FreePorto: uma verdadeira festa literária

Matéria Publicada no Jornal Correio das Artes, Paraíba. Dezembro de 2009.

Por André Cervinskis

Como se faz uma festa literária? Com mesas redondas, conferências, palestras, oficinas, tardes de autógrafos e todas essas fórmulas exaustivamente repetidas, com o boom de festivais e mega-eventos literários que tomou conta do país? O Grupo Literário Urros Masculinos mostrou que faz a diferença. A FREEPORTO – FESTA LITERÁRIA DO RECIFE, nada teve a ver com isso. Foi uma celebração da literatura, mas com irreverência, bom humor, informalismo e proximidade e interação com o público, elementos que têm faltado a muitos eventos. De 06 a 08 de novembro, no histórico Recife Antigo, cartão–postal da capital pernambucana, precisamente no point de jovens e alternativos, a Rua da Moeda, escritores consagrados local e nacionalmente – Lucila Nogueiira, Jomard Muniz de Brito, Pedro Américo de Farias, Marcelino Freire (SP), Santiago Nazarian (SP) e Ivana Arruda Leite (SP), ao lado de novos nomes, como Helder Herik, Dalexon Seixas e Roberto Queiroz, se confraternizaram com o público numa séria brincadeira. Tudo feito com muita organização e descontração.

Primeiramente, explicamos o que é esse grupo e sua proposta. Há mais de um ano, exatamente dia 28 de outubro de 2008, surgia no cenário pernambucano o Grupo Urros Masculinos. Formado por Bruno Piffardini, Artur Rogério e Wellington de Melo,. está sendo um sopro de novidade e vitalidade na tão estabelecida e elitista literatura pernambucana, cheia de partidos e “beletrismo”, ou seja, excessivamente acadêmica, como eles mesmos se declaram no blog de um de seus integrantes: O Urros é uma “defesa” de uma masculinidade estereotipada, de uma possível literatura com temas masculinos, os urros masculinos na literatura. Provocação desde o começo. Uma das características do grupo é exatamente a provocação e a diversidade de estilo literário e de concepções que cada um tem da literatura. Para os integrantes, o Urros não é um projeto principal, é uma espécie de “trabalho paralelo” ou playground, ou pura diversão, mas buscando sempre a qualidade. Também é uma forma de fortalecer a ideia em Recife de que existe a possibilidade de expandir a circulação da literatura feita aqui, a literatura feita por novos autores que moram na cidade, e que também existe a possibilidade de trabalhar a literatura de formas menos convencionais; é uma tentativa de se sair das mesmices dos antigos saraus, cansativos, silenciosos, herméticos e rosário das vaidades (www.wellingtondemelo.com.br, em 02 de novembro de 2009).

É necessário esclarecer que o Urros, ao lado de outro grupo, o Nós Pós, jovens que promovem saraus em bares e lugares pouco convencionais, vem agitando o cenário literário pernambucano trazendo escritores jovens que se propõem a tratar a literatura com numa estética mais despojada. Estado com uma ampla tradição nas letras, Pernambuco é também contagiado pelo vírus da formalidade, da autoreferencialidade excessiva e do corporativismo de academias e grupos. Isso tudo prejudica a fruição, por parte do público, da verdadeira literatura, afastando o público leigo e menos afeito aos livros.
Mas nos voltemos novamente para a FREE PORTO. O evento aconteceu paralelo a um já famoso, o FLIPORTO – Festival Literário de Porto de Galinhas, que aconteceu na mesma época. Lá, a ordem é agir completamente diferente: baseando sua programação em “medalhões” e formato-padrão – conferências e oficinas, esse evento segue na esteira dos demais festivais literários que pululam país afora. Nesse sentido, a FREE PORTO – provocativamente usando nome semelhante, mesmo que tomando emprestado do inglês, se propõe a ser um espaço democrático, em que o público interaja mais com o autor e, com isso, sua aura de intocável caia por terra. Exemplo disso é a TOCA DA RAPOS, espécie de talk-show literário, em que o público é convidado a conversar com o escritor convidado, no caso dessa edição, o multifacetado Jomard Muniz de Brito, ex-professor da UFPB e representante, em Pernambuco, do tropicalismo nos anos 70. “Com a Toca, estamos brincando com questões contemporâneas, como o anonimato que a internet possibilita e as consequências disso, ao mesmo tempo que jogamos com questões antigas, como os limites entre o público e o artista”, revela Wellington de Melo. Esse jogo da verdade literário aconteceu no sábado, 07 de novembro.

Escritores arremessando livros na rua, performances de uma drag queen e escritores autografando na pista de dança. Toda FREE PORTO foi uma desconstrução da literatura tradicional. Desde os lançamentos de livros – que foram literalmente “lançados” da sacada do Corpos Percussivos, QG da festa; passando pelo lançamento da antologia do grupo Urros e convidados – Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito aqui, livro publicado com o apoio do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife. (Revelando ao público autores inéditos ou pouco conhecidos, esse livro foi lançado em plena festa dançante num ex-prostíbulo); e as “off-sinas” dadas ao público por escritores convidados – um novo formato de oficinas literárias, mais informal; na verdade, uma gostosa conversa (Uuma delas ensinou a colecionar pinguins de geladeira, outras, a preparar caipirinha ou amarrar cadarço em pé). No caso do “lançamento” de livros, junto com uma parafernália técnica que incluía umas dez pessoas, entre apresentador, medidores e juízes, tudo foi conduzido com uma seriedade de fazer inveja ao qualquer comitê olímpico. Um tapete vermelho de cinco metros servia de ‘pista’ para que os escritores lançassem seus livros em plena Rua da Moeda, que contava com um público formado por leitores e escritores para ver o evento.

Será que tal iniciativa surtirá efeitos, quebrando um pouco a seriedade e caretice do cenário literário atual? Isso saberemos só daqui a algum tempo. Mas o grupo Urros Masculinos já começa a colher frutos de seu trabalho. Convidados por Marcelino Freire, participaram da Balada Literária em São Paulo, evento semelhante, em que escritores recitam, conversam com o público e lançam livros por mais de 24 horas. Também realizaram uma apresentação na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, junto com os grupos Poesia Maloqueirista (SP) e Muito Barulho Por Nada (BA). Ainda em São Paulo o grupo gravou uma entrevista para o programa Entrelinhas, do TV Cultura. Pelo jeito, continuaremos a ouvir o urro inquietante e sedutor desses rapazes performáticos ainda por um bom tempo…

TRECHOS DE LIVROS LANÇADOS NO EVENTO:

Casta Maladiva – (Casta Maladiva – Lucila Nogueira)

eu estando em Recife
aprendi a ser virgem
a sustentar sozinha
meu corpo hieroglífico
prazer físico e onírico
de casta maladiva

doze anos contido
numa caixa de vidro
doze anos perdidos
o trauma de uma vida
os dois na mesma casa
como irmão e irmã
Eu estando em Recife
Aprendi a ser virgem
Quando você partiu
Falou não voltaria
Eu que não era feliz
Te amando todo dia
……………..
Voltei enfim à carne proteger
meu sexo parou de responder

ECCE HOMO (As Plantas Crescem ltando – Helder Herik)

O serumano faz o pão
E
Faz cadeado
O Serumano faz espelho
Faz sopa
O serumano faz Serumanos
Que comem galinha
E
Palitam os dentes
O Serumano amarrea cadarço
(amarra o bode)
o Serumano mata a fome
e
morre de fome
o Serumano constrói casas
para prender
os Serumanos que eles fizeram

Link original: http://www.paraiba.pb.gov.br/images/stories/editais/correio_das_artes10_01_2010.pdf

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