Entrevista no jornal Gazeta Nossa

Entrevista publicada no jornal Gazeta Nossa, ano V,  nº 90, dez. 2010.

Por Cássio Cavalcante


Cássio Cavalcante: A seu ver, como está a cena literária pernambucana?

Wellington de Melo: A meu ver existem cenas, não uma cena. Por exemplo, uma de exportação, de autores que recebem prêmios nacionais, consagração dos que vêm construindo uma sólida carreira ao longo do tempo – vejo isso mais na ficção que na poesia. Por outro lado, existem jovens autores que estão se lançando e colocando suas obras à vista agora, recebendo as primeiras carícias e os primeiros tapas. Também existem os poetas independentes, ou urbanos, como alguns gostam de se chamar, que sempre produziram e continuam produzindo, recitando etc. Há o pessoal que está mais ligado à academia, os que transitam por diferentes  meios, há os reclusos, que produzem, mas não são vistos nessa ‘cena’. E há também os que fingem escrever, que estão mais preocupados com as colunas sociais.  Enfim, é uma fauna muito vasta essa nossa. Diria que é uma cena plural. Pronto, para ficar num adjetivo.

Cássio Cavalcante: O novo e o tradicional são irmãos na literatura pernambucana?

Wellington de Melo: Não vejo essa contraposição entre o novo e o velho, porque isso é relativo. Vejo, talvez, contraposição entre boa literatura e literatura medíocre, o que no final das contas também é relativo, é um ponto de vista. Assumindo essa relatividade do meu ponto de vista, o que é novo pode ser excelente ou medíocre. O que é velho também. Não enxergo nesses termos. Vejo novidade em Alberto da Cunha Melo, mas não vejo em textos nascidos  empoeirados, com um discurso pisado, de alguns jovens. Meu primeiro livro, por exemplo, acho um horror. Não leiam. Agora, essa coisa de irmandade, acho negócio de seita secreta. Essas relações se dão no campo pessoal, não no institucional.

Cássio Cavalcante: Como a poesia feita aqui interfere em nossa sociedade?

Wellington de Melo: O que vou dizer irritará extremamente os poetas, mas, em termos práticos, em nada. As políticas públicas nas últimas décadas foram mudadas por conta de um poema ou da atuação de poetas enquanto poetas? Não falo de poetas que são gestores  públicos, falo do poeta mudando a sociedade enquanto poeta. Para ser mais realista: pelo menos as políticas públicas de cultura mudaram por conta dos poetas? Acho que não.  E não vejo crime nisso, porque a função do poeta – veja, essa é minha opinião, falo de minha visão enquanto poeta no século XXI – é tocar mais fundo no simbólico, é ir além dessa construção imediata da mudança social. Escrevo porque dói, porque quero entender o mundo e me entender. No processo várias coisas acontecem, inclusive ajudar outros a se compreender e a compreender a sua realidade. Daí a fazer essa pessoa interferir nela, é um passo longo. Mas não entendam que prego a alienação do poeta, muito pelo contrário: apenas acho que o trabalho do poeta é o de cavar a base da muralha com uma colher de chá, não com uma britadeira.

Cássio Cavalcante: A FreePorto terá apenas três edições? Por quê?

Wellington de Melo: Essas são opiniões minhas. Não sei como Artur e Bruno veem isso. Primeiro: porque trilogias são legais. Porque, uma vez que a subversão do formato se transforma num formato, perde sua natureza criadora.  Porque o objetivo da FreePorto não é ganhar dinheiro com um evento literário que entre para o calendário da cidade. Porque o objetivo da FreePorto é como o do poeta com a colher de chá da minha resposta anterior: mexer com o simbólico, provocar os donos do castelo, mesmo esperando o piche quente no lombo, futucar a concepção do que vem a ser uma festa literária, refletir sobre sua real necessidade etc. Não interessam muito os frutos imediatos disso. A FreePorto é uma festa literária às avessas e propõe uma visão crítica sobre o classemedismo que rodeia o meio cultural. O classemedismo é o novo elitismo. A subversão e a porralouquice também, só com nomes diferentes. A FreePorto tenta ir além disso, ao contrário do que possa parecer. Andei tendo algumas discussões acaloradas recentemente porque essa visão classe média é um paradigma, é algo tido como o normal, quando é apenas uma leitura possível do mundo. Acredito que toda obra de arte deveria tirar você do seu ponto de equilíbrio, da sua zona de conforto. Tudo fora disso é mediocridade, é filho do cotidiano e merece ser esquecido no dia seguinte. Maria do Carmo disse num poema: “Vim para ficar /  não tenho parte com as coisas transitórias”. Talvez essa seja a utopia da FreePorto: permanecer em sua efemeridade.

Cássio Cavalcante: O evento FreePorto atendeu as suas expectativas?

Wellington de Melo: Não temos expectativas sobre a FreePorto. Pelo menos não nesse sentido imediato. A FreePorto é uma construção simbólica. Este ano temos objetivos completamente diferentes dos do ano passado, porque este ano a FreePorto é um livro vivo, que pretende misturar realidade e ficção, ir além da mistura do leitor e do autor ou da sucessão de mesas de bate-papo. A FreePorto é muito mais um conceito, que talvez não entendamos bem ainda e que provavelmente só depois será entendido plenamente. E não medimos isso através do público alcançado, dos números de vendas de livros ou da opinião da imprensa. O buraco é mais embaixo. Mas Alice nos disse que um dia chegamos lá.

Link original: http://www.ea.gazetanossa.net.br/gaz90.pdf

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