Novo cenário da literatura em Pernambuco: Urros Masculinos

O autor, porém, confessa suas influências, de forma velada ou explícita, como nesses versos em que dialoga com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade: Nós pós comer/ Não tem o que negar/ A profissão mais antiga do mundo/ É Cagar/ Pode ser o cara bonito/ As três mulheres do sabonete de Araxá/ O que ninguém deixa de fazer é cagar (…) (A Minha Vocação é Cagar); Esses dias vi o açougueiro/ Fui coar café no banheiro/ Aí não faço esse tipo de negócio/ Negar a morte do leiteiro (…) (São Paulo). Realizando intertextualidade com Bandeira, demonstra também uma preocupação com temáticas sociais: Vejo agora um bicho/ No restaurante do Paço/ Metendo yakissoba entre os dentinhos./ quando encontra alguma carne,/ Não examina nem cheira;/ engole com voracidade./ O bicho não é um cão,/ Não é um gato,/ Não é um rato./ O bicho, meu Deus, é um homem? (Um Bicho).

A poesia de Rogério, nessa breve análise, seria então irreverente, debochada, dialogando com situações e gírias ou palavras do cotidiano, bem ao gosto pós-moderno. Não enxergo, no entanto, uma literatura de gênero ou engajada. O poeta simplesmente busca, através de versos aparentemente chocantes e pouco convencionais, fazer-nos refletir sobre os absurdos de nossa sociedade atual, os papeis assumidos por todos nós no dia a dia que nos torna insensíveis e distantes uns dos outros.

Wellington de Melo, embora também fale de coisas atuais e subverta na forma e na abordagem de temas, escreve uma poesia menos irreverente, embora muito bem construída e inteligente. Dessa maneira, O Diálogo das Coisas, seu primeiro livro (2007), trata de processos de criação, diálogo com as palavras e especialmente a poesia: Aceito-te inconcluso/ como meus dias/ à tua espera/ à tua espreita/ à tua chama. (Legado, p. 17); No silêncio do nada/ repousas e esperas o momento do encontro,/ Nunca virá./ Teu algoz, acorrentado, te espera./ Espera./ Espera./ Espera. (Espera, p. 19); Cada ponto de fuga,/ foge/ formas, formo um espiral/ e teu dente menos forma/ forma um início de/ delírio/ e papeis se acumulam letra espiral/ respira e se verte entre a linha/ do horizonte/ vertical que agora uma rocha/ rompe em mil gotas/?o olho busca/?o ponto/ ?busca. ( Ponto, p. 41). Esse diálogo, porém, muitas vezes pode ser violento e não passivo; ou mesmo ajudar a refletir sobre os papeis sociais assumidos pelo poeta: Minha letra/ de sangue se alimenta/ Se não sangra,/ Dorme./ como bebeu a pluma/ Sangue e lágrima/ bebe a tecla/ a cada toque. (A letra bebe sangue, p. 30); E temo/ voltar à sombra minha/ ao que querem que seja/ ao papel que acham/ Que me cabe.(Autopoiesis, p. 35). Mas a poesia pode não ser suave; pode mesmo ser lâmina: Arde em brasa/ teu nome/ e aguarda, fera/ onde a língua se encerra/ do teu olho/ (lâmina)/ num suspiro/ toda carne lacera/ flamejante/ tua letra, pletora,/ pulsa/ serpente (…) (Lâmina).

Já seu segundo livro, Desvirtual Provisório (2008), reflete desumanização da nossa sociedade, advinda do contato com as novas tecnologias, metaforizado pela máquina.  Logo de início, o autor nos taça um perfil do momento angustiante em que vivemos: antes do tempo/ essa dor/ que me rasga o estômago/ que me acompanha/ latente(DOR, p. 18); neste tempo de c@l & treva/ de concreto & silício/ foi que finalmente a M@quina/ roubou e mim a palavra/ Que me fazia humano,/Que me imprimia a dor:/ o horror/ o horror/ o horror (DESVIRTUAL PROVISÓRIO – I, p. 31)

Essa “máquina”, metáfora da condição pós-moderna que esmaga o homem, fragmentando seu ser em diversas partes, não saciando sua sede de existência e dignidade, persegue o poeta, trazendo-lhe angústias: meu sonho/ entre os pés da M@quina/ escorre/ entre/ seus dedos (O PISASSONHOS, p. 33). Pois, como afirma Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, em prefácio a esta obra: A sua poesia (de Wellington de Melo) em tudo diferente – pela temática única perseguida e pela linguagem despida de artifícios lingüísticos para se tornar mais grito e mais protesto: “não alimenta a paz minha pena” – que se fazia construída num crescendo, toda centrada e bem dividida e que nos leva da Proto-Máquina, à Máquina, à anti-Máquina, à Hiper-Máquina e de volta ao Pó, de onde vem o Homem e para onde irá finalmente; ‘minha voz morre/ no momento em que a Máquina/ marcha mecânica sobre meu sonho” (p. 8).

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