A opinião no meio do palco

Projeto Laboratório toma forma de talk show ao vivo, no Teatro Hermilo Borba Filho, para discutir a crítica literária

Publicado no Jornal do Commercio, dia 03 de abril de 2010.

Por Duda Martins

“Acadêmico não precisa ser, necessariamente, formal, sisudo”. É com este conceito que o escritor, professor e produtor Wellington de Melo (Freeporto) anuncia o início de um novo projeto que pretende discutir, de forma leve e contemporânea, a crítica literária. “A discussão pode ser acadêmica, sem ter um clima pesado de academia. A ideia é que o Projeto Laboratório não se limite a este público. Queremos envolver escritor, crítico, academia e leitor. Será um evento de crítica, mas com um formato diferenciado, que vai atrair um público maior, mais variado, renovado. A literatura não pode mais ficar girando em torno do seu próprio umbigo”, afirma Wellington, idealizador da novidade.

Segundo ele, o nome Laboratório tem a ver com experimentação, mesmo. Qual o papel da crítica literária hoje, o espaço reservado para ela e os caminhos que pode tomar, são algumas das questões a serem discutidas no programa, que toma forma de talk show ao vivo, no Teatro Hermilo Borba Filho. Um espaço, acima de tudo, para formação do leitor. Na curadoria, nomes da cena pernambucana como Cristiano Ramos (Opinião Pernambuco), Jomard Muniz de Britto e os críticos Christiano Aguiar (Crispim) e Bruno Piffardini (FreePorto), além do próprio Wellington. Com um plano inicial de seis meses de duração, o Laboratório acontecerá sempre nas segundas terças-feiras de cada mês e será aberto ao público. “Existe uma demanda para a crítica. A gente tem críticos renomados e pouco espaço para eles. Além disso, pensamos no leitor, que deve ter uma opinião embasada, com fundamentação. A crítica tem que ir além do gostei ou não gostei”, diz Wellington. O projeto também açambarca o universo teatral. O mês de março já está reservado para a discussão sobre a crítica do teatro, com a presença de autores e jornalistas.

Escritor, crítico literário, performer, agitador cultural e professor, Jomard Muniz de Britto acredita que, se existe um desaparecimenrto da crítica no Estado, é porque também existe um “egolombrismo” (egocentrismo) por parte dos autores, que não as aceitam. “Quando estive na Balada Literária de Marcelino Freire, me preocupou o fato de que em todas as sessões de que participei, muitos achavam que a crítica havia desaparecido. (João Silvério) Trevisan deu um depoimento muito forte contra ela. Talvez a crítica de rodapé, que existia antigamente, tenha sumido, mas penso que ainda existe crítica opinativa”, afirma. A despeito da colocação, Jomard diz que a crítica no Brasil não está bem do jeito que está. “Tem uma ideia que eu acho a mais cretina de todas. É tal da crítica construtiva. Esta vem sendo utilizada pelos jornalistas como o elogio fácil, é a religação dos intimismos sombreados pelo poder da mídia”, filosofou o escritor.

Outra discussão que permeia o assunto é a briga por espaço, envolvendo acadêmicos e jornalistas. Os primeiros afirmam que a crítica literária feita hoje no Brasil se resume às resenhas e comentários produzidos pelos repórteres, o que resulta na falta de um estudo mais completo e aprofundado sobre as obras. Os jornalistas, por sua vez, argumentam que os acadêmicos não se dispõem a escrever. A briga respinga em dois outros grupos, os escritores e leitores, que revelarão suas impressões sobre o tema, durante as edições. “Eu não acho que exista comparação entre a crítica acadêmica e a crítica no jornal. São dois textos diferentes e públicos também distintos. Mas, falando em jornalismo, se nos voltarmos ao que era a crítica literária há 40 anos, percebemos que ela sofreu uma grande mudança, um grande declínio. As matérias são vazias, as vezes percebo que só copiaram o release. Também não há investimento por parte dos jornais. Acho que houve um desprestígio da literatura. Tem dias que você tem três, quatro páginas sobre musica ou cinema, mas raramente um bom espaço para a literatura”, alfineta o doutor em Literatura Brasileira Anco Márcio.

Crítica para quê? É o primeiro tema do programa, que acontecerá no próximo dia 13, no Teatro Hermilo Borba Filho. Além da participação de Anco, a estreia conta com a presença do jornalista Schneider Carpeggiani, crítico de literatura deste JC. Uma das particularidades do projeto é que ele se desenvolve de maneira presencial e se estende para o virtual. Os críticos produzirão conteúdo para uma revista eletrônica, que será atualizada a cada edição. Os debates ali levantados serão abertos ao público através do site www.olaboratorio.wordpress.com. Apesar de querer fugir dos estereótipos acadêmicos, o Laboratório também funcionará como programa de extensão da Universidade Federal de Pernambuco.

Link original (para assinantes): http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/04/03/not_372018.php

2 Comentários
  • Caio Souza
    Postado às 19:17h, 07 abril Responder

    Parabéns Wellington!E boa sorte nesse novo projeto!

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