pensamento mágico, em que se baseia o xamanismo.
  6.  Este recurso, aliás, será uma constante em toda a obra de Terêza Tenório. Envolve o leitor em seu universo para surpreendê-lo com significantes inusitado que o arrastam mais profundamente ao universo da autora. Veja-se por exemplo: Quero falar de amor e silencioso/ como os amados há longo tempo ausentes/ ele retorna sua forma a meu lado/ belo corpo de náufrago adormecido/ ou enigmático rio noturno/ fluindo-me em direção aos hemisférios boreais/ através de avenidas e bulevares/ por sobre os viadutos iluminados de lâmpadas néon/ aos poucos invadidos pelo sol. (Noturno selvagem, 1981)
  7.  Se pensarmos nos símbolos alquímicos, o triângulo tem uma dupla significação: representa a água, o princípio feminino, quando voltado para baixo; representa o fogo, o princípio masculino quando voltado para cima. O círculo com um ponto no centro é o símbolo do sol. A junção dos dois triângulos dentro de um círculo (estrela de Davi) representam a busca pela pedra filosofal, ou, no caso de Terêza, a própria busca pela integração do homem com sua natureza mágica.
  8.  A imagem do peixe assume diferentes valores ao longo da obra de Terêza Tenório, o que por si só já seria tema para uma grande discussão. O símbolo do peixe na cultura cristã está associado a Cristo, uma vez que a palavra grega ictos corresponde às iniciais na mesma língua para “Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador” (BRUCE-MITFORD, 2001:18). A figura do protetor da vida é representada no hinduísmo por Vishnu, que forma parte da divina trindade junto com Brahma (o criador) e Shiva (o destruidor). Vishnu é normalmente associado também ao peixe, uma de suas personificações. Na mitologia celta a imagem do peixe está associada à Deusa Mãe, uma vez que é símbolo da fertilidade e ao mesmo tempo da morte: a Mãe Terrível que dá a vida e a devora. Observe-se a recorrência da imagem do peixe na poesia teresiana:

     

    “fluidos seres submarinos
    homens-peixes e sereias
    com a maldição da máquina
    e insuperável tristeza.”

    (Nave, Parábola)

    “No epicentro das ondas invisíveis
    edifiquei mandalas para os celtas
    habitantes dos últimos milênios
    guelras de peixes e barbatanas retas.”

    (Virtual, Fábula do abismo)

    “Dizem que o aceso peixe flui
    por entre mãos quietas do destino”

    (Da transparência dos símbolos, Mandala)

Wellington de Melo
poet@wellingtondemelo.com.br

Escritor, professor e tradutor. Publicou diversos livros, entre eles "O caçador de mariposas", traduzido para o francês, e "Estrangeiro no labirinto", semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Edita autores contemporâneos pelo selo Mariposa Cartonera, que publica livros artesanais com capas de papelão reutilizado.

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