Crash: no limite

Quando ouvi a notícia de que Crash tinha ganho o Oscar no lugar do então favorito, O Segredo de Brokeback Mountain, pensei que os críticos estavam certos ao dizer que este último perdera porque a Academia não queria dar o prêmio a um filme com temática gay. Ao assistir Crash – No limite (drama, EUA/Alemanha, 2004), vi que este filme ganhou simplesmente porque é muito melhor do que Brokeback Mountain. E pronto.

Curiosamente, essa discussão do politicamente correto que envolveu o prêmio perdido pelo romance-gay-meloso (eu sei, composto meio estranho…) de certa forma permeia o grande vencedor do Oscar 2006.

Vários personagens de diferentes etnias são colocados em rota de colisão depois de vermos seus dramas pessoais. Essa estrutura de roteiro de histórias paralelas, diga-se de passagem, não é nova (Robert Altman já fazia isto), mas o resultado é muito bom, pois consegue mostrar sem maniqueísmo a problemática racial nos Estados Unidos, que vivem um momento curioso em que para não ser acusadas de racistas as pessoas são capazes de desvios de conduta muitas vezes tão graves quanto.

Na terra do Tio Sam as feridas não curaram (e talvez não curem nunca). Crash abre esta ferida, futuca e mostra que não é tudo tão simples como se quer mostrar. Durante o filme os personagens são construídos e desconstruídos em sua imagem pública, que parece lutar com um Id furioso. Este processo me lembra muito outro filme muito bom, Beleza Americana, do qual Crash parece beber o desejo por escancarar a hipocrisia da sociedade americana. Ao contrário do seu antecessor, no entanto, Crash deixa uma mensagem mais redentora; os personagens, exceto um, parecem encaminhar-se para a saída de um verdadeiro inferno de aceitação da realidade, notando que as pessoas são algo além da melanina.

O elenco também é um capítulo aparte: o excelente Don Cheadle dá o tom de perplexidade que norteia o filme, enquanto Mat Dillon deixa transparecer através da carapaça do policial racista alguém que quer cumprir seu dever e ter seus direitos respeitados, por mais que a vida lhe tenha feito criar uma visão distorcida do outro.
Com um orçamento de apenas US$ 6,5 milhões, Crash mereceu sim ganhar o Oscar porque como no filme anterior de seu roteirista Paul Haggis (Menina de Ouro), Crash se centra no drama humano, sem efeitos, sem cair no piegas, levando-nos de encontro com nossos próprios preconceitos.

 

Ficha técnica

Título original: Crash (EUA, 2005)

Diretor: Paul Haggis
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Tony Danza, Keith David, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fitchner, Brendan Fraser, Terrence Howard, Loretta Devine, Thandie Newton, Lanrez Tate, Ryan Philippe, Marina Sirtis
Extras: Bastidores, galeria de fotos, trailers
Idioma: Inglês e Português
Legendas: Português, Espanhol e Inglês
Duração: 122 min. Cor
Distribuidora: Imagem

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