As coisas, o medo e depois

Paz acreditava que, na época moderna, desaparecia o mundo como mitologias, como imagens. E, em lugar, chegavam as realidades da técnica, condenadas a serem negadas por novas realidades. Essa é a primeira conseqüência. A segunda é a aceleração do tempo histórico, que culmina numa negação do tempo infinito, da mudança como processo evolutivo, marcado pelo progresso e pela renovação. Assim, “o mundo pode acabar quando menos se espere. […] a mudança já não é sinônimo de progresso, mas de repentina extinção” (PAZ, 1991:100).

De tal maneira, sob a emergência da fragilidade técnica e à beira da extinção, aonde pode ir a poesia?


Concluo: a técnica muda a poesia e mudará cada vez mais. Não podia ser de outro modo: sua intervenção afeta a transmissão e a recepção de poemas como os métodos para compô-los. Mas essas mudanças, por mais profundas que nos pareçam, não a desnaturam. Ao contrário, devolvem-na à sua origem, ao que ela foi a princípio: palavra falada, compartilhada por um grupo
.

Paz, 1991:105

Poesia que é reconciliação, retorno à unidade, dos signos e do sensível. Pois ela reflete o homem de nosso tempo, um “emissor de símbolos”, em que dois se destacam: o abraço dos corpos e a metáfora poética, que são o princípio e o fim.


No primeiro: união da sensação e da imagem, o fragmento apreendido como cifra da totalidade repartida em carícias que transformam os corpos num provedor de correspondências instantâneas. Na segunda: fusão do som e do sentido, núpcias do inteligível e do sensível. […] Somos bem pouca coisa e, não obstante, a totalidade mexe conosco, somos um sinal que alguém faz a alguém, somos o canal de transmissão: através de nós fluem as linguagens e nosso corpo se traduz a outras linguagens. […] A floresta das significações é o lugar da reconciliação.

Op. Cit. 1991:114-115

Se no primeiro título, O Diálogo das coisas, temos um vislumbre da obra que pode Wellington de Melo, nos outros dois o poeta perpassou os temas elencados por Paz.

Em [desvirtual provisório], como notou André de Sena, encontramos uma “inadequação à realidade típica do modo ultrarromântico, com as tradicionais hipérboles do discurso melancólico disfórico” (2010:516). A melancolia de Wellington se opõe à “euforia tecnológica típica do hodierno”. Aquela fragilidade de um mundo sustentado na técnica é evidenciada. N’O peso do medo, o sentimento de extinção vai além da técnica, espreita o autor em qualquer esquina, cotidianamente. A fúria é réplica, uma desesperada resposta ao medo, sentimento explicitado logo no texto de abertura, Arte poética:


[…] morto ventre de livros oróboro prateleiras silêncio pó esse livro não é carne e sangue é mais uma máscara que se arrasta já nada há pra dizer nada esse livro mais medo menos fúria mais fuga de terminar devorador de umbigos ou de seguir cinza ou de ser um dos jovens sérios de fernando monteiro ou de ser raíz e tumba […]

arte poética, Melo, 2010:14

A estrutura do livro constrói a impressão de inevitabilidade, medo e fúria são dois satélites/reações que parecem guiar o leitor ao fim das coisas, a “um varal de esperanças apodrecidas”, onde a violência já não poderá mais, em que o poeta não poderá, tampouco o leitor. Até que, no instante final, em Art  r Rog  rio, como resume Bruno Piffardini,

[…] a curva atinge seu ponto mais descendente, voltando a voz resignada do poema “Wellington de Melo” – a fúria parece arrefecer, o texto toma pela primeira vez no livro um formato comum de versos e estrofes. Wellington retornou de sua epopeia e tudo volta ao lugar. Mas agora ele está plenamente consciente de seu medo. Sua fúria não foi catártica, e sim contemplativa como um grande exercício zen. A fúria de vinte e nove poemas endureceu seus terminais nervosos para que seu medo conhecido e consentido revele sua coragem.

Piffardini in Melo, 2010:83

O próximo passo seria a conciliação? Como no pensamento de Octavio Paz, terá Melo se lançado no mar revolto de nossa longa era da racionalidade, passado pelas grandes imagens e seu ocaso, pela técnica e sua fugacidade, pelo sentimento de negação da negação, de fim das coisas. E, forjado por medos e fúrias, nesta ultramodernidade, estará pronto para criar sobre a esteira da conciliação, terá vontade e meios de levar à sua poesia o esforço de unir símbolos e sensível, que tanto ele tem demonstrado em suas atividades como agitador cultural?

Vencido esse ciclo, completado o giro, talvez Wellington de Melo consiga voz, material e combinação que o elevem acima da média. Caso não, continuará progredindo e se estabelecendo como bom poeta que é – e isso já é bastante.

Por Cristiano Ramos, publicado no site NotaPE

 

REFERÊNCIAS

MELO, Wellington de. O diálogo das coisas. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2007.

________. [Desvirtual Provisório]. Bauru, SP: Canal6, 2008.

________. O peso do medo. Recife: Paés, 2010.

Paz, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

WANDERLEY, André de Sena. Resenha de [desvirtual provisório]. Recife: 2009. Disponível em:

<https://www.wellingtondemelo.com.br/site/category/imprensa/critica/>. Acesso em 2 de jan. 2010.

________. Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico. Recife: O Autor, 2010. 540 folhas.Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Teoria da literatura, 2010.

Etiquetas:
, ,
Sem comentários

Comente