Novo cenário da literatura em Pernambuco: Urros Masculinos

Vários temas trabalhados no livro expressam essa preocupação do poeta com a desumanização atual. Assim, em Babel, lemos: é tamanha a solidão/ ilha/ & tu a meu lado/ ilha/ & tua meu lado (…) & essa torre/ que é meu dia-a-dia/ Essa torre/ que somos, náufragos/ esse sonho/ que abandonamos/é uma escotilha/ para outro sonho roubado/ & tu a meu lado/ ilha (p. 37). Ambientando essa paisagem pós-moderno á nossa cidade, Welington descreve o vazio e descrença do cidadão comum frente aos problemas que aind anos afligem no limiar do século XXI: (d)um menino celestial/ na Conde da Boa Vista/ puxando uma bolsa vazia/ vazia como o sonho/ como o estômago/ vazio o medo/ vazio o futuro/ vazio como minhas palavras/ v a z i a s/ vazio como meu sorriso de domingo/ vazio/ eu como meu sorriso de domingo/:a Fome não é high-tech (OGUM HIGH-TECH, p. 61).

O consumismo e o conformismo, conseqüências da fragmentação contemporânea, aparecem em dois poemas:ConsumaEu me abandonoconsumo&/ sou/ só número/ consumo &/ números/ me consomem/ (consuma-se/ a pena)/ mas/ apenas/ me diga: se consumo/ se sou/ ou se só/ existo (só)/ se com soma/ se consumo (p. 39); eu me abandono/ & te desejo morta,/ M@quina/ & enquanto te esqueço,/ te ignoro,/ eu me abandono/ eu me abandono/e u  me  a b a n d o n o (p. 53)

Nesse dilema de não ser sendo, energia que impulsiona ora passividade, ora reação, Wellington exclama: teu dedo/ move/ a M@quina/move/ teu dedo & a M@quina/  m o v e m/ o sonho/ imóvel/ a M@quina/ remove/ o sono(AUTÔMATO, p. 38).

Embora à primeira vista pareça ao leitor que o [desvirtual provisório] esteja impregnado de pessimismo e conformação, o poeta frustra semelhante impressão, ao afirmar a supremacia da poesia em relação à desesperança e desespero hodiernos: antes de todo o caos/ depois de toda a paz/ em mim/ havia o poema(ANTES HAVIA O POEMA, p. 17).  Como um médico que receita um medicamento ao paciente, consciente da possibilidade da cura, recomenda: quando a dor te sangra/ profunda/ & queres cortar a carne/ que te aprisiona esquece/ toda &qualquer/ ferida leve/ larga/ punhal/ navalhas/ :canivetes/ toma/ l@pis/ papel/ & lágrima/ rasga/ fundo/ em verso/ a alma (AUTO-FLAGELAÇÃO, p. 19). Pois é na poesia, amante e mulher, que o poeta se sente acolhido para afirmar sua identidade nesse mundo multi-inter-hiper-identitário.  Recebendo-a, afirma: são tantas/ as que me batem à porta/ as letras/ que as recebo/ -silente martírio/ enquanto/ me arrebentam o peito/ & passivo/ as observo/ dizer-me/ quem sou(IDENTIDADE, p. 21).

Como falei em ensaio anterior, esse livro de Wellington tem sabor de novo; não somente na temática – uma crítica bem elaborada à nossa era pós-moderna, pós-industrial, “pós-tudo”, como diria Jomard Muniz de Brito: a palavra escorre pela janela/ & com fúria de um náufrago/ minha voz na rede/ sucumbe/ (…) Mas navego/ & não h@ horizonte/ & não h@ porto/ & não h@ pó./ apenas um sonho só (NAVEGO, p. 44). Mas porque desponta como detentor de uma escrita original, reflexiva, por vezes autocrítica ou mesmo contraditória. O que não é nenhum pecado no nosso tempo, repleto de fragmentações descontnuidades e mesmo superficialismos em todos os campos, quiçá na literatura.

Por meio dessa breve análise das obras ainda em construção desse jovens autores, podemos concluir que elas refletem a inquietação, o não-conformismo, a quebra de tabus e posturas artísticas confromadas. Percebemos isso em Wellington, com poemas que refletem a relação do homem com a máquina, e da literatura com a tecnologia, a desumanização da arte; e em Artur, ao promover uma reflexão sobre a chamada literatura de gênero, engajada, gay. Metafóricos, irônicos, sarcásticos e iconoclastas. Diferentes em suas estéticas e propostas, esses dois poetas representam o que de mais inovador vem sendo feito na atual literatura contemporânea em Pernambuco, inclusive em relação à movimentação cultural, além da sua peculiar produção literária.

Por André Cervinkis. Artigo publicado no site Interpoética e no livro “Outros ensaios de circunstâncias”

 

REFERÊNCIAS

MELO, Wellington de. O diálogo das coisas. Recife: Ed. Universitária, 2007.
______. [desvirtual provisório]. Bauru: Canal 6, 2008.
ROGÉRIO, Artur. O Centro da Cabeça. Recife: livro, 2006. Manuscrito.
______. Esse Senhor – 22 Poemas de Contrição. Recife: livro, sem data. Manuscrito.
______. Francisco – O Jogo dos Bichos. Recife: livro, 2008. Manuscrito
_____. Recebi as Flores Dela. Recife: livro, 2009. Manuscrito.

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