Emily Dickinson

Emily Dickinson e a estrangeirização

Em seu breve ensaio A estrangeirização: aspectos (in)formais de uma gramática poética, o crítico e tradutor José Lira, especializado na poeta americana Emily Dickinson, discorre sobre o conceito que cunhou para denominar o que considera talvez uma das características mais marcantes da obra da autora, qual seja, a manifestação de “certos traços biografemáticos” que dão a seus poemas uma “dicção estranha à sua língua e a seu tempo e a seu lugar”: a estrangeirização.

 

dicotomias poéticas

A primeira dicotomia apresentada por Lira é o binômio platônico-aristotélico inspiração/trabalho, que não raras vezes se utiliza para determinar a natureza da criação poética. Mais do que defender um ou outro princípio, o autor prepara sua argumentação para analisar o traço da estrangeirização em Dickinson como um processo consciente e, por isso, fruto de um projeto poético sólido e não, como seus críticos contemporâneos consideravam, marcas das fragilidades da autora.

Para isso, todo o ensaio Lira gira em torno do verbete que cria pra definir seu conceito mais caro e delimitar o que seria uma “gramática poética” da autora. O procedimento é bem didático, mas chama a atenção a precaução do autor em delimitar o fenômeno à obra de Dickinson, um movimento natural na academia para sedimentar novos conceitos, talvez como a polifonia de Bakhtin, a princípio restrita a Dostoievski.

A precaução, no entanto, deixa uma margem, embora ainda tímida, para a ampliação do uso do conceito, ao afirmar que embora restrito à obra de Dickinson, envolve também “todo esse estágio inicial de inquietação inerente ao ato de escrever, comum a todos os escritores”. O autor, generosamente, mas não sem alguma vaidade, submete o conceito ao escrutínio de outros teóricos e o oferece para a análise de outras obras que não as da americana, muito embora, mais adiante, restrinja o uso deste conceito a estudos comparativos com a obra da autora, e aqui nota-se outro movimento de demarcação de terreno teórico.

 

dickinson e contemporâneos

Com efeito, o conceito de estrangeirização parece ser bastante útil para analisar certa produção poética contemporânea que denota similar modus operandi de recriação de uma linguagem estrangeira dentro da própria língua, através de aspectos formais, sintáticos, temáticos etc. Lembramos um Artur Rogério, ainda inédito em livro, como autor em que essas marcas aparecem de forma insinuante, uma poética que busca uma língua propositalmente torta, alheia tanto ao cânone como às variedades não-padrão: não se trata, como em Dickinson, de emular variedades populares não-canônicas: a estratégia parece ser a de buscar uma língua de entre-lugar, uma interlíngua, a que os aprendizes de línguas estrangeiras desenvolvem no processo de aquisição da língua alvo. Lembremos, também, que é assim que denominamos o portunhol, essa língua de transição utilizada por interlocutores lusófonos e hispano falantes.

Voltando a Dickinson, Lira apresenta em seu ensaio diversos exemplos a partir da análise de poemas da autora, quando enumera aspectos formais e informais visíveis em sua obra que seriam manifestações da estrangeirização (a extensão dos poemas, a ausência de títulos, a elaboração ou a falta de elaboração de certos versos, marcas da oralidade etc.).

Nem sempre os exemplos, a nosso ver, são convincentes ou comprovam o projeto deliberado da autora em sua criação. A despeito dessas discordâncias, o ensaio de Lira cativa pelo estilo leve e didático do autor, sem deixar de ser preciso nos momentos de fixação de conceitos, mas aventurando-se na linguagem, como não poderia ser diferente a um seguidor de Dickinson.

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