Barba ensopada de sangue: lirismo preciso sem egolatria

Romance premiado de Daniel Galera oferece ao leitor uma experiência lírica sem frescura

Barba ensopada de sangue  (Cia das Letras, 424 páginas), do escritor gaúcho Daniel Galera, recebeu no ano passado o Prêmio São Paulo de Literatura. Prêmios não são garantia de que o leitor sairá satisfeito da experiência de leitura, mas no caso deste romance , podemos enfrentar as mais de quatrocentas páginas do livro sem medo de nos decepcionarmos.

O enredo é relativamente simples: um professor de educação física, depois de uma decepção amorosa e da morte de seu pai, decide mudar-se para uma pequena cidade litorânea de Santa Catarina, onde, segundo seu pai, o avô teria vivido nos anos sessenta até ser misteriosamente assassinado. Quem espera um thriller ou um livro de suspense  só se satisfará parcialmente. O autor consegue amarrar o leitor lançando ganchos que vão descortinando o passado sombrio do parente e vamos sendo empurrados por essa curiosidade. Mas esse não parece ser o objetivo principal do autor, que usa a trama como isca para construir um romance sobre a busca da identidade. Não chega a ser um tema original, mas os vários elementos incluídos no livro, além de uma técnica muito precisa, colaboram para que seja uma obra memorável.

Personagens

Os personagens do livro seguem a técnica tradicional de mesclar planos e redondos, como explica James Wood em Como funciona a ficção (Cosac Naify, 224 páginas). O avô é talvez o personagem mais complexo, porque se revela na ausência de um discurso e através dos relatos dos outros. Há uma tensão muito bem construída em torno dele, pelo medo que desperta nos moradores, o que lhe confere uma atmosfera mítica, à beira do fantástico. Com isso, a imagem que o leitor constrói dele vai se complementando à medida em que a história avança, com algumas reviravoltas e um jogo constante de mostrar e ocultar.

A escolha de Daniel Galera pela profissão do protagonista deu um sabor diferente ao livro. Um professor de educação física com certa aversão pela leitura refresca nossa fauna de protagonistas da ficção brasileira contemportânea, que não raras vezes nos tem brindado com maçantes protagonistas escritores ou jornalistas, excessivamente autobiográficos. Claro que notamos a mão do scriptor nesse personagem gaúcho, branco, heterossexual de classe média, mas há um exercício de alteridade aqui e até certo cinismo frente à arrogância dos escritores – o irmão escritor do personagem é sempre tratado de forma ácida, embora ele tenha motivos pessoais para tal.

Foi uma sacada muito interessante propor um protagonista portador de uma síndrome muito rara que lhe impede de memorizar o rosto das pessoas. Isso é usado de diversas formas na trama, mas também se reflete, através do discurso indireto livre, na maneira de narrar. Daí talvez porque os cenários são tão valorizados na narrativa – já falaremos sobre isso – e a descrição do rosto do pai que abre o livro seja tão precisa e distante: o começo, que parece anunciar um livro enfadonhamente descritivo, na verdade é extremamente coerente com a personalidade do protagonista.

O uso dessa deficiência como recurso para modular a dicção, aliás, é algo que diferencia a literatura verdadeira da simples pasteurização. Para citar um exemplo, o fato de Percy Jackson ser disléxico parece simplesmente um gancho para jornalistas ou isca para leitores… disléxicos e deslocados. Não há nisso uma decisão estética: nada, absolutamente nada, na linguagem usada pelo autor da série do Ladrão de Raios, remete a essa peculiaridade da personagem. Limita-se o autor apenas a colocar aqui e ali cenas que nos fazem lembrar “Ah, ele é disléxico”. Como dissemos, isso não acontece com o protagonista de Barba ensopada de sangue, graças ao cuidado com a linguagem que Galera tem. O uso da deficiência, que tem o nome de prosopagnosia, lembra o personagem de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, de Rubem Fonseca, que sonha em branco, uma das imagens que mais marcaram minhas leituras adolescentes.

Outros personagens, mais planos, não conseguem alcançar o mesmo apuro, embora se entenda que tenham funções muito claras de muleta ou de interlocutor privilegiado do protagonista. Bonobo, dono de uma pousada e budista hardcore – você precisa ler para entender esse neologismo – serve como ouvido para o protagonista, mas também quase como desculpa para o autor inserir alguma filosofia oriental na trama, só que de uma maneira tão peculiar que não chega a prejudicar o romance, mesmo que aqui ou ali se sinta algo forçado nos diálogos do semi hippie, que tem um fusca velho chamado de Tétano.

Cenário

Coloco como um item separado, mas o cenário poderia se enquadrar no tópico sobre personagens, que é o que acaba sendo esse organismo vivo que Galera constrói. Grande habilidade demonstra na construção do cenário da cidadezinha de Garopaba, um balneário típico do sul, que está longe do calor das praias do Nordeste e que é o “balneário possível” para o clima da região. Impressiona como o leitor vai sendo envolvido no cenário que Galera levanta, ao ponto de quase sentirmos cheiro de maresia e peixe ao abrir as páginas do livro.

Ao mesmo tempo, o cenário não é descrito de forma passiva, não é apenas um item de composição. Sutilmente o narrador associa a hostilidade da natureza do lugar com a hostilidade crescente que vai sentindo o protagonista com relação aos moradores. Da mesma forma, as construções se desenham em sua decadência sazonal e a passagem do tempo é percebida ao lado da degradação psicológica do narrador: a cidade em frangalhos e abandonada durante o inverno parece ser o duplo do narrador em sua solidão, ou reflexo de seu estado de ânimo. O mar é um capítulo à parte, e se contrapõe quase como um antagonista épico. Sem dar spoiler, destaque para umas das cenas finais, com direito a uma chuva torrencial que culmina numa tempestade de relâmpagos que daria uma sequência cinematográfica memorável.

Técnica e tempo

Daniel Galera, nesse Barba ensopada de sangue, também dá uma aula de como construir um romance com técnica e paciência. As cenas preparatórias vão sendo apresentadas sem a sensação de “Ah, isso vai influenciar lá na frente”. O leitor é conduzido pela trama com despistes e engodos, num movimento constante de tencionar e afrouxar, com falseamentos de tragédia e gotas de humor, em cenas precisas e sem a verborragia que um romance de mais de quatrocentas páginas pode sugerir. A verdade é que o autor é muito generoso ao garantir ao leitor uma leitura com prazer, mas não larga de mão a técnica apurada, sem cacoetes egolombrados de certa ficção contemporânea. Gosto também de ver elementos da nossa geração representados sem forçar a barra, como as noites com marmanjos jogando PS2 e tomando cerveja.

Galera exercita, neste seu romance, sua capacidade de, com paciência, urdir uma narrativa instigante e única. A título de curiosidade, o autor coloca, de maneira didática e honesta, uma nota no começo do livro sobre os elementos biográficos que inspiraram a história, o que só confirma para o leitor sua inventividade. A maneira abrupta com a qual finaliza o romance pode causar estranhamento a alguns, mas em última análise é um romance que merece o investimento de tempo do leitor, que vai guardar na cabeça algumas de suas imagens totalmente despretensiosas, mas de um lirismo pop sem igual.

[uxb_heading text=”SERVIÇO” type=”h4″ has_line=”false” icon_size=”16″]

Barba ensopada de sangue (romance)
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Ano de lançamento: 2012
424 páginas
Preço médio: R$ 28

Etiquetas:
2 Comentários
  • Fred Caju
    Postado às 11:58h, 15 janeiro

    É um dos romances que mais tenho indicado para os próximos. Tive a mesma impressão do cenário como personagem. O livro me fez ir atrás do que o Galera já tinha escrito, acredito que o Barba… seja o mais instigante dos seus romances. Achei o final abrupto, como você mesmo disse, muito bom. Taí um livro que ficou bem aberto de possibilidades, a impressão que tive é que se o autor quisesse escreveria mais 424 sem repetir nada do que foi contado.

    * Dá uma olhadinha no §3 do personagens: “Isso éue é usado de diversas formas na trama”.