A escolha da capa de seu próximo livro

No meu texto que ensina como diagramar livros no Word, o leitor Thiago comentou: “Gostei muito, só senti falta de alguma dica sobre a capa e a contracapa”. Nesta pequena série de dois artigos, vou tentar responder à pergunta do Thiago e compartilhar com vocês um pouco de minhas preferências com respeito ao tema do design gráfico de capas. Siga o blog para não perder a sequência.

Esta será uma série prática, em que não vou fazer você perder tempo com muita teorização ou explicando a história das capas. Quais são os elementos de uma capa? O que normalmente aparece e como deve aparecer? Que dicas de design gráfico de capas daria para iniciantes? Essas são as algumas das perguntas que tentarei responder aqui e no artigo seguinte.

A capa importa em quê?

Por mais que digamos que não se deve julgar um livro pela capa, quem nunca pegou o olho numa e comprou o livro de cara por ela? Quem nunca escolheu uma edição, entre duas numa prateleira, por causa do design da capa. Atire a primeira pedra.

Uma boa capa não vai posicionar de forma diferente o livro numa prateleira ou numa gôndola, nem ajuda nos algoritmos (ainda). Tampouco obriga o livreiro mudar a ordem em que os livros são organizados. No entanto, sem dúvida capas bem elaboradas criam uma aura em torno de uma edição que favorece sua recepção.

Autores iniciantes normalmente têm grande expectativa sobre todo o processo e tendem a cometer erros na hora de tomar decisões sobre seu livro. Eu, por exemplo meti o bedelho na produção das primeiras capas de meus livros. Quando aprendi que não era bem o caminho, só fiz ganhar. 

“Então esse texto não é para eu escolher minha capa?”. Não: é para você entender que coisas deve levar em conta na hora de discutir com profissionais que vão te ajudar. Mais ou menos sobre saber o que é um alternador na hora de discutir sobre aquele barulhinho que ouviu no seu carro e não ser enrolado pelo mecânico. Mas, no final, é ele quem vai se sujar de graxa, não é?

Elementos de uma capa

A capa normalmente tem os seguintes elementos: capa, quarta capa (ou contracapa), lombada e orelha (opcional). Cada um deles segue algumas normas, sejam elas estabelecidas pela ABNT, seja seguindo tendências do design gráfico. Enquanto as primeiras são meio inescapáveis, dependendo da obra que pretenda publicar, as segundas são bem flexíveis e, às vezes, uma proposta que num ano era muito atual, cai em desuso no ano seguinte.

Isso significa que algumas das questões que posso tratar aqui estarão datadas e precisarão de atualização. Se perceber algo assim, não esqueça de comentar abaixo. A seguir, irei ao ponto central deste primeiro artigo: a capa. No próximo, trataremos dos demais elementos.

Capa e conceito

O chamariz de seu livro é a  capa, e ela normalmente vai ter o título, nome do autor e a logomarca da editora, além de poder ter alguma imagem representativa de seu livro ou chamadas comerciais, como indicação a prêmios. Capas pasteurizadas apenas reproduzem clichês envolvendo o tema tratado e são protocolares. Capas bem feitas devem captar o conceito mais importante de uma obra e traduzi-lo a partir do design.

Em alguns países, como a França, é comum termos capas mais minimalistas, em que não temos imagens, apenas uma cor chapada e as informações sobre autor e edição, incluindo a logo da editora. Quando uma capa tem apenas letras, chamamos de all-type.

Um aparte: sempre me pareceu curiosa essa tendência francesa e brinco que talvez seja porque eles são iconoclastas neoclássicos e nós brasileiros nunca deixamos de ser imagéticos barrocos. Por isso, nossas capas não prescindem de um chamariz de imagem. Vá se saber.

Capa all-type de Patrícia Cruz Lima

Mas uma capa all-type pode ser criativa e dialogar totalmente com o conteúdo de um livro. A capa de Patrícia Cruz Lima para O insistente inacabado (acima) é de uma sutileza incrível. Notem como o elemento das reticências é utilizado: ele começa na capa, continua na lombada e na orelha. 

Este elemento também foi aproveitado no miolo, dando um sentido de unidade ao projeto gráfico. As reticências como uma síntese do conceito de incompletude, núcleo da discussão teórica de Luiz Costa Lima, apresentada com elegância e simplicidade.

E o que essa capa nos ensina? Não adianta colocar a melhor fotografia que já viu em sua vida, se ela não sintetiza o conteúdo de seu livro. É preciso um diálogo franco com o designer, que precisa conhecer ao menos o briefing da obra, repassado normalmente pelo editor, para que a essência de um livro se perceba em sua capa. Pode ser um pequeno detalhe, uma cena marcante, que fará com que o leitor lembre imediatamente quando a ler e a associe à capa. 

Peso e proporção

Outra questão importante sobre a capa é a distribuição e a proporção dos elementos. O que deve vir em destaque: o nome do autor ou o nome do livro? Acredito ser uma questão mais comercial que de design gráfico (as duas questões não devem ir separadas, aliás). Quando o autor é o chamariz, destacasse o autor. 

Quando a obra é mais conhecida que o próprio autor, destaca-se a obra. Quando, pelo contrário, o nome do autor é um argumento de venda, destaca-se esse nome. Se você é um autor iniciante, controle seu ego.

No exemplo ao lado, a capa de Condenados à vida, do escritor Raimundo Carrero, privilegiou-se o nome do autor, com a fonte Gotham, que é generosa e com muita legibilidade. Percebam que optamos por ter dois pesos no nome do autor, porque ele é mais conhecido pelo sobrenome.

Nesse projeto, tivemos a ideia de usar uma jaqueta de acetato, onde foram impressas as informações, de modo que a capa tivesse apenas um elemento em branco, a maçã, elemento simbólico importante para toda a obra. Isso fez com que a ilustração de Hallina Beltrão fosse valorizada também.

O título, no entanto, também é muito poderoso, então o colocamos num corpo ligeiramente menor e com um peso também menor. Os olhos do leitor passeiam pela página guiados pelos pesos. Então, normalmente a ordem seria: Carrero, Condenados à vida, Raimundo. Jogar com os pesos e corpos é como jogar com cores complementares num quadro fauvista. 

Capa de Hallina Beltrão

Estudo de caso: Agá, Versão vermelha

Quando fui editor da Cepe, tinha sido incumbido da nova edição do romance Agá, o mais experimental de Hermilo Borba Filho. A capa original da edição da Civilização Brasileira de 1974, trazia a reprodução de uma das ilustrações do artista plástico José Cláudio que se encontram no miolo do livro. Hermilo inovou com um capítulo inteiro feito em forma de HQ.

A capa da nova edição de Agá seguiu uma lógica de contraste. É uma narrativa exuberante, barroca, com muitos narradores e uma experimentação de linguagem sem igual. Se a capa de 1974, com uma cena de tortura explícita funcionava melhor nos anos de chumbo, acreditei que precisávamos recuperar certa ironia que aparece na obra de Hermilo, com uma capa particularmente minimalista, que se contrapunha ao barroquismo da linguagem.

Por outro lado, a coleção de Hermilo da Cepe, que vem reeditando a obra do autor, até então tinha um projeto gráfico de capas que usava a mesma fotografia, mudando apenas o esquema de cores. Propus que fizéssemos algo diferente para este livro tão experimental e ainda pouco lido, de um dos autores mais inventivos do Brasil.

Soube que a viúva de Hermilo tinha propostas de ilustrações produzidas por José Cláudio em 1974, que não foram escolhidas na época e pedi que digitalizássemos todas. Uma dessas ilustrações, em tom avermelhado, trazia a apalavra “agá” com uma atmosfera oriental, escrita na vertical num fundo branco. Em discussão com o capista Luiz Arrais, chegamos a uma composição minimalista para a que chamaríamos “Versão Vermelha” de Agá. A primeira edição, a Versão Rosa, não tinha o capítulo que acrescentamos, em que o autor ficcionaliza a operação cardíaca a que se submeteu no início dos anos 1970, uma das primeiras do país.

Para acentuar o minimalismo da capa, usamos uma cinta de papel vegetal, em que foram impressas as informações suplementares e mais comerciais (Versão vermelha, Capítulo inédito, com ilustrações de José Cláudio. Na contracapa, recuperamos uma das cenas de espancamento e tortura do livro, um dos motivos que o fez ser quase silenciado na época do lançamento, e um trecho que julgamos particularmente belo do romance. O código de barras e a lombada ficaram me vermelho, remetendo ao nome da versão.

A cinta deveria ser posicionada exatamente sobre a letra “A”, de modo que a palavra “Agá” da lombada fosse coberta pelo vegetal, “ocultando” em parte o nome, como ocultamos ironicamente pelo minimalismo a verborragia de Hermilo neste romance. 

Isso se mostrou, depois, um problema para o departamento de finalização e para o comercial, mas acredito que faria da mesma maneira hoje. É um dos projetos pelos quais me orgulho de ter participado.

Capa de Luiz Arrais

Como escolher sua capa

Quando presto consultoria editorial a autores e autoras pelo país, gosto de dar sugestões sobre as capas, mas claro que isso é algo que deve ser discutido com a editora. Particularmente, acho que é importante que a editora se veja no projeto, que o livro tenha a cara da editora. Se você não gosta das capas da editora que escolheu, talvez seja uma boa pensar que você não vai mudar isso no seu livro. Repense o casamento.

Ao mesmo tempo, salvo raras exceções, os autores podem entender bastante do que escrevem, mas sabem quase nada sobre design gráfico. Deixe isso para profissionais e guarde aquela foto que você escolheu e que acha que é a cara de seu livro ou o desenho que você fez e que é quase a capela cistina. Vá por mim, o melhor a fazer é ouvir seu designer (assim como deve ouvir a voz divina de seu editor!). 

Neste texto, quis oferecer só alguns subsídios para você pode opinar sobre a proposta que a editora vai te enviar. Normalmente, as editoras não mandam mais que três propostas, então tente dar um resumo sobre o que seu livro trata, o que é importante para você, que mensagem subjaz, que referências são importantes, mas não queira monopolizar o processo. É a hora do capista brilhar, fica na tua.

Se você está num projeto independente, procure um profissional que te ajude nisso. Presto esse serviço, em colaboração com designers, como a Patrícia Cruz Lima, e pode ser uma opção. Mas há vários profissionais freelancers que pode buscar. Veja seu porfólio antes de contratar. Vale a mesma regra que para as editoras. 

Se quiser compartilhar o processo de escolha da capa de seu livro, deixa nos comentários!

 

Leitura Crítica

Um livro só está pronto depois de lido criticamente

A ajuda de um profissional de edição na hora de finalizar um livro é essencial para evitar o investimento em impressão em uma obra que não alcançou seu potencial. 

Com mais de dez anos de experiência, posso fazer a leitura crítica de seus originais, indicando o que precisa ser melhorado e apontando os pontos fortes. Será um prazer ajudar você nessa jornada.

Envie seu original
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2 Comentários
  • Theons
    Postado às 03:50h, 13 maio Responder

    So simply does not happen

  • Thiago
    Postado às 06:49h, 14 abril Responder

    Obrigado, Wellington!
    Aguardo pela próxima parte, tenho muito dúvida sobre lombada e orelha… Isso porque fiz meu livro todo no word e não sei como fazer essas coisas por lá.

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