{"id":5926,"date":"2017-05-25T08:33:06","date_gmt":"2017-05-25T11:33:06","guid":{"rendered":"http:\/\/wellingtondemelo.com.br\/site\/?p=5926"},"modified":"2023-05-22T10:08:45","modified_gmt":"2023-05-22T13:08:45","slug":"a-atmosfera-mitica-e-a-recriacao-do-mito-contemporaneo-em-tereza-tenorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/2017\/05\/25\/a-atmosfera-mitica-e-a-recriacao-do-mito-contemporaneo-em-tereza-tenorio\/","title":{"rendered":"O mito em Ter\u00eaza Ten\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row css_animation=&#8221;&#8221; row_type=&#8221;row&#8221; use_row_as_full_screen_section=&#8221;no&#8221; type=&#8221;full_width&#8221; angled_section=&#8221;no&#8221; text_align=&#8221;left&#8221; background_image_as_pattern=&#8221;without_pattern&#8221;][vc_column width=&#8221;&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nesta apresenta\u00e7\u00e3o <span class=\"footnote_referrer\"><a role=\"button\" tabindex=\"0\" onclick=\"footnote_moveToReference_5926_1('footnote_plugin_reference_5926_1_1');\" onkeypress=\"footnote_moveToReference_5926_1('footnote_plugin_reference_5926_1_1');\" ><sup id=\"footnote_plugin_tooltip_5926_1_1\" class=\"footnote_plugin_tooltip_text\">[1]<\/sup><\/a><span id=\"footnote_plugin_tooltip_text_5926_1_1\" class=\"footnote_tooltip\">1. Comunica\u00e7\u00e3o apresentada durante o I Col\u00f3quio de Estudos Contempor\u00e2neos, Universidade Federal de Pernambuco, 2006<\/span><\/span><script type=\"text\/javascript\"> jQuery('#footnote_plugin_tooltip_5926_1_1').tooltip({ tip: '#footnote_plugin_tooltip_text_5926_1_1', tipClass: 'footnote_tooltip', effect: 'fade', predelay: 0, fadeInSpeed: 200, delay: 400, fadeOutSpeed: 200, position: 'top center', relative: true, offset: [-7, 0], });<\/script>. tentaremos mergulhar no universo po\u00e9tico de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio, dona de uma poesia densa e de uma t\u00e9cnica primorosa. A autora j\u00e1 \u00e9 reconhecida internacionalmente, mas ainda desconhecida do grande p\u00fablico, fato compreens\u00edvel, dada a erudi\u00e7\u00e3o de sua escrita. Chama-nos a aten\u00e7\u00e3o em sua poesia \u2013 e este \u00e9 o foco de nossa an\u00e1lise &#8211; a presen\u00e7a constante do mito, conseguido n\u00e3o s\u00f3 numa busca no passado, mas na transmuta\u00e7\u00e3o do mundo vis\u00edvel, imbu\u00eddo, atrav\u00e9s de seu olhar l\u00edquido, de uma atmosfera m\u00edtica criadora.<\/p>\n<p>A simbologia teresiana nasce de um sistema universal, flertando com o inconsciente coletivo de Jung [2.\u00a0A pr\u00f3pria Ter\u00eaza o chama de \u201cpsicanalista alqu\u00edmico\u201d em seu posf\u00e1cio de \u201cMandala\u201d (1980:86). Acreditamos que as livres associa\u00e7\u00f5es junguianas s\u00e3o a chave para compreender o intricado sistema simb\u00f3lico teresiano, tema que merece um estudo posterior.], mas pouco a pouco evolui num movimento centr\u00edpeto em busca de um \u201cuniverso interior\u201d. Esse universo teresiano est\u00e1 repleto de s\u00edmbolos particulares que apenas uma an\u00e1lise profunda conseguiria desvendar. H\u00e1, no entanto, um aspecto que permeia toda a po\u00e9tica de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio e que ser\u00e1 o objeto de nossa breve explana\u00e7\u00e3o: a atmosfera m\u00edtica de seus textos.<\/p>\n<p>O mito em Ter\u00eaza n\u00e3o se entende apenas como uma revisita\u00e7\u00e3o aos cl\u00e1ssicos, mas uma (re) cria\u00e7\u00e3o de universos mitol\u00f3gicos pr\u00f3prios. O mito em Ter\u00eaza \u00e9, pois, muito mais que um tema recorrente: \u00e9 uma atmosfera, conseguida atrav\u00e9s de um olhar particular que, como num rito de inicia\u00e7\u00e3o, transforma o mundo vis\u00edvel e seus significantes pr\u00f3prios da vida secular.<\/p>\n<h3>N\u00cdVEIS DO MITO<\/h3>\n<p>O tratamento do mito na poesia de Ter\u00eaza se d\u00e1 de diferentes formas e em diferentes n\u00edveis. Podemos, no entanto, identificar certa aproxima\u00e7\u00e3o entre determinadas obras que nos leva a coloc\u00e1-las, com suas idiossincrasias e particularidades formais e tem\u00e1ticas, em tr\u00eas grandes blocos: os tr\u00eas primeiros livros (Par\u00e1bola, 1970; O c\u00edrculo e a pir\u00e2mide, 1976; Mandala, 1980) comp\u00f5em o bloco que por ora chamaremos de \u201cmito geom\u00e9trico\u201d; os tr\u00eas seguintes (Noturno selvagem, 1981; Poemaceso, 1985; Corpo da terra, 1994) comp\u00f5em um segundo bloco, o \u201cmito org\u00e2nico\u201d; por fim, F\u00e1bula do abismo, de 1996 e o mais recente A casa que dorme, de 2002, fecham a obra publicada at\u00e9 agora com o que chamamos de \u201cmito consolidado\u201d. [3. Essa agrupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser definitiva. Baseia-se muito mais na nossa percep\u00e7\u00e3o de como evolui o tratamento dado ao mito na obra da poeta, de como o universo teresiano vai tomando forma, envolvendo sua poesia de modo que o mito deixa de ser um tema e passa a um elemento constitutivo da po\u00e9tica de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio.]<\/p>\n<p>O bloco do \u201cmito geom\u00e9trico\u201d inicia a trajet\u00f3ria mito-universal \u00e0 mito-interior. A cada livro desse bloco a autora desprende-se mais do mito cl\u00e1ssico, algumas vezes reinterpretando-o, outras, utilizando significantes modernos na constru\u00e7\u00e3o do novo mito. Com este movimento, que alcan\u00e7a seu \u00e1pice em <em>Mandala,<\/em> a autora desprende-se tamb\u00e9m do rigor das formas geom\u00e9tricas, aqui impregnadas de uma simbologia m\u00edstica claramente influenciada pela cabala e pela alquimia.<\/p>\n<p>O segundo bloco, o do \u201cmito org\u00e2nico\u201d, \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o natural do que se pronunciava em <em>Mandala<\/em>: partindo do mito cl\u00e1ssico, mergulha cada vez mais no mito-interior. Com <em>Noturno selvagem<\/em> o mito se incorpora definitivamente a sua poesia como um s\u00f3 organismo integrado e indissoci\u00e1vel de sua escritura. Volta-se para o mito do amor &#8211; principalmente em\u00a0<em>Poemaceso<\/em>, da inf\u00e2ncia, da perda. [4.\u00a0Como no cap\u00edtulo eleg\u00edaco \u201cIntersigno\u201d, de <em>Corpo da Terra, <\/em>dedicado a seu pai, Ranulfo Ten\u00f3rio.]\u00a0<em>Corpo da terra<\/em> representa a nosso ver o ponto culminante do mito neste bloco, com direito a um ap\u00eandice dentro do pr\u00f3prio livro que \u00e9 o poema <em>O narguil\u00e9 do xam\u00e3 de Cybelius Manzini<\/em>, de tom claramente autobiogr\u00e1fico e subversivo, tanto no que se refere \u00e0 forma quanto \u00e0 ideologia. [5.\u00a0<em>O narguil\u00e9 do xam\u00e3<\/em> renega o pensamento l\u00f3gico em favor do que Doucet (2001:22-51) chama de pensamento m\u00e1gico, em que se baseia o xamanismo.]<\/p>\n<h3>O MITO CONSOLIDADO<\/h3>\n<p>\u00c9 em <em>F\u00e1bula do abismo <\/em>(1999) \u2013 e conseq\u00fcentemente no bloco do \u201cmito consolidado\u201d &#8211; que vemos o tratamento mais primoroso do mito na obra de Ter\u00eaza. Embora retome os cl\u00e1ssicos gregos e cabal\u00edsticos \u2013 as figuras de Orfeu e Lilith aparecem diversas vezes \u2013 apropria-se a poeta dessas imagens que agora s\u00e3o parte integrante de seu mundo, dona que \u00e9 de seu pr\u00f3prio abismo, aquele a que se lan\u00e7a todo poeta a cada verso.<\/p>\n<p>Uma vez que expusemos brevemente nossa compreens\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do m\u00edtico na obra de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio, seria importante concentrar-nos na atmosfera de cada obra em particular. Infelizmente a limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o impede tal feito, de modo que discorreremos apenas sobre o bloco do \u201cmito geom\u00e9trico\u201d, deixando os outros dois para um estudo posterior.<\/p>\n<p><em>Par\u00e1bola<\/em> (1970) \u00e9 o primeiro livro da autora, escrito quando tinha apenas 17 anos, mas que j\u00e1 apresenta aspectos que estariam presentes em toda a sua obra. O termo par\u00e1bola \u00e9 normalmente associado \u00e0 narrativa aleg\u00f3rica que encerra preceitos religiosos. Isto at\u00e9 parece refor\u00e7ado se consideramos os poemas que iniciam e fecham o livro (<em>Ret\u00e9m eterna a vida<\/em> e <em>T\u00e9rminus<\/em>), com uma tem\u00e1tica claramente crist\u00e3. Ao percorrer o resto do livro, no entanto, notamos que a verdadeira par\u00e1bola desenha-se no universo, atrav\u00e9s da viagem a que nos convida a autora. Subimos ao espa\u00e7o como astro-argonautas at\u00e9 Alfa-centauro e percorremos um cosmos repleto de seres m\u00edticos. O movimento da par\u00e1bola nos traz de volta a Terra, que tamb\u00e9m j\u00e1 recobra ares de universo paralelo, reconstru\u00eddo pelo olhar l\u00edquido de Ter\u00eaza.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 identificamos a semente da recria\u00e7\u00e3o do mito moderno, pela utiliza\u00e7\u00e3o de significantes inusitados:<\/p>\n<p><em>A paisagem acr\u00edlica<br \/>\n<\/em><em>de Alfa-centauro<br \/>\n<\/em><em>evolui met\u00e1lica<br \/>\n<\/em><em>ante nossos olhos.<\/em><\/p>\n<p><em>Antiformas b\u00e9licas<br \/>\n<\/em><em>de astronaves mudas<br \/>\n<\/em><em>(a mudez da pedra<br \/>\n<\/em><em>gritante de um Buda).<\/em><\/p>\n<p>Da mesma forma, no poema que marca a descida \u00e0 Terra depois da viagem c\u00f3smica, observamos a particularidade do olhar teresiano. Neste poema, intitulado <em>Paisagem do Recife<\/em>, a pr\u00f3pria cidade transmuta-se num ser m\u00edtico, como uma Atl\u00e2ntida viva:<\/p>\n<p><em>Mil olhos cresceram como rios<br \/>\n<\/em><em>e encheram cidades. A enxurrada<br \/>\n<\/em><em>afogou papiros, peixes. Gar\u00e7as mortas<br \/>\n<\/em><em>s\u00e3o n\u2019\u00e1gua.<\/em><\/p>\n<p><em>Calcamos sil\u00eancios e matinas<br \/>\n<\/em><em>num longo desgaste. Hier\u00f3glifos<br \/>\n<\/em><em>brotaram das esfinges onde retinas<br \/>\n<\/em><em>s\u00e3o l\u00f3tus.<\/em><\/p>\n<p><em>Hipocampos, monstros do dil\u00favio<br \/>\n<\/em><em>(a alucina\u00e7\u00e3o configurada).<br \/>\n<\/em><em>Teus cabelos s\u00e3o pontes sobre os rios:<br \/>\n<\/em><em>\u00e9s p\u00e1tria.<\/em>\u00a0[6.\u00a0Este recurso, ali\u00e1s, ser\u00e1 uma constante em toda a obra de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio. Envolve o leitor em seu universo para surpreend\u00ea-lo com significantes inusitado que o arrastam mais profundamente ao universo da autora. Veja-se por exemplo: <em>Quero falar de amor e silencioso\/ como os amados h\u00e1 longo tempo ausentes\/ ele retorna sua forma a meu lado\/ belo corpo de n\u00e1ufrago adormecido\/ ou enigm\u00e1tico rio noturno\/ fluindo-me em dire\u00e7\u00e3o aos hemisf\u00e9rios boreais\/ atrav\u00e9s de avenidas e bulevares\/ por sobre os viadutos iluminados de l\u00e2mpadas n\u00e9on\/ aos poucos invadidos pelo sol. (Noturno selvagem, 1981)<\/em>]<\/p>\n<h3>O C\u00cdRCULO E A PIR\u00c2MIDE<\/h3>\n<p>Em <em>O c\u00edrculo e a pir\u00e2mide<\/em> a poesia teresiana mergulha cada vez mais na simbologia m\u00edstica. Ambas as formas geom\u00e9tricas do t\u00edtulo t\u00eam uma carga simb\u00f3lica que remonta dos eg\u00edpcios: a pir\u00e2mide simboliza o eixo do mundo, enquanto o c\u00edrculo o pr\u00f3prio mundo. [7.\u00a0Se pensarmos nos s\u00edmbolos alqu\u00edmicos, o tri\u00e2ngulo tem uma dupla significa\u00e7\u00e3o: representa a \u00e1gua, o princ\u00edpio feminino, quando voltado para baixo; representa o fogo, o princ\u00edpio masculino quando voltado para cima. O c\u00edrculo com um ponto no centro \u00e9 o s\u00edmbolo do sol. A jun\u00e7\u00e3o dos dois tri\u00e2ngulos dentro de um c\u00edrculo (estrela de Davi) representam a busca pela pedra filosofal, ou, no caso de Ter\u00eaza, a pr\u00f3pria busca pela integra\u00e7\u00e3o do homem com sua natureza m\u00e1gica.]\u00a0H\u00e1, na verdade, uma profus\u00e3o sincr\u00e9tica de mitos nesta obra: a figura eg\u00edpcia do <em>Ba <\/em>(a alma imortal, o ego junguiano) e do <em>Ka <\/em>(a for\u00e7a criativa do homem) (DOUCET, 2001:116-122); um claro intertexto com <em>A Odiss\u00e9ia, <\/em>no qual o narrador \u00e9 sempre uma figura feminina, muitas vezes identificada com Pen\u00e9lope; al\u00e9m disto, sugerem-se aqui os ritos de passagem celtas e escandinavos. Da mesma forma, as imagens marinhas, t\u00e3o presentes em sua poesia, ganham for\u00e7a:<\/p>\n<p><em>Os homens partiram com as gaivotas<br \/>\n<\/em><em>\u00c0 dist\u00e2ncia ainda brilha o branco<br \/>\n<\/em><em>das longas velas latinas.<\/em><\/p>\n<p><em>A \u00faltima nau lentamente desapareceu<br \/>\n<\/em><em>al\u00e9m do riscado de espuma.<br \/>\n<\/em><em>&#8211; Cavaleiros do mar! O grito desperta<br \/>\n<\/em><em>o sono mitol\u00f3gico de Netuno,<br \/>\n<\/em><em>e ei-lo a emergir das \u00e1guas \u00e0 praia<br \/>\n<\/em><em>num cortejo tumultuado de trit\u00f5es, peixes<b>\u00a0<\/b>e estrelas<\/em> <em>marinhas.<\/em>[8.\u00a0A imagem do peixe assume diferentes valores ao longo da obra de Ter\u00eaza Ten\u00f3rio, o que por si s\u00f3 j\u00e1 seria tema para uma grande discuss\u00e3o. O s\u00edmbolo do peixe na cultura crist\u00e3 est\u00e1 associado a Cristo, uma vez que a palavra grega <em>ictos <\/em>corresponde \u00e0s iniciais na mesma l\u00edngua para \u201cJesus Cristo, Filho de Deus e Salvador\u201d (BRUCE-MITFORD, 2001:18).]<\/p>\n<p>A figura do protetor da vida \u00e9 representada no hindu\u00edsmo por Vishnu, que forma parte da divina trindade junto com Brahma (o criador) e Shiva (o destruidor). Vishnu \u00e9 normalmente associado tamb\u00e9m ao peixe, uma de suas personifica\u00e7\u00f5es. Na mitologia celta a imagem do peixe est\u00e1 associada \u00e0 Deusa M\u00e3e, uma vez que \u00e9 s\u00edmbolo da fertilidade e ao mesmo tempo da morte: a M\u00e3e Terr\u00edvel que d\u00e1 a vida e a devora. Observe-se a recorr\u00eancia da imagem do peixe na poesia teresiana:<\/p>\n<p><em>\u201cfluidos seres submarinos<br \/>\n<\/em><em>homens-peixes e sereias<br \/>\n<\/em><em>com a maldi\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina<br \/>\n<\/em><em>e insuper\u00e1vel tristeza.\u201d<\/em><\/p>\n<p>(Nave, <em>Par\u00e1bola<\/em>)<\/p>\n<p><em>\u201cNo epicentro das ondas invis\u00edveis<br \/>\n<\/em><em>edifiquei mandalas para os celtas<br \/>\n<\/em><em>habitantes dos \u00faltimos mil\u00eanios<br \/>\n<\/em><em>guelras de peixes e barbatanas retas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>(Virtual, <em>F\u00e1bula do abismo<\/em>)<\/p>\n<p><em>\u201cDizem que o aceso peixe flui<br \/>\n<\/em><em>por entre m\u00e3os quietas do destino\u201d<\/em><\/p>\n<p>(Da transpar\u00eancia dos s\u00edmbolos, <em>Mandala<\/em>)]<\/p>\n<h3>A ALQUIMIA M\u00c1XIMA<\/h3>\n<p><em>Mandala<\/em> \u00e9 o mais alqu\u00edmico livro deste bloco. A mandala \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o circular de uma <em>yantra<\/em>, diagrama hindu utilizado para a medita\u00e7\u00e3o, normalmente colocado dentro de um quadrado. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas do hindu\u00edsmo que retira Ter\u00eaza a inspira\u00e7\u00e3o para a atmosfera m\u00edtica deste livro. O universo mitol\u00f3gico de que se vale \u00e9 amplo: germ\u00e2nico (Lorelai), n\u00f3rdico (Cemit\u00e9rio das Baleias), celta (Melusina), hebraico-cabal\u00edstico (A dan\u00e7a dos golens), japon\u00eas (Elegia de Genji), grego (Teseu), crist\u00e3o (Via Sacra). Mas longe de ser apenas uma colcha de retalhos mitol\u00f3gica, <em>Mandala <\/em>recobra o mito-interior a partir das recria\u00e7\u00f5es teresianas. \u00c9 assim que cada mito \u00e9 devorado e re-significado, transcendendo o mito-universal, como no soneto \u201cO Kamikaze\u201d:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o apenas \u00cdcaro e seu v\u00f4o<br \/>\n<\/em><em>sobre a agreste costa mas somente<br \/>\n<\/em><em>a fixidez dos olhos do her\u00f3i<br \/>\n<\/em><em>a refletir o templo dos mortos.<\/em><\/p>\n<p><em>Antes o escondesse sob as fluidas<br \/>\n<\/em><em>nuvens que envolveram as con\u00edferas<br \/>\n<\/em><em>durante o inverno da Noruega<br \/>\n<\/em><em>ou nos arrabaldes de Estocolmo.<\/em><\/p>\n<p><em>Talvez haja alguma semelhan\u00e7a<br \/>\n<\/em><em>entre as estrelas e o olhar do her\u00f3i<br \/>\n<\/em><em>despeda\u00e7ado al\u00e9m dos penhascos:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; A certeza do jamais retorno<br \/>\n<\/em><em>l\u00e1 onde n\u00e3o haver\u00e1 encontros<br \/>\n<\/em><em>ou sons remotos quase inaud\u00edveis.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 o c\u00edrculo da mandala que se fecha, quando o mito leva o homem de volta aos jardins ed\u00eanicos, ao tempo m\u00e1gico perdido da palavra primordial. \u00c9 na palavra que guarda Ter\u00eaza Ten\u00f3rio o segredo do mito, como nos diria a pr\u00f3pria poeta: \u201cH\u00e1 noites em que eu perco\/ a atmosfera do poema\/ Retomo a fala obscura\/ na l\u00edmbica fenda\/ o signo oracular do universo\/ on\u00edrico\/ o verso mural\/ transverso.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h3>\n<p>BEZERRA, Jaci (org). <em>Gera\u00e7\u00e3o 65: o livro dos 30 anos. <\/em>Recife: FUNDARPE\/ FUNDAJ, 1998.<\/p>\n<p>BRUCE-MITFORD, Miranda. <em>O livro ilustrado dos s\u00edmbolos: o universo de imagens que representam as id\u00e9ias e os fen\u00f4menos da realidade. <\/em>S\u00e3o Paulo: Publifolha, 2001.<\/p>\n<p>C\u00c2MARA, Le\u00f4nidas. <em>A alquimia de Mandala. in<\/em> TEN\u00d3RIO, Ter\u00eaza. <em>Mandala. <\/em>Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1980.<\/p>\n<p>DOUCET, Friedrich W. <em>O livro de ouro das ci\u00eancias ocultas: magia, alquimia e ocultismo. <\/em>Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.<\/p>\n<p>LUCAS, F\u00e1bio. <em>in <\/em>TEN\u00d3RIO, Ter\u00eaza. <em>Corpo da terra. <\/em>Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro \u2013 Recife: CELPE, 1994.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Lucila. <em>Apresenta\u00e7\u00e3o. in <\/em>TEN\u00d3RIO, Ter\u00eaza. <em>F\u00e1bula do abismo. <\/em>Recife: Edi\u00e7\u00f5es Baga\u00e7o, 1999.<\/p>\n<p>TEN\u00d3RIO, Ter\u00eaza. <em>Mandala. <\/em>Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1980.<\/p>\n<p>________________. <em> Noturno selvagem. <\/em>Recife: Edi\u00e7\u00f5es Pirata, 1981.<\/p>\n<p>________________. <em>Poemaceso. <\/em>Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985.<\/p>\n<p>________________. <em>Corpo da terra. <\/em>Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro \u2013 Recife: CELPE, 1994.<\/p>\n<p>________________. <em>F\u00e1bula do abismo. <\/em>Recife: Edi\u00e7\u00f5es Baga\u00e7o, 1999.<\/p>\n<p>________________. <em>in <\/em>SIQUEIRA, Elisabeth Ang\u00e9lica Santos (org.). <em>Retratos \u2013 a poesia feminina contempor\u00e2nea em Pernambuco. <\/em>Recife: Baga\u00e7o, 2004.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div><div class=\"speaker-mute footnotes_reference_container\"> <div class=\"footnote_container_prepare\"><p><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_label pointer\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_5926_1();\">References<\/span><span role=\"button\" tabindex=\"0\" class=\"footnote_reference_container_collapse_button\" style=\"display: none;\" onclick=\"footnote_expand_collapse_reference_container_5926_1();\">[<a id=\"footnote_reference_container_collapse_button_5926_1\">+<\/a>]<\/span><\/p><\/div> <div id=\"footnote_references_container_5926_1\" style=\"\"><table class=\"footnotes_table footnote-reference-container\"><caption class=\"accessibility\">References<\/caption> <tbody> \r\n\r\n<tr class=\"footnotes_plugin_reference_row\"> <th scope=\"row\" class=\"footnote_plugin_index_combi pointer\"  onclick=\"footnote_moveToAnchor_5926_1('footnote_plugin_tooltip_5926_1_1');\"><a id=\"footnote_plugin_reference_5926_1_1\" class=\"footnote_backlink\"><span class=\"footnote_index_arrow\">&#8593;<\/span>1<\/a><\/th> <td class=\"footnote_plugin_text\">1. Comunica\u00e7\u00e3o apresentada durante o I Col\u00f3quio de Estudos Contempor\u00e2neos, Universidade Federal de Pernambuco, 2006<\/td><\/tr>\r\n\r\n <\/tbody> <\/table> <\/div><\/div><script type=\"text\/javascript\"> function footnote_expand_reference_container_5926_1() { jQuery('#footnote_references_container_5926_1').show(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_5926_1').text('\u2212'); } function footnote_collapse_reference_container_5926_1() { jQuery('#footnote_references_container_5926_1').hide(); jQuery('#footnote_reference_container_collapse_button_5926_1').text('+'); } function footnote_expand_collapse_reference_container_5926_1() { if (jQuery('#footnote_references_container_5926_1').is(':hidden')) { footnote_expand_reference_container_5926_1(); } else { footnote_collapse_reference_container_5926_1(); } } function footnote_moveToReference_5926_1(p_str_TargetID) { footnote_expand_reference_container_5926_1(); var l_obj_Target = jQuery('#' + p_str_TargetID); 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por":"Wellington de Melo","Est. tempo de leitura":"9 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/2017\/05\/25\/a-atmosfera-mitica-e-a-recriacao-do-mito-contemporaneo-em-tereza-tenorio\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/2017\/05\/25\/a-atmosfera-mitica-e-a-recriacao-do-mito-contemporaneo-em-tereza-tenorio\/"},"author":{"name":"Wellington de Melo","@id":"https:\/\/www.wellingtondemelo.com.br\/site\/#\/schema\/person\/cf9f788f3ed8fb6ef9ea22f716e67471"},"headline":"O mito em Ter\u00eaza 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