O livro O diálogo das coisas é o meu primeiro. Primogênio de orgulhos e vergonhas, momento que marca minha primeira exposição em letra. Antes só havia feito exposições de quadros e me apresentado com minha banda, a Serialnumer, no final dos anos 90. Comecei a escrever esse livro antes da banda, em 1998, mas só em 2007 o livro saiu.
O livro se divide em três blocos denominados “O sangue”, “A letra” e “As coisas”. Cada bloco tem, naturalmente, uma temática. Hoje, relendo, me parece convencional, mas entendo cada livro como um reflexo seu em determinado momento. O bloco “O sangue” é bem autobiográfico. A referência a Fagundes Varella faz desnecessária qualquer explicação. É o bloco com menos poemas, talvez porque a temática ficou travada em mim, o que faz desses poemas os mais sinceros do livro. Em “A letra” eu falo sobre o próprio fazer poético. É uma temática que dirão ‘batida’, mas não tenho como escapar dela, nem tinha como ignorá-la então. Há alguns poemas que são mais experimentos, como uma criança brincando com as palavras mesmo. Há aqui poemas que ainda hoje gosto muito e outros que me envergonham. Em “As coisas” eu vejo hoje uma influência muito grande de Rilke — a epígrafe dessa parte não nega isso. Acho que esse é um livro de ‘gabinete’, talvez um ‘livro de ventre morto’, essas expressões que uso em o peso do medo 30 poemas em fúria, para me referir a esses livros que nascem desgastados.
Mas, como sempre, não me arrependo de tê-lo escrito. Lembro que quando o publiquei, considerava que aquilo seria minha formatura, já que não pensava em fazer a formatura da universidade. Ainda tinha uma visão meio romântica do fazer poético, de toda essa coisa de ser escritor e de literatura como uma arte nobre etc. e tal. Pouco tempo depois eu conheceria alguns dos amigos que mantenho até hoje, como Artur Rogério e Bruno Piffardini. A partir dali muita coisa mudaria, tanto para eles como para mim. Mas essa é outra história.
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