Por André de Sena [1]WANDERLEY, André de Sena, Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. – Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. … Continue reading 

O segundo autor aludido, o jovem poeta recifense Wellington de Melo (1976-), que ainda expande as asas no universo da criação literária, no poema intitulado [desvirtual provisório] (sic) (2008), também se utiliza de vários topoi ultrarromânticos na construção deste trabalho conceitual que busca cantar os embates técnofilosóficos entre o homem e a máquina. Mas, mesmo em se tratando de uma temática bastante contemporânea, ainda se vê a antiga forma do treno insuflando a melancolia disfórica do texto, que realiza os experimentos icônicos típicos da poesia vanguardista, como se pode ver no excerto de prosa poética intitulado “Preâmbulo à m@quina” (2008: 13):

Porém, no transcurso da leitura de [desvirtual provisório] a possibilidade entrevista pelo último verso acima transcrito (“serei livre”) não se cumpre. Dos embates filosóficos entre a consciência do homem e o ser-estar das máquinas no contexto moderno resulta apenas o nada, uma aporia inúmeras vezes presentificada na série de poemas que compõe o livro.

Não há diferença ou limites entre o espaço do nada e o nada do cyberespaço (visto como “um lugar triste para a palavra” – idem: 44), como afirma o poema “Mundo plano” (ibidem: 34):

É muito simbólico o fato de que o sema “Nada” seja o primeiro, neste poema, grafado com inicial maiúscula. A ele se ligam outros semelhantes (“Planimundo”, “Imundamente” e “Plano”), a configurar uma atmosfera de inadequação à realidade típica do modo ultrarromântico, com as tradicionais hipérboles do discurso melancólico disfórico. Indo contra a euforia tecnológica típica do hodierno, a escritura melancólica de Wellington de Melo perpassa vários outros poemas do livro, a exemplo de “Obrigado” (ibidem: 51):

A aporia também pode aparecer num contexto imagético contemporâneo. De súbito, do trabalho/embate cotidiano com a “m@quina” irrompe o mal-estar típico do modo ultrarromântico e a última estrofe desse poema (“então de nada / necessitas. / de nada.”) pode até mesmo sugerir uma certa alienação que possui elos com aquele topos do convite literário ao suicídio. E o fim do livro-poema, apesar de uma nota do autor empírico na qual  pretende se afastar do niilismo, atesta novamente a vitória do vácuo e do modo ultrarromântico em âmbito contemporâneo, na parte “VI” do poema “Pó” (ibidem: 76):

“Vazio” e “Nada”, novamente os únicos semas cujas iniciais são maiúsculas, concluem o poema de maneira fragmentada e inconciliadora, associados, segundo o eu-lírico, à “consciência” (também) fragmentada do tempo de hoje. Este e outros poemas demonstram que o modo ultrarromântico se adapta aos mais diversos contextos e imaginários ficcionais – e assim o será por muito tempo ainda –, fecundando-os com suas cores e matizes melancólicos tão característicos.

References

References
1 WANDERLEY, André de Sena, Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. – Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Teoria da literatura, 2010.