Tipos de narrador

Tipos de narrador

Um dos aspectos mais importantes que um autor de ficção deve levar em conta, mesmo antes de começar um projeto de escrita, é escolher entre os tipos de narrador que utilizará. Essa decisão determinará não apenas aspectos relacionados ao enredo, mas influenciará a própria tessitura da linguagem de sua obra.

Neste sentido, o teórico Gérard Genette tem uma contribuição essencial no estabelecimento de uma categorização dos tipos de narrador, em função de sua participação no universo ficcional, também chamado de diegese, com respeito a seu papel frente aos eventos narrados etc. Por outro lado, Norman Friedman apresenta uma tipologia que aprofunda diversas questões sobre o narrador, envolvendo o grau de acesso à consciência das personagens, sua confiabilidade, seu grau de marcação textual etc.

Por isso, nesta postagem, reproduzimos trechos de um artigo de Flávia Roberta Menezes de Souza, publicado na Revista Nova Amazônica [1. SOUZA, Flávia Roberta Menezes de. “Tipos de narrador e novas discussões em narratologia”. Revista Nova Amazônia. Ano V, vol. 3. Set. 2017. Bragança: PPGL-UFPA. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/nra/article/download/6309/5068, Acesso em 30 abr. 2020], que pode servir de texto de apoio a quem quiser ter uma noção inicial desses conceitos.

 

Tipos de narrador

Gérard Genette (1995), em O discurso da narrativa, retomando a questão em torno do discurso e da narrativa, contribui para o estabelecimento de conceitos que, posteriormente, passaram a ser amplamente utilizados em estudos e trabalhos sobre narrativa, narrador heterodiegético e homodiegético em substituição às definições narrador em primeira pessoa, narrador em terceira pessoa, tradicionalmente também conhecidas:

 

A escolha do romancista não é feita entre duas formas gramaticais, mas entre duas atitudes narrativas (de que as formas gramaticais são apenas uma consequência mecânica): fazer contar a história por uma das personagens, ou por um narrador estranho a essa história. A presença de verbos na primeira pessoa num texto narrativo pode, pois, reenviar para duas situações muito diferentes, que a gramática confunde mas a análise narrativa deve distinguir.

(GENETTE, 1195, p.243)

Genette estabelece, então, um quadro que determina os tipos de narrador quanto à sua inserção na diegese (história) e ao nível narrativo a que pertence: extradiegético-heterodiegético; extradiegético-homodiegético; intradiegético-heterodiegético; intradiegético-homodiegético. (para formatar). Se é clara a compreensão do que seja heterodiegético e homodiegético quando se conhece a superada classificação narrador em primeira pessoa, narrador em terceira pessoa, é possível dizer que as classificações extra- e intradiegético dizem respeito à posição do narrador em relação ao nível narrativo, uma vez que é possível o narrador pertencer ao primeiro nível da narrativa e, posteriormente, dentro da história, outro narrador surgir e “se habilitar” a narrar outra história. Tem-se, assim, uma história dentro da história, e os narradores de ambas encontram-se em níveis diferentes, pois falam de lugares diferentes.

 

Tipologia de Schmid

Genette, nesse mesmo trabalho, apresenta uma outra maneira de pensar o narrador, que é a focalização. A focalização diz respeito ao conhecimento que o narrador tem sobre a história em comparação com o conhecimento que o personagem tem. Genette adverte que a focalização “nem sempre se aplica ao conjunto de uma obra, portanto, mas antes a um segmento narrativo determinado, que pode ser muitíssimo breve” (GENETTE, 1995, p. 189). Trata-se de uma questão importante, mas que nesse momento apenas será citada para retomar a tipologia de Friedman apresentada por Lígia Leite que relaciona tipos de narrador e ponto de vista como sendo um fenômeno apenas. Ao apresentarmos a proposta traçada por Wolf Schmid (2010), para uma tipologia de narrador, apontaremos as suas críticas em relação à abordagem que o assunto vem recebendo ao longo dos anos, conforme o quadro a seguir:

Critérios Tipos de narrador
Modo de representação Explícito-Implícito
Status diegético Diegético – Não diegético
Hierarquia Primário – Secundário – Terciário
Grau de marcação Fortemente marcado – pouco marcado
Pessoalidade Pessoal – impessoal
Homogeneidade Compacto – Difuso
Posição avaliativa Objetivo – Subjetivo
Habilidade Onisciente – Conhecedor Limitado
Fixação espacial Onipresente – Fixo em um espaço específico
Acesso à consciência dos
personagens
Expressa – Não expressa
Confiabilidade Confiável – Não confiável

 

 

Tabela.1- Critérios estabelecidos por Schmid para uma tipologia de narrador

 

O narrador em Os habitantes

Schmid (2010) estabelece onze critérios para se pensar a tipologia do narrador. Quantitativamente, trata-se de um painel mais criterioso, mas o ganho está na distinção entre tipologia e ponto de vista na narrativa. Um narrador não diegético, por exemplo, pode assumir o ponto de vista de um dos personagens para narrar determinada situação e nem por isso ocorre uma mudança de tipos. É o que acontece por exemplo em um dos romances de Dalcídio Jurandir, Os habitantes:

 

Calou-se com muito embaraço e igual reserva. Calou-se. Calado. Está ouvindo o grito da irmã? A modo que foi ontem, a irmã arranca os três dias da folhinha, vai ao tabocal jogando terra nos bichos de criação: jogar nosso confete, senhoras e cavalheiros. É uma batalha. E aquele repente em que se enfia no velho fraque do pai, a máscara ela mesma fez, a cavalo para o pagode dos Ervedosas, tamanho sábado gordo, no Mutá. Precisou ir atrás dela, escondido da mãe, esta na fiúza que a filha só tinha ido desinflamar um pirralho no retiro com garapa de aninga. Flechou o galope atrás da irmã. Desajuízo dela era mais de contrariação que lhe faziam de não poder pôr o pé na cidade? Só? Estava entra-não-entra no pagode, oculta num mirizal, ali agachou-se, de fraque e máscara.

(JURANDIR, 1976, p. 36)

O narrador de Os habitantes não participa da história que conta, mas assume o ponto de vista do personagem ao narrar um episódio envolvendo a irmã desse último. É perceptível isso devido à linguagem usada pelo narrador, impregnada de um sentimento que só poderia pertencer ao personagem: “Desajuízo dela era mais de contrariação que lhe faziam de não pôr o pé na cidade?”. Nesse momento, não é a tipologia do narrador que se evidencia mas o ponto de vista assumido por ele na narrativa. Explicar o fenômeno apenas determinando que esse narrador é um narrador onisciente é não levar em consideração a complexidade da construção narrativa.

 

Narrador em Relatos de um certo Oriente

Em Relatos de um certo Oriente de Milton Hatoum, podemos também fazer uma leitura do tipo de narrador que atravessa a obra, segundo a proposta de Schmid: “quando abri os olhos, vi o vulto de uma mulher e o de uma criança. As duas figuras estavam inertes diante de mim, e a claridade indecisa da manhã nublada devolvia os dois corpos ao sono e ao cansaço de uma noite maldormida” (HATOUM, 2017, p.7).

Tem-se um narrador diegético, explícito e bem marcado. Conforme avançamos a leitura, percebemos que cada capítulo é narrado por um personagem diferente. Hakim é um dos mais importante, inclusive, pela quantidade de capítulos que narra. Mas é necessário observar certos aspectos que fazem toda a diferença. A primeira narradora do romance é responsável pela parte inicial do relato, enquanto que os demais personagens têm seus relatos adicionados à narrativa, marcados com aspas. Em outras palavras, há ali sempre a palavra de alguém, de um outro, que narra a partir do seu ponto de vista, exprimindo suas subjetividades: “tive a mesma curiosidade na adolescência, ou até antes: desde sempre. Perguntei várias vezes à minha mãe por que o relógio e, depois de muitas evasivas, ela me pediu que repetisse a frase que eu pronunciava ao olhar para a lua cheia” (HATOUM, 2017, p. 35)

Em Relatos de um certo Oriente, os personagens revezam o papel de narradores do romance, sem, no entanto, haver modificação no tipo de narrador. Essas considerações ajudam a pensar as técnicas narrativas presentes em romances e até mesmo estabelecer comparações entre obras. Podem ajudar a pensar por que determinada obra apresenta uma narrativa em que o tipo de narrador permanece o mesmo do início ao fim. Ou ainda, o que torna estável a presença de determinado tipo de narrador em uma obra? Essas questões ajudam a pensar a construção da narrativa, seus aspectos formais, para posteriormente relacioná-los aos aspectos internos da obra.

 

Narrador e narratário

Neste vídeo, falo um pouco sobre as instâncias da narrativa, com foco no diálogo entre narrador e narratário. Você pode também assistir a minhas aulas no meu canal do YouTube, onde abri uma série específica sobre foco narrativo. Assine o canal para receber notificações sempre que postar novo conteúdo.

 

Por fim, além deste artigo aqui citado, você pode aprofundar suas leituras sobre narratologia e tipos de narrador a partir de outros textos cujo link incluo logo a seguir. Alguns são artigos acadêmicos, com linguagem mais complexa, outros são escritos com uma linguagem mais acessível, embora alguns estejam em inglês.

Narratology. Lucie Guillemette e Cynthia Lévesque

Perspective – Point of View. Burkhard Niederhoff

Point of view. Literary Devices.

Narrative Voice vs Narrative Perspective. A Mind for Madness

Complete Guide to Different Types of Point of View: Examples of Point of View in Writing. Masterclass.

Perspectivas estruturantes: contribuições da narratologia pós-clássica para o estudo da focalização narrativa, Raquel Trentin Oliveira.

Foto de Dmitry Ratushny, do Unsplash

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