Novo cenário da literatura em Pernambuco: Urros Masculinos

Há mais de um ano, exatamente dia 28 de outubro de 2008, surgia no cenário pernambucano o Grupo Urros Masculinos. Formado inicialmente por quatro integrantes, e prosseguindo hoje com três, pretende ser um sopro de novidade e vitalidade na tão estabelecida e elitista literatura pernambucana, cheia de partidos e “beletrismo”, ou seja, excessivamente acadêmica, como eles mesmos se declaram no blog de um de seus integrantes:

Urros é uma “defesa” de uma masculinidade estereotipada, de uma possível literatura com temas masculinos, os urrosmasculinos na literatura. Provocação desde o começo. Uma das características do grupo é exatamente a provocação e a diversidade de estilo literário e de concepções que cada um tem da literatura. Para os integrantes, o Urros não é um projeto principal, é uma espécie de “trabalho paralelo” ou playground, ou pura diversão, mas buscando sempre a qualidade. Também é uma forma de fortalecer a ideia em Recife de que existe a possibilidade de expandir a circulação da literatura feita aqui, a literatura feita por novos autores que moram na cidade, e que também existe a possibilidade de trabalhar a literatura de formas menos convencionais; é uma tentativa de se sair das mesmices dos antigos saraus, cansativos, silenciosos, herméticos e rosário das vaidades.

(wellingtondemelo.com.br, em 02 de novembro de 2009)

Para esta comunicação, decidi concentrar-me na análise da sobras de dois poetas participantes do Urros: Wellington de Melo e Artur Rogério. Este último, embora não tenha ainda um livro publicado, já divulgou seus textos na internet, por meio de seu blog e de outros amigos. Possui cinco livros no prelo: O Centro da Cabeça(2006), Esse Senhor – 22 Poemas de Contrição (sem data), Francisco – O Jogo dos Bichos (2008) e Recebi as Flores Dela (2009). Especialmente nos primeiros livros, há uma tentativa de quebrar tabus sociais e sexuais, como nesses versos: A maçã melada sem o granulado/ o juiz observa da bola lambuzada do cajado/ No início ou fim da festa,/ o início da reta do outro lado da largada: pau/cu,/ buceta,/ boca./ orelha/ cada um no seu quadrado/ e em todos os triângulos,/ o terceiro olho do Pentágono/ a certeza do buraco (…) (Esse Senhor…, p. 8); Tá tudo lá em baixo/ no saco/Tou só na na mão/ Depois do dia em que vi um veado (Na Mão); Antes que se duvide do tamanho da língua/ facilita-se um cuspe/ E fixe/ Tem um brasão de rapaz no tríceps/ A barba arranha a bunda/ ele amassa nossos quadris/ Faz pães/ Faz uma padaria/ Um dor que deveras sentimos rindo abre o verão (…)(Português Suave)

Desse modo, podemos constatar que a temática homoerótica seja predominante na obra de Rogério, embora ele não seja panfletária;  procura retratar simplesmente uma vivência pessoal ou observação da realidade: Boto o olho no gordo/ a língua ta pesada/ o estômago ta um bolo/ seco o copo/ pisco o olho pro gordo/ tem mais queijo/ mas daquela carne no molho/ não vou sustentar/ é maior do que eu poderia imaginar/ corro pro banheiro/ molho o sapato/ quase racho o vaso/ da próxima vez eu morro (…) (O Gordo); Quero o rapaz/ Favelado de graça/ Dentro daquela calça/ Dando sopa na praça/ Fazendo bico de carne preta/ (…) Aquilo estendido pra fora da perna pra dentro da minha boca/ Aquilo estendido pra fora da perna pra dentro da minha boca/ Prevalece o gosto da gordura/ a dor desse favelado ejacula na minha boca/ Prevalece o gosto da gordura/ a dor desse favelado ejacula na minha blusa (…) (Favela);às vezes os dentinhos de fissura ferem a minha pele/ prefiro só a gengiva/ é o risco de gozar dum corpo no começo; nato oblato/ moleque descabelado/ a boca na secura de morder a coisa dura (…) ( Dois Bebês).

Mas há outras subversões na poética de Artur Rogério. Há versos que refletem o relativismo dos valores contemporâneos, a falta de ideologias e maiores engajamentos políticos, sinais inequívocos de nossos tempos: O maconheiro se casou com Pink Floyd/ Disse ser comunista/ Disse apoiar Cuba e os caras das torres/ Se o cara quiser/ Não faz mal/ Tanto faz/ é relativo/ Faz correlação coma  liberdade sexual (Tanto Faz). Desse modo, o poeta usa da irreverência para nos fazer refletir sobre nossos paradigmas sociais mais sólidos: Minha mulher falou que me vidrei nos teus cabelos/ que virei gay/ que emborquei/ ela não sabe que na verdade eu sou um açougueiro/ como teu pênis disfarçado babo/ Quero todos os bifes dos bíceps/ Shoyu músculos perfeitos no prato/ A tua bunda assentada na base do meu estômago(…) (Cabelo). Embora não possa me referir aqui, por falta de espaço, Rogério também exalta a linguagem popular, trazendo para sua obra termos absolutamente orais, inclusive com erros gramaticais, como no poema Hoge, do livro Recebi as Flores Dela. Esse último livro, aliás, nos parece ser uma feliz tentativa de Rogério de desenvolver em prosa  poética, com incursões pelo fluxo de consciência. Todo essa obra, podemos assim dizer, procura desconstruir o paradigma do amor romântico, experiência sensorial de exacerbação dos afetos, tão divulgada entre nós pelos românticos do Séc. XIX.

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